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As metodologias usuais comumente partem de uma teoria ou um conjunto de teorias, com definição da população e amostra e posterior coleta e análise dos dados. Essa ordem é reversa na metodologia de análise de dados selecionada para o desenvolvimento da primeira fase desse estudo, intitulada

grounded theory, e que será detalhada a seguir. Por essa razão são discutidos

primeiramente os tipos, procedimentos e análise dos dados; para então posteriormente, ser apresentada a amostra determinada para a condução dessa pesquisa.

Glaser e Strauss (1979) definiram grounded theory como um método de análise de dados que permite o surgimento da teoria a partir dos dados. Segundo Strauss e Corbin (1990) o princípio básico desse método é a geração

de teoria a partir da aplicação de procedimentos sistematizados com os dados coletados, sendo criada indutivamente.

Dado que o tema da pesquisa é novo e o referencial teórico é parco, não tendo como ponto de partida uma teoria consolidada, a grounded theory como método de análise, revela-se mais adequado, possibilitando a geração de uma teoria, ainda que intermediária. De acordo com Prasad (1993) a teoria intermediária ou middle range theory não gera hipóteses testáveis nem modelos conclusivos ou generalizáveis; procura, entretanto, apresentar perspectivas úteis ao entendimento da situação e insights teóricos que possam ser transpostos para outras organizações em situações semelhantes.

Strauss e Corbin (1998) reconhecendo que o desenvolvimento de teoria constitui um processo longo e mais complexo, optam pelo uso do termo teorização, e atestam que a grounded theory promove essa teorização, contribuindo com uma parte do processo de construção de uma teoria. Segundo os autores estão envolvidos os processos incrementais de descrição, ordenação conceitual e teorização. Trata-se, respectivamente, do detalhamento de uma história, sem nenhuma análise concomitante; da classificação de eventos e objetos em estados dimensionais explícitos, sem relacionar as dimensões umas às outras; do ato de construção de um esquema explanatório a partir dos dados, que sistematicamente integra vários conceitos por meio da emergência declarada de relações.

A grounded theory é uma opção à prática comum de outros métodos de análise qualitativa, marcados por procedimentos dedutivos, também chamados de hipotético-dedutivos; nos quais têm-se em primeiro plano o quadro teórico como referência e orientação, e cujas proposições teóricas ou hipóteses são geradas antecipadamente. Em pesquisas com essas características é comum a adoção do método de análise de conteúdo, o qual consiste em “uma técnica de análise de comunicações, tanto associada aos significados, quanto aos significantes da mensagem” (Vergara, 1997). É Bardin (1977) que destaca nesse método de análise o papel essencial das inferências ou deduções lógicas, as quais supõem um referencial teórico anterior consistente.

Seria um equívoco, entretanto, assumir que existe uma dicotomia precisa entre estudos dedutivos e indutivos. Mason (1997) pontifica que embora tais diferenças possam ser delineadas, a maioria dos estudos não constitui tipos puros. Nessa linha, a idéia de que a teoria é absolutamente posterior a coleta e análise dos dados, tem sido bastante criticada uma vez que seria ingênuo pensar que uma pesquisa têm condições de ser iniciada e desenvolvida num vácuo teórico.

Apresentada a grounded theory e feitas considerações a respeito de

metodologias dedutivas e indutivas, a atenção volta-se agora para os tipos de dados. Existem basicamente dois tipos de dados: dados primários e dados secundários. Os dados primários são aqueles coletados originalmente pelo pesquisador, e os dados secundários são aqueles já disponibilizados no ambiente e materializados sob a forma de artigos especializados, livros, documentos organizacionais, entre outros.

Foram coletados dados a partir de documentos e de papers publicados na literatura, descrevendo situações específicas a respeito das universidades corporativas, constituindo-se em dados secundários. Os dados oriundos de fontes secundárias foram examinados mediante o método de análise proposto pela grounded theory. A análise desses dados possibilitou a emergência de uma teoria que consiste na tipologia proposta para as universidades corporativas e que é composta de três tipos fundamentais: “público interno”, “público externo restrito” e “público externo ampliado”, e no destaque para essa última categoria “público externo ampliado” decorrente de seu maior potencial significante como categoria representativa das universidades corporativas como um novo entrante no contexto do ensino superior. Essa teoria encontra- se detalhada na fundamentação teórica desse estudo, e a sua extração a partir dos dados, encontra-se explicitada no capítulo que trata da análise dos dados.

A geração dessa teoria a partir da análise dos dados secundários é que permitiu a determinação das fontes de dados primários, ou seja, a definição da amostra, a qual se encontra detalhada no próximo item.

Foram coletados dados a partir de fontes primárias realizando-se visitas às instituições denominadas universidades corporativas, associadas à técnica

de observação sistemática, e por meio de entrevistas, junto às pessoas-chave dessas instituições. Também foram coletados dados primários junto às instituições de ensino superior brasileiras de modo a complementar o estudo.

Procedimentos de coleta de dados primários foram empregados, conforme apontado, por meio da realização de entrevistas semi-estruturadas, cujo roteiro foi adaptado a cada tipo de interlocutor. Dado o caráter recente do tema e do desconhecimento amplo acerca do problema de pesquisa, o roteiro das entrevistas (ANEXO A e ANEXO B) serviu apenas como guia, permitindo-se aos entrevistados manifestarem-se sobre outros aspectos desviando-se do roteiro inicial.

O conteúdo das entrevistas, após gravadas e transcritas, constituiu os documentos de primeira-mão, os quais foram analisados por meio do método de análise de conteúdo, que consistiu no método de análise de dados utilizado na segunda fase desse estudo.

A análise de conteúdo consiste em substituir a carga opinativa e interpretativa do pesquisador por “procedimentos mais padronizados, convertendo materiais brutos em dados passíveis de tratamento científico”. Grawitz (1976) define a análise de conteúdo como uma técnica de pesquisa para a descrição objetiva, sistemática, e não necessariamente quantitativa ou manifesta do conteúdo das comunicações, tendo por objetivo interpretá-las.

Em procedimentos metodológicos convencionais, e como decorrência da condição do estilo semi-estruturado das entrevistas, as informações coletadas a partir das mesmas constituem material assistemático, tornando-se difícil a sua categorização. Selltiz (1974) destaca que, ao trabalhar com material assistemático, o primeiro problema que surge é decidir quanto aos princípios de classificação que devem ser usados para o estabelecimento de conjuntos de categorias. Ciente das dificuldades de se categorizar informações assistemáticas, ainda assim procedimentos classificatórios foram adotados, motivados pela adoção de critérios rigorosos necessários à valorização da pesquisa qualitativa. Para auxiliar estes procedimentos foi utilizado em parte dos dados coletados, o segmento de análise léxica do software Sphinx, apropriado para tal objetivo.