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5. DISCUSSION

5.4 C ONCLUSION

Visto que a análise de regressão apenas permite analisar uma variável dependente de cada vez, foram efectuadas 8 análises de modo a verificar a possível causalidade que a literatura aponta: O “Bem-estar no trabalho” influencia a “Percepção de saúde”. Nestas análises utilizaram-se como preditores as dimensões do QPBET.

Observando a análise de regressão relativa à primeira dimensão do MOS SF-36 (“Funcionamento Físico”) verifica-se que o modelo testado, isto é, as dimensões da percepção de bem-estar no trabalho como preditores do “Funcionamento Físico”, explicam 32% da variância desta dimensão. Contudo, nem todas as preditores têm um impacto significativo na variável dependente (“Funcionamento Físico”), sendo que destas 5 dimensões do QPBET há uma que parece ter mais peso sobre a variável, ainda que fraco, como é o caso da “Estruturação do Trabalho”.

Quanto ao “Desempenho Físico”, o modelo testado explica 58% da variância desta dimensão, porém a preditoras que têm impacto significativo são a “Estruturação com o Trabalho” e a “Adaptação e Adequação ao Trabalho” (esta última tem maior impacto na variável dependente).

Relativamente à “Dor Corporal”, o modelo testado explica 51% da variância, sendo que a dimensão preditora com maior peso é a “Estruturação do Trabalho”, embora a “Adaptação e Adequação ao Trabalho” também tenha impacto significativo.

No que concerne à “Saúde Geral”, o modelo testado explica 64% da variância, sendo que as dimensões preditoras com maior impacto são a “Adaptação e a Adequação do Trabalho” e a “Estruturação do Trabalho” (a mais impactante).

83 Quanto à “Vitalidade”, o modelo testado explica 58% da variância, embora as dimensões que maior impacto apresentam são as “Características Organizacionais” (a que tem maior impacto) e a “Estruturação do Trabalho”.

No “Funcionamento Social”, o modelo testado explica 58% da variância, sendo as dimensões com maior peso a “Adaptação e Adequação ao Trabalho” (maior impacto) e a “Estruturação do Trabalho”.

Quanto ao “Desempenho Emocional” o modelo testado explica 55% da variância desta variável dependente. Note-se que as dimensões com maior impacto são a “Adaptação e Adequação ao Trabalho” (maior peso) e a “Estruturação do Trabalho”.

Na “Saúde Mental” verifica-se que o modelo explica 55% da variância da dimensão referida, sendo que as dimensões com maior impacto são as “Características Organizacionais” e a “Estruturação do Trabalho” (maior impacto).

Confirma-se o que a literatura refere acerca destes dois constructos, pois verifica-se que ao existir um bom relacionamento interpessoal na instituição (com reconhecimento, partilha e resultados esperados), pode contribuir para uma maior protecção no desenvolvimento de doenças, menos fadiga e mais saúde física e emocional (Alvim, 2006; Fonseca & Moura, 2008; Ryan & Deci, 2001; Tamayo & Tróccoli, 2002).

Elementos como mudanças constantes e horários complicados geram desconforto e influem na “Percepção da saúde” (Sparks et al., 2001). De facto, o bem-estar no trabalho parece condicionar a saúde nos Auxiliares de Geriatria.

Relativamente às componentes “Saúde Mental” e “Saúde Física”, verifica-se que a “Percepção de bem-estar no trabalho” revela maior impacto na “Saúde Mental” (62%) do que na “Saúde Física” (61%), sendo que na primeira as dimensões do bem-estar no trabalho mais influentes são a “Adaptação e a Estruturação do trabalho”, as “Características Organizacionais”, a “Estruturação” e o “Vínculo com a Instituição”, ao passo que as que mais influem na “Saúde Física” são a “Adaptação e a Estruturação do Trabalho”.

De um modo geral, pode-se dizer que nos Auxiliares de Geriatria a “Percepção de bem- estar no trabalho” influencia a “Percepção do estado de saúde”, no sentido em que um maior bem-estar no contexto laboral conduz a um melhor nível de saúde, sobretudo quando se considera: o impacto que as mudanças constantes e os incómodos decorrentes dos horários de trabalho têm nas limitações sentidas na realização de actividades físicas, na presença de dores, nervosismo ou depressão e na avaliação da saúde de modo geral;

84 o impacto do ajustamento e da adequação das tarefas e resultados no trabalho na ausência de problemas resultantes da saúde física ou emocional em aspectos diários e sociais; e o impacto dos aspectos respeitantes ao funcionamento da instituição na ausência de cansaço e exaustão.

Os Auxiliares de Geriatria têm uma actividade laboral fortemente exigente e stressante, contudo a percepção de bem-estar no trabalho, presente na amostra em estudo, poderá funcionar assim como um elemento protector destes face a estas situações, prevenindo problemas de saúde, visto que estes profissionais entendem a sua saúde como positiva (Domínguez & Aguilera, 2008; Garrido & Menezes, 2004; Menzel et al., 2004; Paulo et al., 2008; Suehiro et al., 2008).

Os dados obtidos permitem que as Hipóteses H3, H4, H5, H6 e H7 sejam totalmente confirmadas.

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Capítulo VI - Conclusão

A literatura estrangeira dispõe de alguns instrumentos para a avaliação do bem-estar no trabalho, porém ao consultar a literatura nacional verificou-se a escassez de instrumentos portugueses desenvolvidos para este propósito. Assim, nesta investigação um dos objectivos passou pela construção de um instrumento que contemplasse a operacionalização das dimensões do bem-estar no trabalho (defendidas na componente teórica e focadas na percepção do próprio colaborador), com o objectivo da sua futura aplicação em diferentes contextos sócio-profissionais.

Justifica-se a construção e validação de novos instrumentos que se adequem cada vez mais à população que se pretende estudar. Existe uma dificuldade em avaliar existência e associação entre dimensões subjectivas, como é o caso da percepção de bem-estar no trabalho e da percepção de saúde, focos do presente estudo (Rebouças et al., 2007). Os dados obtidos no presente estudo poderão vir a indicar aspectos nos quais se pode intervir para melhorar o bem-estar dos profissionais Auxiliares de Geriatria e possibilitar que o instrumento construído possa vir a ser utilizado noutras pesquisas relacionados com o bem-estar no trabalho de outras áreas profissionais. Face à amostra em estudo, no geral os Auxiliares de Geriatria da amostra fazem uma avaliação positiva do seu trabalho e das experiências neste, o que poderá conduzir a um estado de bem- estar no mesmo, salientando como aspectos menos satisfatórios as constantes mudanças no local de trabalho, os horários de trabalho, a capacidade para desempenhar a tarefa a longo prazo, a idealização deste emprego para a sua descendência, a remuneração e as promoções (Covacs, 2006; Gouveia et al., 2009).

Embora estes elementos não sejam fortemente satisfatórios, tendo em conta a amostra global parecem existir indicações de que as emoções positivas e os factores de realização pessoal (corrente hedónica e eudamónica, respectivamente) no local de trabalho são superiores e mais frequentes que as emoções negativas, produzindo bem- estar no trabalho nos Auxiliares de Geriatria que trabalham em instituições para idosos na zona norte do país, o que possibilita que desenvolvam melhor a sua função (Paschoal, 2008; Paschoal et al., 2010).

Ainda que tenham uma profissão manual que exige muito da componente física, não relatam défices ao nível da saúde, sendo que esta percepção está condicionada por factores biológicos, sócio-económicos, ambientais, comportamentais e de antecedentes

86 de saúde (Ross, 2010; Tolliver, 2007). Podem ainda estar presentes factores psicológicos, que não foram contemplados neste estudo, mas que poderão estar a ajudar o Auxiliar de Geriatria a lidar com o stress da sua profissão (Ross, 2010).

Estes profissionais têm uma função de extrema importância, visto que prestam um serviço fundamental à sociedade (cuidar de idosos). Preservam a individualidade dos idosos e estabelecem-se como a ponte entre os demais profissionais na instituição, os utentes e os seus familiares, satisfazendo as suas necessidades mais prementes. Constituem-se, algumas das vezes, como a única fonte de contacto social e de apoio ao idoso, logo, seguindo esta corrente de pensamento, pode-se dizer que estes profissionais têm uma actividade laboral que deve ser entendida como fundamental para a comunidade, o que por si só é um factor propiciador de bem-estar no trabalho para o colaborador, ainda que os Auxiliares de Geriatria por vezes se sintam desprestigiados, como se pode constatar através de comentários expostos e respostas relativas ao salário e promoções (Paschoal, 2008).

Respondendo à questão de investigação inicialmente proposta, pode dizer-se que o bem- estar no trabalho tem impacto na vida dos Auxiliares de Geriatria da amostra, nomeadamente na sua saúde. Os Auxiliares da amostra denotam bem-estar no trabalho e boa percepção do seu estado de saúde, o que certamente lhes permite fornecer cuidados e uma assistência adequadas à população-alvo dos seus serviços (Pérez, 2010; Sampaio et al., 2011).

Quando se tem em atenção aspectos referentes a experiências positivas no trabalho, pode-se melhorar a qualidade de vida das pessoas e prevenir doenças.

As limitações deste estudo prendem-se com o facto de poder ter ocorrido viés no preenchimento do questionário, relacionado com o desejo de aceitação social, por eventualmente considerarem que a instituição teria conhecimento dos resultados. Não se efectuou diferenciação entre géneros visto que não existiam um número de elementos do sexo masculino que permitisse efectuar comparação. O instrumento QPBET não contempla o vínculo com o público usuário dos serviços e pode não ser adequado para colaboradores informais ou que não tenham vínculo com uma instituição empregadora. Existe ainda o facto de este não ter potencial de generalização para todos os Auxiliares de Geriatria, visto que foi levado a cabo com uma amostra de conveniência, por conseguinte não representativa do total de elementos do grupo profissional estudado.

87 Note-se que neste estudo foram examinados factores relacionados com o ambiente e com a organização do trabalho, bem como factores extra-organizacionais, mas não foram consideradas todas as variáveis pessoais em termos de trabalho, tais como personalidade, metas pessoais, necessidades, valores, locus de controlo ou tipo de comportamento que poderão ser explorados em estudos futuros.

Neste sentido, propõe-se algumas sugestões para futuras investigações. Poderia ser interessante investigar que características de personalidade e expectativas profissionais estão mais associadas a um elevado bem-estar no trabalho. Poderia ser também interessante confrontar a percepção dos Auxiliares de Geriatria e a percepção dos responsáveis por estes ou a percepção dos utentes quanto ao bem-estar no trabalho dos profissionais que lhes prestam um serviço.

Sugere-se que estudos com outras populações sejam conduzidos, de modo a verificar se o questionário construído é adequado e se permite avaliar a percepção de bem-estar no trabalho desses profissionais.

Considera-se relevante o desenvolvimento de novas investigações de modo a confirmar os resultados obtidos e conferir se o instrumento QPBET representa uma mais-valia no âmbito da mensuração da percepção de bem-estar no trabalho. Espera-se que novos estudos possam contribuir para o aperfeiçoamento deste instrumento. Seria importante que se procure recriar em cada espaço de trabalho os factores de bem-estar detectados, de modo a criar profissionais mais satisfeitos, mais eficazes e saudáveis.

Constataram-se, ainda, na investigação algumas necessidades em diferentes domínios nos Auxiliares de Geriatria, aspectos esses que nos parecem passíveis de intervenção, no sentido de se poder fornecer auxílio em termos psicológicos, de modo a que este profissional possa gerir melhor as frustrações, contrariedades e limitações decorrentes do seu exercício profissional.

Este estudo analisa uma profissão acerca da qual se encontram poucos dados e contempla duas importantes vertentes da Psicologia, a área da Psicologia da Saúde e a área da Psicologia do Trabalho. A Psicologia é cada vez mais uma Ciência holística, pois é complexo o Ser Humano, o que exige que a própria Ciência o acompanhe e o estude em todas as suas inúmeras dimensões que se complementam. O Homem não é um ser divisível e porque precisamos compreender para que possamos intervir adequadamente, é indispensável que se estudem todas as partes que compõem o todo, que inevitavelmente estão interligadas e que transformam o Homem naquilo que ele é.

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