O fotógrafo compôs uma imagem da cidade a partir de um viés interpretativo preciso. O mesmo tema regia a tomada dos diferentes clichês costurados sob um mesmo interesse: o envolvimento das pessoas retratadas com seus afazeres nas ruas, quase sempre em suas práticas de trabalho, em seus movimentos espontâneos. É como se o fotógrafo fizesse uma invocação: olhemos para as coisas que estão aqui.
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São Paulo cresceu assim: Frente a um mercado formal que se constituía paulatinamente, com o desenvolvimento industrial marcado por períodos de avanço e retrocesso.206 As atividades de ganho nos espaços públicos foi a garantia de sobrevivência de
um vasto contingente populacional, não incorporado aos setores formais de trabalho.
Quando Pastore chegou pela primeira vez em São Paulo, em 1894, a cidade contava com 13 fiações de algodão, uma fiação de lã, quatro fundições, uma fábrica de fósforos e algumas serrarias. Das 52 firmas realmente industriais existentes na capital, apenas 11 empregavam mais de cem trabalhadores. Três fiações, uma fábrica de cerveja, três de chapéus, uma de fósforos, outra de fundição; as duas últimas se tratavam de oficinas ferroviárias.207
Os operários moradores dos cortiços e cômodos de aluguel no Brás, Bom Retiro, Barra Funda e Belenzinho, bairros repletos de imigrantes, contavam com postos de trabalho em algumas olarias produtoras de tijolos destinados às novas construções. Fábricas de tecidos empregavam em seus teares o trabalho de crianças. Havia ainda ofertas de trabalho em alguma cervejaria, como a Germânica dos irmãos Reichert, futura Companhia Antártica. Indústria nacional era, portanto, incipiente, insatisfatória frente à crescente demanda por bens de consumo.208
As fábricas de vidro que ofereciam os recipientes para as cervejarias e aquelas de tecido, trabalhavam com o sistema de encomendas, “pois não se arriscavam a produzir para estocar”, afirma Penteado (2003, p.122). Era comum “falências e súbitos fechamentos de fábricas, que os lançavam ao desemprego, de um momento para outro, sem qualquer garantia”. Foi preciso, para uma leva de trabalhadores nas cidades, encontrar formas de sustento mais imediatas, impelidos para uma cultura mais independente, adaptando-se aos trabalhos temporários.
O setor de serviços tornava-se destino para a maioria da população negra e para parte significativa da leva de imigrantes saída do campo frustrada com a promessa de acolhida e fortuna; sem contar o contingente de nacionais socialmente brancos e pobres, também
206 A população nacional negra passaria a atuar de forma mais efetiva no setor industrial a partir da década de
1930. Cf. ANDREWS, 1998. As crises econômicas nas últimas décadas dos oitocentos levaram muitas indústrias a desaparecerem. Um novo impulso foi sentido a partir de 1900. CF. BRUNO, 1954, v. 3, p. 1.133.
207 Cf. BERNARDO, 1998, p. 21. Dados do relatório oficial datado de 1895, Cf. DEAN, 1971. As fábricas de
bebidas em 1926 contavam com o seguinte quadro: 1.366 delas contavam com seis operários somente; apenas 109 unidades fabris contavam com 12 operários. Cf. DEAECTO, 2002, p. 87.
208 Cf. DEAECTO, 2002, p. 40. A atividade comercial era crescente na cidade. O aumento da população provoca
um aumento na demanda de gêneros alimentícios, mas também por bens duráveis. Apesar do fomento à industrialização, o Brasil fecha a Primeira República importando produtos básicos para sua economia.
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destituídos da propriedade da terra. Grupos que formavam mão de obra não especializada, disponível para a oferta de serviços. Sobre os anos finais do século XIX e início do XX, Wissenbach (1998) ajuda-nos a caracterizar este processo histórico, explicando aspectos socioeconômicos e culturais que se desenvolveram na cidade, num momento peculiar da formação da força de trabalho nacional:
Nessa época, o adensamento de populações nas grandes cidades ocorreu sem que houvesse uma correspondência na expansão da infraestrutura citadina e na oferta de empregos e de moradias, transformando esse avolumar menos num desenvolvimento e mais num inchaço, o que acentuou o contraste entre as desigualdades sociais que se fizeram presentes. Estreitas ainda nos seus cenários coloniais, vivendo fases de uma industrialização incipiente, numa economia aferrada mais aos setores de serviços e aos negócios da exportação do que as atividades produtivas propriamente ditas (...) as transformações se deram no contexto de uma urbanização abrupta que se cimentava em formas improvisadas, levando o viver nas cidades a ser marcado pelas contingências de um provisório que muitas vezes se convertia em estruturas perenes. (Wissenbach, 1998, p.91)
O comércio ambulante era parte da experiência citadina, não como contradição ao urbano, mas intrínseca ao seu processo de expansão, sendo antes uma especificidade dessa dinâmica. O fotógrafo, em grande parte da série que compõe a coleção, acionou os sentidos do rural no urbano, revelando sujeitos históricos que se integravam na dinâmica citadina permeada por vicissitudes que não os abatia, movimentando-se de modo espontâneo nesse contexto, mas num pertencimento marcado por tensões.
O mesmo ímpeto que fazia as estradas de ferro avançarem do interior paulista ao porto de Santos impulsionou o aumento populacional, a partir da segunda metade do século XIX. A cidade retratada por Pastore tornava-se pólo de atração para imigrantes arregimentados desde meados da década de 1880, alterando significativamente os dados demográficos da cidade. De 31.385 habitantes em 1872, passou para 47.697, em 1886. 12, 290 imigrantes passavam a integrar este contingente, constituindo um quarto da população. Em 1890, chegou-se a um total de 64.934, um crescimento de 36% em apenas quatro anos. Entre 1890 e 1900, momento da chegada de Pastore à Capital, a população subiu para 239.820. Contingente populacional adensado, sobretudo pela chamada Grande Imigração entre os anos de 1880 e 1920; Em 1893
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os imigrantes compunham, após a primeira onda de imigração de italianos, mais da metade da população local, chegando a representar em 1920, 36% da população da capital.209
Tratamos de uma população que se diversificava. Levas de homens e mulheres pobres e negros saídos do campo ajudavam a adensar o contingente urbano. Grupos heterogêneos em convivência numa cidade que desde 1870 começara a apagar seus aspectos coloniais. Ampliar a rede ferroviária, implantar bondes a tração animal, sanear a Várzea do Carmo, cravada entre o núcleo antigo da cidade e o bairro do Brás, desapropriar os moradores da Rua das Casinhas, explicam as reformas e melhoramentos urbanos da gestão João Teodoro Xavier. “Extirpar os sintomas incômodos da pobreza urbana” para Dias, permeia o projeto modernizador colocado em prática desde o fim do século XVIII. (1985, p.102).
No período em que Pastore retratava as redes de abastecimento na capital paulista o poder municipal tentava restabelecer o uso de placas aos vendedores ambulantes, uma vida em trânsito de difícil controle e fiscalização. Contudo, tais ações quase sempre ficavam a reboque das “práticas andejas”,210 porque tratamos de seres sociais ágeis que se apropriavam
dos espaços escapando de ações normativas. Defendiam aquilo lhes pareceria pertencer por direito, ou seja, viver do comércio na cidade.
O prefeito do município de São Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por lei, resolve restabelecer a disposição constante do Acto n.5 de 28 de setembro, de 1896, assim concebida: “os contribuintes do imposto de ambulantes serão obrigados a trazer de modo visível, uma placa pela qual se possa fiscalizar a effectividade do pagamento do imposto.211
O vendedor de aves Victor dos Santos foi flagrado sem licença no dia 15 de maio de 1909, quando passava pela Rua da Boa Morte.212 Foi multado e sua mercadoria apreendida.
Defendeu-se dizendo ter deixado a licença em casa. No dia seguinte, ao tentar reaver a sua mercadoria, apresentou uma licença de outrem. O fiscal, pouco convencido com o falso documento, manteve a apreensão.
A política de zoneamento de 1911 acompanhava a racionalização do traçado urbano para acirrar o controle sobre os vendedores, tropeiros e ambulantes. O uso de pequenos cestos
209 LOVE, 1982, p. 43-44 e 122. As primeiras levas de imigrantes chegaram ao Brasil após a crise que assolou a
Itália. A região do Veneto é sempre citada devido ao fato, de muitos de seus pequenos camponeses e meeiros, terem sido lançados para proletarização da mão-de-obra campesina, submetidos a um processo violento de expropriação da terra. A partir de 1882, iniciou-seà u aà o e teài i te upta .àVe àMo se,à ,àp.à .à
210 Termo utilizado por Sergio Buarque de Holanda (1994) ao tratar das práticas sociais dos vendeiros que
ocupavam as ruas da cidade como vendedores ambulantes nas últimas décadas do século XIX.
211 Arquivo Histórico e Municipal de São Paulo. Ato Municipal n. 442, 4 jan. 1912.