Características físicas, como o tamanho, a cor dos adultos, a mobilidade da cabeça e o comportamento de mergulho distinguem o boto-vermelho da outra espécie de cetáceo existente na Amazônia, Sotalia fluviatilis (BEST; DA SILVA, 1989). Tais diferenças seriam os principais motivos para a percepção dos botos-vermelhos como um animal atemorizador e do tucuxi como um amigo.
O tucuxi é um golfinho pequeno que atinge 1,5m de comprimento. Ocorre por toda a Bacia Amazônica, em ambientes de água doce e estuários. Ao contrário do boto-vermelho, o tucuxi geralmente não entra nas florestas alagadas e fica mais restrito aos rios e canais
principais (FAUSTINO; DA SILVA, 2006). Seu ciclo reprodutivo obedece à dinâmica da inundação periódica dos rios, com nascimentos ocorrendo na estação seca. Na região amazônica, 28 espécies de peixes consumidas por tucuxis já foram identificadas, entre elas estão os conhecidos como bagres, branquinhas e pescadas (DA SILVA, 1986; DA SILVA; BEST, 1996).
Embora não sejam comercialmente explorados, Antunes et al. (2014) chegaram a registrar o comércio de peles de Sotalia fluviatilis na década de 1930. Além disso, tucuxis obtidos ocasionalmente na pesca podem ter sua carne utilizada como isca para tubarões (na região do estuário amazônico) e partes do seu corpo e gordura para fins místicos ou de medicina tradicional. Doenças como hemorróidas, reumatismo, artrose, artrite, asma, inflamações, dor de ouvido, erisipela, pé de atleta, câncer e inchaços são tradicionalmente tratados com uso da gordura de golfinhos (além de outros animais). Partes do corpo do tucuxi comercializadas são: olhos, dentes, cérebro, feto, pênis e vagina (ALVES; ROSA, 2008).
A interação do tucuxi com a prática pesqueira também pode ser positiva, ajudando ambos os lados. Da Silva (1986) registrou o uso de redes de emalhe como uma parede para forçar os cardumes. Em conseqüência, tucuxis pescam com mais facilidade e, ao mesmo tempo, ajudam os peixes a emalharem-se nas redes dos pescadores. Há, também, histórias de golfinhos que recuperam remos perdidos por pescadores solitários e que ajudam pessoas cujos barcos viraram, empurrando-as para a terra (ALVEZ; ROSA, 2008). Outras relatos dizem respeito a pescadores que treinam golfinhos para ajudá-los na pesca. Monteiro-Filho (1995) chegou a registrar diferentes formas de colaboração de golfinhos marinhos do mesmo gênero (Sotalia guianensis) à atividade pesqueira na região de Cananéia, São Paulo.
Ao contrário do boto, valores de existência foram frequentemente mencionados para tucuxis na Água Preta (Tabela 8). Além destes, outro valor relatado com frequência foi “auxilia a pesca” (Tabela 15). Trata-se de um valor de uso indireto com efeitos sobre a dimensão econômica (Tabelas 8 e 9). Esta percepção está relacionada ao fato de tucuxis “indicarem” a presença de cardumes. Onde há tucuxis, o pescador sabe que há cardumes. Além disso, residentes entendem que o tucuxi auxilia a pesca ao espantar botos-vermelhos (que causam medo e prejuízos a boa parte dos pescadores), como mostra o depoimento“Ele espanta o boto, mas não tira o peixe da malhadeira” (E18). Embora não interaja diretamente com botos-vermelhos, tucuxis são freqüentemente vistos próximos a eles em locais de alimentação (DA SILVA, 1983). Assim como relatado na Água Preta, a agressão por tucuxis a outras espécies de cetáceos já foi registrada, inclusive com a expulsão de botos de certas localidades (DA SILVA; BEST, 1996).
As percepções relacionadas à interação com tucuxis foram, quase totalmente, de caráter positivo (Tabela 8). Além do auxílio à pesca elas se referiram, também, à “proteção dos peixes” e à “proteção das pessoas”, como mostram os depoimentos a seguir:
“Eles protegem os cardumes porque espantam o peixe e ninguém consegue pegar”(E2).
“Quando eu tinha 9 anos caí n’água e os tucuxis me ajudaram, os vermelhos vinham malinar e o tucuxi salvava. Se um dia um tucuxi fosse pegar meu peixe eu não fazia nada, porque eles já me salvaram”(E41).
Por conta destes valores e do comportamento natural do tucuxi, que inclui displays aéreos como pulos verticais e laterais, cambalhotas, surf em ondas feitas por barcos, mergulho e outros (DA SILVA, 1983; DA SILVA; BEST, 1996), eles são considerados animais brincalhões e simpáticos. Conseqüentemente, surgem os valores de existência, que consistem em considerá-lo “uma bênção”; a percepção de que devem ser preservados e serem considerados, assim como os botos, exemplos de solidariedade, por viverem em grupos (Tabela 15):
“É muito amigo, não tem maldade” (E1).
“Um tucuxi caiu na malhadeira, matei e vieram vários tucuxis levar ele. Eles mexiam na bajara. Ficaram com raiva”(E43)
Tabela 15. Valores atribuídos aos tucuxis. (VUD= valor de uso direto; VUIN= valor de uso indireto; VO= valor
de opção; VL= valor de legado; VE= valor de existência; VN= valor negativo; Vec= valor econômico; VA= valor ambiental; VC= valor cultural; VS= valor social; VP= valor pessoal).
Vec VA VC VS VP
VU
VUD --- --- --- --- ---
VUIN Auxilia a pesca Protege os peixes
Protege as pessoas --- --- VO --- --- --- --- --- VNU VL --- --- --- --- --- VE Dever da preservação Bem-estar --- --- --- Exemplo de solidariedade Aspectos religiosos
Fontes: Elaboração própria
Tucuxis e botos-vemelhos são cetáceos e, portanto, possuem certas características biológicas e ecológicas semelhantes. Do ponto de vista cultural, entretanto, diferem-se substancialmente. Apesar de alguns autores relatarem aspectos culturais semelhantes entre botos-vermelhos e tucuxis (ALVES; ROSA, 2008), os resultados da Água Preta e observações anteriores (ROMAGNOLI, 2009) mostram grandes diferenças de valores entre os moradores. Enquanto o boto-vermelho é visto quase como um competidor, gerando antipatia, medo, raiva e até mesmo abates intencionais, o tucuxi é, em geral, visto como amigo e protetor, numa espécie de relação mutualística.
Para o tucuxi, por exemplo, não foi relatado nenhum tipo de uso direto ou valor de opção (apesar de em outras localidades isso ocorrer, conforme registrado por Loch; Marmontel; Simões-Lopes et al. (2009). Entre as categorias de uso, surgiram apenas valores de uso indireto. Foram comuns frases como: “O tucuxi sou contra matar. Ele não mexe na malhadeira”(E34). Tal identificação com os tucuxis faz com que a única possibilidade de exploração destes animais seja, justamente, para contribuir com as atividades pesqueiras e outras atividades econômicas de forma indireta, numa integração entre homem e animal.