Nessa leitura resumida do processo de preservação histórica em nosso país, o que se percebe é que o desafio da preservação do patrimônio cultural, e particularmente, no que se refere ao patrimônio ambiental urbano, é, também, o desafio da construção de um modelo de desenvolvimento socioeconômico que seja socialmente justo e ambientalmente equilibrado. Acredita-se que no momento, conforme já observado, a grande questão que se apresenta para o tratamento do espaço urbano no país, diz respeito à instituição de um novo modelo de gestão urbana que tenha como meta possibilitar o pleno exercício da cidadania, a inclusão social e a melhoria da urbanidade nas cidades brasileiras.
Nessa perspectiva, a ação preservacionista torna-se um componente importante no processo de definição de valores e parâmetros de intervenção no espaço urbano. Desse modo, sua contribuição não pode ser encarada como uma questão secundária e alegórica no processo de desenvolvimento. Sua realização impõe o trato das questões de ordem social, política e econômica que envolvem a vida cotidiana, pois somente assim será possível integrá-la à dinâmica social de forma que possa ser entendida e valorizada no processo de construção da cidade. Para tanto, é necessário tentar fazer cumprir uma conhecida fórmula apresentada por Malgadi: Preservação = Identidade Cultural = Qualidade de Vida.181
Obviamente, que esta não é uma questão fácil de ser enfrentada em um país como o nosso. Seu equacionamento pressupõe a construção de um complexo pacto político, que busque compatibilizar os interesses dos mais diversos segmentos envolvidos no processo de construção da cidade, e se ampare em conceitos como urbanidade, cidadania, inclusão, diversidade social e cultural. Portanto, torna-se imprescindível ampliar e fortalecer os canais de participação da sociedade na gestão dos seus problemas. Isso diz respeito, particularmente, a criação de mecanismos que contemplem a inclusão dos segmentos menos favorecidos que quase nunca têm direito a voz nesse jogo de forças.
Para tanto, torna-se necessário romper com o pensamento tecnicista, burocratizado e elitizado que, por vezes, ainda se mostra fortemente inserido no
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modelo de atuação das nossas instituições públicas. Ao mesmo tempo em que é preciso rever o arcabouço institucional da máquina estatal, que com sua estrutura administrativa fragmentada e autarquizada dificulta e compromete uma ação integrada do Poder Público no enfrentamento desses problemas. Essas observações nos remetem à necessidade de uma reforma administrativa, que busque não só melhor instrumentar a máquina pública dando-lhe outra dinâmica operacional, como também, alterar a sua lógica de funcionamento, buscando estabelecer uma ordem política pautada em novas prioridades.
Isso não quer dizer que se tenha que abraçar o modelo neoliberal que está em prática em nosso país, e deixar por conta do mercado, esse personagem sem rosto, mas de garras bem conhecidas, a condução do processo de gerenciamento urbano e cultural. Também, não se trata de tutelar a sociedade e estabelecer seus destinos, mas sim de reconhecer uma realidade institucional adversa e buscar um caminho mais responsável e melhor compartilhado entre Poder Público e sociedade, na gestão dos problemas urbanos.
Com essas observações o que se busca é uma reflexão sobre a fragilidade e descontinuidade da prática preservacionista em nosso país, que até o momento não tem conseguido consolidar-se como uma ação cotidiana no processo de desenvolvimento urbano. Nessa leitura, podemos constatar o profundo descaso com a proteção e gerenciamento dos centros históricos, associado a uma prática de trabalho institucional que tem uma enorme dificuldade de se renovar e incorporar novos conceitos e posturas. E as experiências positivas existentes lutam desesperadamente para sobreviverem ao reiterado processo de descontinuidade operacional e falta de prioridade política. Evidentemente que em uma sociedade como a nossa, amparada em ações conservadoras e quase sempre de caráter autoritário, e que se pauta por um modelo estereotipado de modernidade, não é de se estranhar que a questão patrimonial receba esse tratamento.
Para o trabalho de salvaguarda histórica ser incluído, efetivamente, na vida urbana cotidiana e passe a desempenhar o papel social que lhe cabe, deve-se ter o cuidado para que as ações de preservação do patrimônio ambiental urbano, não venham ser tratadas como uma atitude que mascare os conflitos sociais embutidos no processo de construção da cidade. E seja mais um instrumento de exploração econômica e consagração da história dos segmentos sociais que sempre detiveram o controle político da sociedade. Do mesmo modo, não se pode cair na tentação de tentar recuperar (manter) a memória de um passado urbano, idealizado e
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romantizado como um paraíso perdido, por meio da construção de verdadeiros cenários históricos assépticos e de tradições que, na verdade, nunca existiram.
Para ilustrar esse modelo de intervenção, onde se busca reconstruir passados históricos idealizados, cabe recorrer uma vez mais a Mariani que, ao tratar do caso da restauração de Bolonha – Itália (que ele inclusive participou), nos oferece um bom exemplo sobre o que ele chama de positivismo histórico:182
Bolonha tornou-se uma cidade exemplo na Europa porque foi feito o saneamento do Centro Histórico (...) Tratava-se da administração da esquerda da cidade de Bolonha que teve uma idéia revolucionária, isto é, o dinheiro público que devia servir para construir os novos alojamentos na cidade (...), foi investido para expropriar o Centro Histórico e transformar instalações do Centro em alojamentos sociais. Nisso está a idéia revolucionária, genial. (...) O drama ocorreu depois, quando se tratava de entender o que restaurar e como restaurar e, assim, o drama surgiu da interpretação histórica que fora feita da cidade de Bolonha, (...) pensem na maravilha, na nossa admiração e também na nossa angústia, quando, terminados os trabalhos de restauro na cidade, segundo uma certa lógica racionalista, descobrimos que Bolonha era uma cidade de água, isto é, uma cidade como Veneza, metade da cidade de Bolonha era exatamente como Veneza: canais para água em frente as casas e as ruas de meia Bolonha vivia sobre a água. A morfologia da cidade de Bolonha é o resultado de uma vida sobre a água e de uma economia sobre a água, o que significa trabalho sobre tecidos, tintura de tecidos etc.
Porém, hoje Bolonha assumiu uma nova realidade que jamais lhe pertenceu se considerarmos a verdadeira história dessa cidade...
Ora, esta nossa idéia de racionalizar tudo, implica o risco de conduzirmos a uma dimensão histórica que jamais existiu; com tal tipo de cultura corremos o perigo de restaurar cidades que jamais existiram e arquiteturas que nunca existiram, ou seja, estamos reinventando a cidade, o território e a arquitetura. Tudo isso tendo como base a lógica absurda da simplificação e a recusa da complexidade do núcleo histórico e do território.183
Portanto, é preciso cautela com modelos de intervenção urbana que ultimamente (a partir dos anos de 1990) vêm sendo executados em várias cidades brasileiras, e que privilegiam apenas o caráter estético e turístico dos espaços históricos, desprezando toda a potencialidade funcional e a diversidade sociocultural que essas áreas podem oferecer. Ainda que no primeiro momento esse tipo de intervenção cause interesse e euforia, pela dinâmica urbana que geram em função da novidade da recuperação físico-ambiental desses espaços históricos, associada à força da mídia em divulgá-las junto às classes dominantes, é necessário pensar na sua sustentabilidade social, econômica e cultural. Situação esta onde o trabalho desenvolvido atualmente no centro histórico de Salvador, na área do pelourinho, parece se enquadrar.
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Mariani, Riccardo (1991) op. cit. p. 65
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