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4. D ISCUSSION

4.8 C ONCLUSION

A área da Saúde, Higiene e Segurança no Trabalho (SHST) encerra em si contributos de várias áreas científicas e operacionais. Consideramos pertinente perceber o enquadramento das dinâmicas associadas SHST no contexto de uma embarcação de pesca. Perceber se existe alinhamento com outras práticas, dinâmicas ou procedimentos. Compreender e contribuir para o aprofundar do conhecimento na área sob o prisma da GRH. Iniciaremos a análise desta unidade com uma descrição e problematização dos procedimentos associados à SHST na embarcação. Uma observação que obedeceu a um guião de observação e que foi efectuada no período total de estadia – 3 dias e 3 noite – na embarcação.

Foi nos possível observar que o barco estava equipado com os procedimentos exigidos por lei para o desenvolvimento de actividade marítima. A embarcação possuía ainda um conjunto de

63 meios complementares orientados para a segurança laboral (rádios, localização instantânea por satélite, sonares e um sistema informático apresentado como «de ponta»). Os coletes de salvamento, assim como as bóias, estavam sinalizados mas não eram usados no dia-a-dia. Existiu sempre uma troca de vestuário entre a área dos aposentos e a área de trabalho. As indumentárias eram guardadas e sistematicamente limpas antes e depois da actividade piscatória propriamente dita. Em todas as acções, a área de trabalho era limpa e desinfectada por toda a tripulação. Uma actividade que demorou em média uma hora. A iluminação era forte, permitindo trabalhar à noite e possibilitando que os trabalhadores se sintam seguros:

«Porque sabes, este barco é de ferro. Podemos estar a levar porrada (sic) do mar e continuar a trabalhar aqui dentro como se nada fosse, parecendo que não isso é uma grande ajuda».

Não há uma comunicação orientada para a segurança, mais uma vez parece existir um conhecimento tácito do que se pode e do que não se pode fazer. Não havendo advertências ou conselhos de como orientar a actividade laboral de cada um. O vestuário de um pescador (enquanto está a trabalhar) consiste numas calças oleadas, de cor laranja/vermelha/amarela e azul, impermeável, luvas, martelo, faca. Não utilizam capacetes ou coletes. Utilizam todos chapéus/gorro. Todos utilizam botas impermeáveis especificamente desenhadas para aquela função. Não foram observadas situações de perigo, nem referências a situações de perigo. Estamos em crer que a política de segurança não está estritamente alinhada com a gestão e produtividade do barco. Não há um concreto alinhamento entre condições de trabalho e produtividade. Pelo menos de modo formal ou como uma política mais ampla de RH. Essa ligação aparentemente existe, apresenta e gera mais-valias mas não está de todo sistematizada.

Foi também possível, através do cruzamento com os discursos dos tripulantes, compreender que essa ligação se concretiza num reconhecimento do ambiente, da imprevisibilidade do contexto laboral. Contudo, quando questionados sobre as influências desse ambiente na sua produtividade, 7 dos entrevistados responderam que não influência negativamente. Apenas 2 entrevistados confirmaram que esse sentimento influência negativamente a sua produtividade. As posições são transversais às chefias e aos pescadores/colaboradores. Assim:

«O medo aqui não pode influenciar e não influencia a forma das pessoas trabalharem. No início até pode fazer um bocadinho de confusão. Mas depois é tudo igual. Já estamos habituados a isso» (Mestre).

64 «Às vezes tenho medo. Quando vem mau tempo (…). Quando estou a trabalhar penso nisso mas nada de especial» (Pescador 4).

Regista-se ainda uma importante prática abordo que merece uma descrição detalhada. Toda a tripulação participa no que se denomina de vigia (excepto o mestre). Durante a noite, para assegurar que o barco se mantêm seguro enquanto todos dormem, um tripulante de cada vez sobe à «casinha do leme» e ai permanece uma hora. Depois troca com outro colega que ele mesmo vai chamar aos aposentos. Mais uma vez o procedimento não esta escrito, não é definido quem vai primeiro (não há ordem) mas todos participam e todos o fazem sem haver necessidade de haver um controlo rígido e efectivo. Esta prática de segurança aponta para duas características importantes da embarcação em análise. Por um lado a confiança entre toda a tripulação e chefias. Por outro lado, a vigia, indicia que a informalidade de procedimentos fulcrais para a segurança da embarcação, não retira rigor, fiabilidade e capacidade de alinhamento ao procedimento.

Observou-se um comportamento que consideramos de risco mas que foi imediatamente desconstruído pela tripulação. Na apanha do polvo todos os pescadores se debruçam em direcção ao mar para apanhar os potes, é uma posição de constante desequilíbrio mas que nos explicam que «isto só pode ser apanhado assim». Para um não-pescador a situação encerra em si um potencial sentimento de insegurança, rejeitado totalmente pelos pescadores. Deve-se ressalvar as especificidades do contexto. O trabalho em contexto marítimo não pode ser analisado com os mesmos prismas do trabalho terrestre, convencional. Aquilo que para o senso comum é perigoso para um pescador pode não comportar nenhum risco. A capacidade de distanciamento é fundamental para uma aproximação mais fidedigna.

Por último, recorrendo mais uma vez á análise dos discursos dos entrevistados, consideramos existir uma tendência relativamente as condições da embarcação e ao esbatimento do sentimento de insegurança. Há uma lógica presente nos discursos que apesar do reconhecimento do contexto adverso aonde operam as «excelentes» condições de segurança da embarcação proporcionam mais segurança, mais conforto e uma maior capacidade de trabalho.

«(…) o barco têm boas condições. Este barco deve ser dos melhores barcos que eu já trabalhei» (pescador 4).

65 «Medo? Não. É para tudo. Este barco está preparado para tudo. Temos todos os aparelhos necessário. Aliás, até tem aparelhos de salvamento a mais» (Contramestre).

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