KAPITTEL 5 RESULTAT OG ANALYSE AV EGEN UNDERSØKELSE
5.1 K ONTRAKTENS BETYDNING
Ao longo de pouco mais de 20 anos trabalhando como cineasta na Rússia, Tarkovski enfrentou toda espécie de problemas burocráticos, tanto com o comitê oficial de cinema,
216TARKOVSKI, A. Diários. (1970-1986). Trad. Alexei Lázarev. São Paulo: É Realizações Editora Ltda, 2012.
p. 9.
217TARKOVSKI, A. Diários. (1970-1986). p. 14. 218TARKOVSKI, A. Diários. (1970-1986). p. 22. 219
TARKOVSKI, A. In: BIRD, R. Andrei Tarkovski – Elements of cinema. p. 125: “We want to make a film about what childhood means for a man. About the longing for childhood and the nostalgia for what has been lost that exist in each of us. And it will also be a film about a Mother. About her difficult life, her joys, her losses and misfortunes, her predestination and her immortality”.
como com a empresa estatal Mosfilm, que criavam todo e qualquer tipo de obstáculo para retardar seus projetos ou para não o deixar trabalhar. Não é a toa que em todo esse tempo de trabalho na Rússia Tarkovski só tenha conseguido realizar sete filmes. Sobre o desgosto que sentia pela censura que vinha sofrendo e a dificuldade que encontrava em trabalhar em solo russo, Tarkovski comenta no dia 20 de outubro em seu diário:
Um dos meus maus pensamentos: ninguém precisa de você, você está completamente alheio à sua própria cultura, você não faz nada por ela, você é uma nulidade. Mas na Europa, e em outros lugares, perguntam a sério: “Quem é o melhor diretor de cinema da União Soviética?” E respondem: “Tarkovski”. Mas em nosso país guardam silêncio. Eu não existo, e não sou nada. É o chamado “um instante de fraqueza”. É muito difícil sentir que se é inútil. E não quero ter valor nenhum. Quero preencher completamente a vida ou as vidas das pessoas. Estou apertado, a minha alma está apertada, preciso de algum outro recipiente220.
Tudo isso culminou a partir de 1982 em seu autoexílio na Itália, onde veio a realizar seus dois filmes seguintes: Tempo de viagem (1983), documentário dirigido juntamente com Tonino Guerra e Nostalgia (1983) filme cujo roteiro também foi dividido com Tonino, um poeta e roteirista italiano, conhecido por ser também parceiro em realizações de Michelangelo Antonioni e Federico Fellini.
Tempo de viagem foi um filme-pretexto para que Tarkovski conseguisse escapar do controle cada vez mais rígido das autoridades russas sobre seus projetos. Desse modo, esse filme registra a busca de Tarkovski e Tonino na Itália, por locações para o seu filme seguinte,
Nostalgia. Filme que vai ser posteriormente realizado na pequena cidade de Bagno Vinoni, no norte do país. Tempo de Viagem vai ser um filme bem pessoal, que nos mostra tanto a relação de amizade que se estabelece entre Tonino e Tarkovski – nele, já no começo, observamos Tonino receber Tarkovski em sua casa, ler para ele um poema e discutir na sequência os planos do dia – como vai ser também um filme interessado em nos apresentar a Itália, suas igrejas e vilarejos medievais, como lugares em potencial para a realização de Nostalgia, primeiro filme de Tarkovski fora da Rússia. Robert Bird diria que Tempo de Viagem é um
momento de reflexão e concepção, em que Tarkovski faz uma investigação espacial da Itália221.
Sobre Nostalgia, Tarkovski, em Esculpir o Tempo vai nos dizer:
Eu desejava um filme sobre a nostalgia russa - a respeito daquele estado mental peculiar à nossa nação e que afeta os russos que estão longe de sua pátria. Encarei isso quase como um dever patriótico, segundo entendo o conceito. Queria que o filme fosse sobre o apego fatal dos russos às raízes nacionais, ao passado, à cultura, aos lugares onde nasceram, às famílias e aos amigos; um apego que carregam consigo por toda a vida, seja qual for o lugar em que o destino possa tê-los lançado222.
Nostalgia vai então contar a história de um escritor russo, Andrei Górchakov, que vai até a Itália em busca de escrever um livro sobre um compositor russo que lá viveu. Longe de sua pátria, sofrendo com as lembranças e saudades que dela tem, Górchakov se sente totalmente desorientado diante de tudo que vê, diante de todas as impressões com que é bombardeado. Então, em meio a uma forte crise pessoal, acaba conhecendo Domenico, homem que é tido como louco por todos e que o instiga a realizar um ato de fé.
Para Nostalgia Tarkovski fez construir uma casa (dacha) tal qual a que ele mesmo construíra em solo russo. Assim também como acontece nas filmagens de O espelho, para as quais também constrói uma casa tal qual a de sua infância. De certo modo, a casa nos filmes de Tarkovski representa esse lugar inundado de memórias, ao qual retornamos em algum momento, seja fisicamente, seja através das recordações. A casa constitui então esse elo entre presente, o que desejo no momento, e passado, ou seja, aquilo de que não posso me desligar, aquilo a que estamos presos desde o nascimento.
No começo de Tempo de Viagem, Tonino lê para Tarkovski um poema223 que tinha escrito para ele. Esse poema reflete bem a percepção de Tonino em relação a Tarkovski e seu estado de espírito no momento. Estado de espírito esse que se identifica totalmente com o do personagem que criou em Nostalgia. Dois artistas russos, completamente ligados à pátria, ao passado, que se veem, todavia, numa situação dramática, em que se sentem incapazes de
221BIRD, R. Andrei Tarkovski – Elements of cinema. p. 173. 222TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 242.
223O poema que Tonino Guerra lê para Tarkovski em Tempo de viagem: “Não sei o que é uma casa / É um
abrigo? / Ou um guarda-chuva quando chove? / Eu a enchi de garrafas, farrapos, patos de madeira, cortinas, leques / Parece que não quero abandoná-la nunca / Então é uma jaula / Que aprisiona qualquer um que passe por ela / Inclusive um pássaro como tu, sujo de neve / Mas o que contamos um ao outro é tão leve que não pode ser retido no interior”
incorporar a nova experiência do presente - a Itália - ao passado - a Rússia, ao qual estão ligados por diversos fios. Tarkovski expressa bem esse sentimento quando diz: “Eu estava angustiado por ter me separado da família e do modo de vida a que estava habituado, por estar trabalhando em condições inteiramente estranhas e até mesmo por estar me expressando numa língua estrangeira”224.
Nesse período, Tarkovski sabia de sua condição, que ele próprio espelhava em Górchakov: um russo que vai para a Itália fazer um filme sobre um poeta russo que foi para Itália escrever um livro sobre um compositor russo. A vida abarcando a ficção e esta a vida, pessoas e personagens, casas, catedrais, paisagens, enquadramentos: imagens fundindo-se, uma na outra, a exemplo da cena ao final do filme, na qual se vê a minúscula datcha de Górchakov/Tarkovski dentro de uma imensa catedral italiana em ruínas225.
A Suécia foi o país que recebeu Tarkovski para a filmagem de sua ultima obra, O
sacrifício (1986), filme que conta a história de um professor aposentado, Alexander, que vive com sua família em uma casa de campo. O filme segue mostrando as relações que se estabelecem entre Alexander e seu filho, que não pode falar devido a uma cirurgia na garganta; Alexander e o carteiro, figura exótica que acaba se tornando seu amigo; Alexander e sua mulher, com quem tem problemas conjugais. No dia em que completa 50 anos, na companhia de amigos, Alexander acompanha pela televisão o anuncio de uma tragédia nuclear que poderá causar a extinção de toda a humanidade. Tal fato faz com que ele se deixe levar pela irracionalidade da fé e busque uma saída espiritual para tentar salvar a todos.
A solução anunciada pelo carteiro para evitar a tragédia eminente seria passar uma noite com uma feiticeira, que também era a empregada de sua casa. Ao alcançar seu objetivo, Alexander agora deveria cumprir sua promessa: se afastar de seu passado, de sua família, de seu filho. Então, num ato irracional, Alexander põe fogo a sua casa. A casa em chamas representa justamente isso, o desligamento do personagem de seu passado. A casa mais uma vez representando aqui esse elo do personagem com suas memórias.
224TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 244.
O sacrifício foi o ultimo filme de Tarkovski226. Depois das gravações, durante a edição e montagem descobre que está com câncer e acaba morrendo um ano depois, no dia 29 de dezembro de 1986.