3. Literature Review
3.1 Value Creation Framework
3.1.3 Operational Engineering
Quando falamos que os cristãos se organizam como grupo no interior do partido não queremos necessariamente dizer que todos os que estão no partido o fazem. Pelo contrário, até lideranças de CEBs são muitas vezes críticas à atuação dos chamados “povo de igreja”209, e politicamente se distanciam deles.
A idéia dos cristãos, de acreditar que só as bases(as classes populares) são agentes da transformação social, desconfiando das teorias e das práticas de pessoas provenientes de outras classes sociais, é um divisor de águas a mais a separar os chamados “povo de igreja” no interior do Partido. Ao advogar a posição de legítimos representantes dos despossuídos, dos marginalizados, ao se auto-proclamarem a voz dos sem-voz, vêem com desconfiança qualquer aproximação de pessoas de outras classes sociais, ou grupos políticos, com suas bases.
É possível perceber que alguns cristãos que adentraram no partido tinham uma prática sectária, divisionista, fazendo por merecer a qualificação de grupo político no interior do Partido. Como suas raízes estavam ligadas aos trabalhos populares da Igreja Católica a denominação povo de igreja não chegava a constituir uma ofensa.
É interessante notar também, como já havia observado Mainwaring210, que, se de início, logo após a abertura política, os cristãos estavam reticentes sobre a participação po1ítico-partidária, no momento seguinte ocorreu um fluxo muito grande de pessoas ligadas à Igreja Popular em direção ao Partido (PT), ajudando na sua estruturação211 Os agentes de pastoral se filiaram e começaram a militar no PT, e o mais interessante foi que o ceticismo inicial deu lugar a uma adesão quase que incondicional ao partido.
209 Utilizo esse termo para fazer referência as pessoas com práticas religiosas tidas como exageradas, também chamados de
Igregeiros.
210 Scott Mainwaring, op. cit., pp. 243-246.
142 Assim os membros das CEBs mais conscientes foram convidados a engrossar as fileiras do Partido.
Outro fato interessante é que se alguns agentes de pastoral, ou ex-agentes, são críticos com relação forma de atuação dos cristãos no partido, outros a defendem com unhas e dentes. “É preciso que um número cada vez maior de cristãos conscientes entre no partido, precisamos estar mais fortes para conseguir enfrentar de igual para igual os outros grupos e tendências políticas. Precisamos ter nossas próprias propostas políticas e deixar de ir a reboque das propostas dos outros. Temos que ampliar nosso poder interno, ter gente nas esferas de decisão dando a direção política”212.
Essa fala é considerada por Frei Beto como muito representativa, onde se percebe os cristãos como grupo lutando pela hegemonia dentro do partido. Nesse sentido não há como diferenciá-los de outros grupos.
As praticas e representações simbólicas dos cristãos no partido foram se alterando com o passar dos anos, inclusive por força de conjunturas políticas e sociais. As eleições de 1982, 1986 e 1988 serviram também como aprendizado político. E delas, podemos observar, decorreram mudanças tático-estratégicas na prática dos cristãos.
Em 1982 ocorreu o primeiro pleito eleitoral depois da constituição dos novos partidos políticos. Por meio do voto direto a população foi convocada para escolher governadores de Estado e prefeitos municipais em nível do poder executivo; vereadores, deputados estaduais e federais em nível do poder legislativo, além de sufragar um senador por Estado para a renovação de um terço do senado.
As eleições de 1982 aconteceram numa conjuntura política bastante diversa daquela de 1978. O bipartidarismo unia políticos de matizes e colorações ideológicas diversos em torno de um inimigo comum - o regime militar - e se isso permitia aos representantes da Igreja Popular pedir aos cristãos não aderirem ao partido de oposição (MDB), mas apoiarem os candidatos comprometidos com as lutas populares, no momento seguinte, em 1982, em regime pluripartidário, a exortação era diferenciada; falava-se, como vimos, em partidos que estivessem nas mãos da classe trabalhadora e, para os cristãos da Igreja Popular, esse partido era o PT.
Entretanto no seio da Igreja Popular começaram a aparecer divergências. Alguns agentes de pastoral (minoria) começaram a fazer uma leitura diferenciada da realidade social e dos papéis que os partidos políticos tinham que representar naquele momento.
212 Frei Beto. Os Cristãos na Po1ítica. In, A Participação dos Cristãos na Po1tica Partidária. Encarte de Tempo e Presença, nº. 212,
143 A abertura política começava a dividir os cristãos em relação ao papel que a Igreja deveria assumir naquela nova conjuntura histórica. Os membros da Igreja Popular ou seus simpatizantes que não tivessem aderido ao PT começavam a ser vistos com desconfiança pelos agentes de Pastoral. Agora não bastava apenas ser contra o regime militar, não bastava se proclamar socialista, ser contra a sociedade de classes, não bastava ser de esquerda. A autêntica oposição era o PT. Sem medo de cometer injustiças essa era a opinião da maior parte dos cristãos petistas.
Mas em 1982 havia ainda algo singular no processo eleitoral. Os cristãos, apesar de terem lançado candidatos próprios tinham uma visão muito monolítica do PT.
A crítica que Paulo César Loureiro Botas faz ao processo por meio do qual os agentes da pastoral popular fizeram do PT um novo messias é muito coerente213, porém mais provocativa e contundente foi a análise de José Arthur Gianotti. Analisando o PT desde a sua fundação até o pleito eleitoral de 1982, diagnosticando as forças sociais que o compunham, e as representações simbólicas que o estruturavam afirmava: “A solidariedade operária, temperada na fábrica, converte-se na comunidade dos eleitos que recebem a palavra divina e a missão de comunicá-la aos gentios. Espírito sectário, onde a representação da verdade substitui a representação política, e a mediação do representante cede espaço para a imediação fascista. Encarnando o Futuro e a força da História, os membros do novo partido se pensam assim como instrumentos da vontade popular que não cuidam de colher e informar. Só eles são os puros, só eles os corretos: os demais, ladrões. E com isso as iniqüidades sociais são pensadas como iniqüidades morais, restabelecendo aquela velha idéia de que a questão social se resolve graças à reforma dos indivíduos. Transforma-se então o político em pedagogo ou missionário?”214.
Em 1982 a prática sectária do PT como um todo ameniza, e de certa forma oculta, o sectarismo dos cristãos petistas. A comunidade dos eleitos a que se refere Gianotti é o próprio PT, seja em nível da prática política seja em nível de sua auto- representação. O PT era o messias que conduziria o povo brasileiro na direção de uma nova sociedade.
O momento histórico, as injunções políticas fizeram os cristãos reavaliarem sua participação política como grupo no interior do PT. Se em 1982 a meta fundamental era construir o partido, em 1988 a luta pela hegemonia, calcada em princípios políticos,
213 Paulo César Botas “Sou do PT porque é o partido que está no Plano de Deus”. 214 José Arthur Gianotti, PT, princípio e campanha. Folha de São Paulo, 23/11/1982.
144 movia os cristãos na luta para eleger seus próprios candidatos. O PT, agora, já não era o partido sem manchas, imaculado, que lutava contra as classes dominantes que exploravam o povo. O PT era a arena dos conflitos entre práticas e visões de mundo variadas, que dividiam os próprios cristãos no interior do Partido. Em decorrência disso os agentes de pastoral petistas definiram seus próprios princípios políticos, numa tentativa, talvez ,de unir os cristãos e outros setores do partido afinados com propostas semelhantes.