(...) ser uma profissional e levar a sério a profissão que escolheu. (Entrevista com a Professora Pesquisada I)
A partir da leitura das entrevistas foram formulados quadros que nos guiaram na organização dos dados, o que nos levou a querer conhecer esse grupo de profissionais. Também elaboramos algumas questões que nos ajudaram na interpretação, dando um sentido para o que as professoras de bebês da creche conveniada nos relataram sobre a profissão:
- Quem são essas professoras que atuam com bebês em uma creche conveniada?
- É possível traçar um perfil para as profissionais que trabalham com bebês? - Há uma característica comum para essas profissionais?
- Que motivos as influenciaram na escolha da profissão “professora de bebês”? Nossa busca foi tentar traçar um perfil profissional para as professoras de bebês pesquisadas. Essa foi uma das primeiras iniciativas pensadas neste trabalho e que acompanhou toda a faina do nosso olhar no decorrer das entrevistas. Acreditamos que contribuirá para a construção de uma visibilidade deste grupo de profissionais, pois nos proporcionou conhecer um pouco das identidades profissionais dessas professoras que atuam em uma creche conveniada.
As professoras de bebês que participaram da nossa pesquisa nos permitiram abordar aspectos da sua condição pessoal (idade, estado civil, filhos, se freqüentou a educação infantil) e profissional (como aconteceu à escolha pela profissão, quando iniciou o magistério, como vem construindo seu percurso profissional), o que contribuiu para aprofundarmos nossas análises, proporcionando um retrato do conjunto desses sujeitos. Assim, como afirma Ávila (2002):
As identidades são construídas, são campos do social em que os sujeitos se revelam e se movem, confrontam igualdades e diferenças em relação aos modos de ser, de pensar, de agir, inteiros, múltiplos e também contraditórios, com suas opções político-ideológicas, com as possibilidades de identificação ou negação das suas condições de classe, raça, gênero e idade. (Idem, 2002, p. 57).
73
Caminhando por um percurso não linear, mas de idas e vindas às entrevistas, em uma constante leitura e releitura das mesmas, foi possível delinear os pontos mais relevantes da identidade profissional das professoras. Com esta intencionalidade, detivemo-nos a conhecer e problematizar, de modo particular, como cada professora fez sua escolha pela profissão e a sua permanência na mesma, uma busca continua em
“saber quem são essas mulheres, profissionais, que atualmente passam parte do seu dia no contexto coletivo de educação e cuidado; saber sobre sua formação; saber sobre sua atuação.” (Duarte, 2011, p. 107-108).
O perfil profissional e a construção das identidades profissionais iniciam-se a partir de aspectos heterogêneos, não sendo possível traçar uma identidade de caráter homogêneo para as professoras, o que exigiu-nos uma passagem pela individualidade que cada professora apresentou. Podemos dizer que dentro desta individualidade é que surge a heterogeneidade, em que cada professora vai construindo ao longo da sua vida pessoal e profissional sua identidade de professora de bebês. Carvalho (2007) corrobora nessa questão, dizendo que “não existe “o” professor, há vários modos de ser professor
e a vantagem é exactamente essa. Há vários modos de ser bom professor, que acaba, na escola, por se traduzir numa boa articulação entre a realização pessoal e a responsabilidade colectiva.” (p.33). Foi possível verificar que as reflexões dessa autora
influenciam decididamente na construção das identidades profissionais.
De forma mais implícita ou explícita, foi possível identificar como foram emergindo, a partir do contexto da vida cotidiana, de suas experiências pessoais e profissionais, traços da construção das identidades profissionais que as fizeram se tornar professoras, tanto no que diz respeito à escolha, como à permanência na profissão. Desta forma, dar voz às professoras de bebês nos permitiu encontrar em suas falas, os sentidos dados à escolha da profissão, tema ainda pouco pesquisado. Isso devido ao fato de que “ser professor de bebês é uma nova profissão na área da pedagogia” (Mello, 2012, p. 14).
74
3.1 O perfil profissional das professoras de bebês
Nesta seção discutiremos o perfil pessoal e profissional das professoras de bebês pesquisadas I, II e III26. Os relatos dessas três professoras evocam temas que surgiram a partir de situações experienciadas por elas no percurso do exercício da profissão. As professoras trazem aspectos da profissão que revelam particularidades e peculiaridades, que acabam se tornando muito comum desse grupo profissional e que ajuda a pensar o fazer dessa profissão. Percebi que suas vozes anunciam uma vida que é compartilhada cotidianamente e que buscam a construção da coletividade no dia a dia da instituição. Anunciam que o “estar com os bebês diariamente não pode ser um
trabalho isolado, em que se faz sozinha, ele exige ajuda mútua e colaboração” (Entrevista com a Professora Pesquisada II). Também como afirma a professora
pesquisada I:
A pedagogia e a formação continuada que são as paradas pedagógicas é que tem me auxiliado no trabalho com os bebês. Fora isso, não tenho outros envolvimentos. Mas, procuro conversar, tirar dúvidas, sugestões com outras professoras, coordenadora, parentes que também são professoras, a própria internet. As outras professoras acabam sendo meu apoio, pois a gente nunca trabalha sozinha, sempre em grupo, elas sempre estão ajudando e eu sempre procuro colher um pouquinho de cada para meu trabalho com os bebês. (Entrevista com a Professora Pesquisada I).
A respeito das individualidades pessoais e profissionais de cada uma das professoras pesquisadas, constato que a construção da profissão se dá a partir da formação inicial e das experiências compartilhadas no percurso de cada trajetória com seus pares. O que talvez possibilite as professoras estabelecerem traços comuns ao perfil profissional.
Como podemos perceber em uma das passagens da entrevista da professora pesquisada I, quando diz: “A pedagogia e a formação continuada que são as paradas
pedagógicas é que tem me auxiliado no trabalho com os bebês”. Essa professora é
iniciante no campo da educação infantil, como veremos na tabela abaixo está três anos atuando com bebês, mesmo sendo recente na profissão, ela deixa claro suas impressões
26Como descrevemos na metodologia, iremos denominar professoras de bebês pesquisadas I, II, III
quando nos referirmos as professoras entrevistadas, salvaguardando o anonimato dos sujeitos participante da pesquisa.
75
em relação ao que contribui na construção de sua identidade como professora de bebês: “(...) eu sempre procuro colher um pouquinho de cada para meu trabalho com os
bebês”. O mesmo acontece no caso das professoras pesquisadas II e III, que embora já
tenham alguns anos de magistério também mencionaram a formação e a troca de experiências como canais importantes e definidores de suas identidades profissionais. Em todos os três casos, existem pontos que se entrecruzam, mas também há pontos peculiares de cada uma, no qual revelam e deixam claro aspectos de suas subjetividades e idiossincrasias. O que fica evidenciado é que o perfil pessoal e profissional traz implicações no modo que cada professora constrói suas identidades profissionais, implicações que se encontram e dão sentido para o trabalho com os bebês. Nisso consideramos pertinente citar novamente as palavras de Ávila (2002) ao afirmar que:
Ao mesmo tempo em que são instituídas essas identidades nos sujeitos, eles próprios às instituem. Pertencem a elas, mas também as gestam. As identidades não são “camisas de força” que aprisionam os sujeitos, ou uma instância que agrega os sujeitos pelas suas similaridades, concordâncias e identificações sem conflitos. (Idem, 2002, p. 57).
A amostra revelou que as pesquisadas têm idade marcada entre os 20, 30 e 40 anos de idade e duas delas são casadas. Das três professoras pesquisadas duas tem filhos, sendo que uma tem cinco (5) filhos na idade entre os doze (12) e vinte e sete (27) anos e a outra têm dois (2) filhos, na idade entre cinco (5) e sete (7) anos. A professora pesquisada I que não possui filhos deixa explícito que se sente um pouco mãe na sua atuação com os bebês. Nas entrevistas foi possível perceber que apenas uma professora frequentou a educação infantil e ela traz lembranças desse período da infância. Esses elementos acabam por compor a vida pessoal dessas mulheres, que além de serem profissionais também assumem outros papéis.
Trata-se, portanto, de mulheres que apresentam idades e organização familiar diferentes, contextos de vidas muito particulares, mas que estão em um processo permanente de construção identitária, o qual é marcado e recheado por traços que em muitas situações se tornam comuns; porém como venho destacando, não deixa de revelar as individualidades de cada professora. Nesse sentido, “a coexistência dos
papéis profissionais e familiares mostra-se particularmente complexa” (Ongare e
Molina, 2003, p. 42), mas que são elementos significativos para sua profissão e que precisam ser considerados. Nos três quadros a seguir trazemos dados pessoais das professoras de bebês pesquisadas:
76
Quadro 9 – Dados pessoais da entrevistada
Professora de Bebês Pesquisada I
Idade 21 anos
Sexo Feminino
Estado Civil Solteira
Filho(s) Nenhum
Freqüentou EI Aos 3 anos
Elaborado com base nas informações das entrevistas.
Quadro 10 – Dados pessoais da entrevistada
Professora de Bebês Pesquisada II
Idade 47
Sexo Feminino
Estado Civil Casada Filho(s) 5 filhos Frequentou EI Não
Elaborado com base nas informações das entrevistas.