• No results found

No trabalho psicoterapêutico, a questão da escuta merece especial atenção, por ser a primeira atitude desenvolvida pelo psicólogo. Seu papel é essencial no estabelecimento de um diálogo e, dessa forma, no desenvolvimento da pessoa, pois é ao ouvir que começo a considerar o outro como um Tu e, assim, me colocar como Eu na relação que se esboça gradativamente.

Algumas condições ajudam a delinear a escuta terapêutica, que, ao contrário do que se pensa comumente, não é natural e espontânea, muito menos simples de se desenvolver. Porém, antes de refletir a este respeito, proponho a volta a uma pergunta essencial, que deve se manter presente para desencadear o processo de escuta: a quem se escuta? Busca-se escutar a pessoa, inteira, em todos os aspectos que a constituem, evitando reduções, como já foi explorado anteriormente. Ouve-se baseado em uma concepção de homem. Em segundo lugar, o que se escuta? Não apenas as palavras, mas a não-palavra, o invisível que vibra por traz desta, o “entre” que aos poucos se constitui: a dimensão de mistério, nunca plenamente conhecida ou revelada. Nesses elementos estão presentes a cultura, a ancestralidade, a singularidade do que é dito e de quem fala. Ou seja, não é apenas o conteúdo da fala que interessa, mas o movimento vivencial no qual a pessoa está investida, os sentidos compreendidos e ao mesmo tempo velados, e o que tudo isso diz dela, no seu processo de vir a ser.

A fenomenologia propõe uma escuta atenta, calcada na observação cuidadosa dos fenômenos, solicitando sua descrição e enfocando nesta o vivido, a experiência da pessoa. Para isso, é preciso muita disciplina, abertura e rigor, além da suspensão dos juízos do observador a fim

de captar a perspectiva daquele que fala. Muitos dos pré-requisitos para um ouvir atento coincidem com a atitude de disposição para entrar em relação anteriormente discutida. Para ouvir, é preciso estar inteiro e totalmente presente, o que não é tarefa simples e espontânea, pois a sociedade atual não educa as pessoas para falarem de suas experiências, fazendo com que se distanciem delas, deixando de escutá-las; desaprendendo, assim, a ouvir os outros também (Amatuzzi, 1989; Ribeiro, 1998). O ouvir real envolve a pessoa por inteiro, apontando a necessidade de refletir um pouco mais sobre o ouvinte priorizado nesse trabalho: o psicólogo.

Ao escutar alguém, o psicólogo assume um olhar, uma concepção de mundo, um lugar epistemológico. Para ouvir, é preciso confirmar o outro como ele é, legitimando-o enquanto pessoa. Mas para ser capaz de fazer isso, é preciso acreditar de fato no ser que se encontra à sua frente, na sua capacidade de auto-transcendência e na sua importância no mundo. Ao considerá-lo como um Tu e entrar em relação, o Eu sofrerá impactos e mudanças. Estará submetido à esfera do entre, “esfera da qual todos participamos quando estamos envolvidos e verdadeiramente interessados em outra pessoa: transcendemos o senso de identidade que normalmente conhecemos” (Hycner, 1995, p. 25). Nessa situação, a pessoa se abre, se entrega e se expõe ao outro, mesmo na qualidade de terapeuta; por isso, existe um risco na disponibilidade e na entrega. Hycner (1995) explora extensamente a dimensão pessoal do psicólogo, cujo instrumento de trabalho é seu próprio ser. Enumera as dificuldades encontradas pelo profissional ao estar diante de alguém, salientando o quanto sua história de vida e suas idiossincrasias podem interferir na relação e na possibilidade de encontro.

Miller (1997) reúne em seu trabalho exemplos de como o despreparo emocional e a ausência de uma relação dialógica e confirmadora na infância, interferem na forma como a pessoa se relaciona na vida adulta. As conseqüências podem ser o desenvolvimento de um falso self para atender às expectativas alheias e a manipulação sutil e inconsciente dos mais fracos para que eles façam o mesmo. Para a autora, aí se encontram as origens da violência e

da falta de diálogo que permeiam a sociedade atual e que muitas vezes impedem os psicólogos de fornecerem um ambiente seguro onde seus clientes possam se desenvolver, afinal, eles também foram vítimas dessa forma de educação. A partir dos trabalhos dessa autora, Ribeiro (1998) analisa as dificuldades vividas pelos psicoterapeutas ao optarem por uma abordagem de cunho existencial fenomenológico, pois a postura de abertura para o encontro exigida por estas coloca o terapeuta diante do imprevisível e de si mesmo, com toda sua bagagem existencial, estando na contra-mão do pensamento vigente.

Infelizmente, a dimensão pessoal do profissional é freqüentemente deixada de lado, em nome de uma suposta neutralidade e da busca pela objetividade. Tal atitude impede ou adia reflexões importantes como as que os autores acima empreenderam. É preciso reconhecer com humildade o fato de que não existe escuta completamente descontaminada. Isso porque somos com os outros, fazendo parte de uma rede de relações permeáveis às situações e pessoas de diferentes formas. Mas, dentro destes limites, é possível desenvolver uma postura crítica e cuidadosa.

Segundo Amatuzzi (1989), no decorrer de um atendimento psicológico, a pessoa pode ser facilmente distraída da sua fala, ou do seu dar-se conta de algo, por manipulações externas, deliberadas ou não. O terapeuta está sujeito a ter esse tipo de atitude, mas é sua responsabilidade cuidar disso, buscando ter uma atenção vigilante aos próprios sentimentos e reações. A função do terapeuta é bastante específica devendo estar atento aos sinais presentes na fala do cliente e ao que este comunica enquanto pessoa inteira. Há uma escuta dotada de rigor, atenção e cuidado, sendo formuladas as intervenções com base nessa atitude. É a relação dialógica construída que possibilitará o surgimento de novos significados, e não a fala do terapeuta em forma de intervenções ou interpretações, isoladamente. Por isso, deve-se contribuir ao máximo para manter o fluxo expressivo do cliente, sem distraí-lo ou desviá-lo daquilo que lhe parece como essencial. Aqui se faz necessário um trabalho com a dimensão pessoal do psicólogo, mantendo o foco

também na interação que se delineia. Para este autor, é preciso estar atento à relação de poder que pode se estabelecer no relacionamento, subjugando o cliente e não respeitando a sua autonomia e desenvolvimento. É preciso estar atento, também, à dificuldade da pessoa dizer de si mesma e acolher isso pacientemente. Segundo este autor, o psicólogo não tem o direito de manipular o processo e não deve ter expectativas específicas quanto ao cliente.

Cardoso (2002) discorre sobre os obstáculos à escuta fenomenológica enumerando as seguintes dificuldades: ausência de reflexão do terapeuta sobre sua forma de escutar, talvez por acreditar na simplicidade e obviedade dessa atitude; inabilidade em acolher a diversidade e as diferenças presentes no seu cliente, como escolhas muito divergentes das suas; dificuldades emocionais do psicólogo, que em algum momento pode se ver diante de um tema emocionalmente difícil, diante do qual se fragiliza; e por fim a ânsia do terapeuta em dar respostas, soluções e promover mudanças no cliente.

A escuta genuína acolhe a experiência, a qual consiste em mais do que a fala ou os sentimentos conseguem expressar. Pode, muitas vezes, estar ligada a vivências paradoxais e situações difíceis de serem ouvidas pelo psicólogo, por causa da sua bagagem de vida. Os diversos autores abordados nesse trabalho possuem uma crença fundamental no ser humano, o que impulsiona seu trabalho e o fazer clínico, mas ouvir verdadeiramente é estar atento aos problemas e paradoxos da existência, não apenas aos seus aspectos positivos. Muitos terapeutas tendem a enfocar o lado positivo na fala do cliente, imbuídos da crença no seu potencial e na possibilidade de uma vida melhor para ele, buscando confortá-lo, fornecer um suporte, ou desviá-lo da dor. No entanto, esta postura excessivamente otimista, leva a uma zona de conforto, a qual é um lugar perigoso para os terapeutas e pouco fecundo para os clientes. A busca contínua de resolução dos conflitos impede o contato com a dimensão caótica da realidade, que contém também grande riqueza.

A fenomenologia procura sempre abordar os diversos lados do real, contemplando-os no seu movimento incessante, mas a forma como se aprende a ver o mundo na tradição ocidental torna difícil manter esse lugar de contemplação do fluxo da vida. Segundo Zuben (2003), Buber se colocava constantemente na posição que denominava de “estreita aresta”, buscando representar a instabilidade e insegurança próprias do existir. É difícil permanecer no lugar da incerteza, da pergunta, da abertura ao novo. A ansiedade em dar respostas e achar soluções muitas vezes afasta da dimensão propriamente humana e da região de mistério que envolve cada ser. Pode afastar também as questões religiosas quando estas aparecem de forma inesperada ou conflitante para o psicólogo.

Ancona-Lopez (1997) mostra a influência das crenças tácitas do psicólogo na prática clínica. Ao se examinarem os seus pressupostos, na maior parte das vezes, pré-reflexivos, pode-se re-configurar o conhecimento do profissional, abrindo-o para a experiência do cliente. No entanto, no contato com alunos de pós-graduação, ao longo dos anos, esta autora percebeu a evitação do exame de posições pessoais conflituosas por parte destes. A falta dessa reflexão impede o movimento de dar-se conta da experiência de desconforto que emerge no atendimento dos clientes diante de determinadas posturas ou temas por eles levados e, portanto, de ultrapassar as dificuldades encontradas na ação clínica.

Para Ricoeur (1996), é importante renunciar à busca por um mundo sem conflitos. Ao discorrer sobre a definição de pessoa, este autor aborda a noção de crise, na qual a pessoa se percebe deslocada, sem lugar no mundo. Para ele, a existência de um momento de crise é fundamental, pois daí surge a possibilidade de um novo posicionamento e engajamento criativo. Só então a pessoa emerge de fato. A capacidade do psicólogo em acolher os momentos de crise do cliente está fortemente relacionada à possibilidade de transformação e crescimento.

Safra (2004a) também aponta a necessidade urgente de sustentar o paradoxo e permanecer com o cliente nos momentos de tensão e impasse. Isso significa acolher a pessoa na sua

diversidade, contribuindo para uma clínica mais humana e ética. De acordo com este autor, o psicoterapeuta contribui para o atravessamento das questões humanas, muitas delas, sem solução, sendo possível somente fazer uma travessia a dois, encarando as desventuras do caminho.

4. O Encontro

Diante das reflexões sobre a relação e a escuta terapêutica empreendidas acima, algumas questões se fazem presentes e pedem passagem. O desenvolvimento de uma escuta cuidadosa, atenta e crítica, visa o estabelecimento de uma relação diferenciada, dialógica, que abra caminho para a possibilidade de uma relação Eu-Tu, um encontro verdadeiro, mesmo que fugaz. Mas, afinal, o que é o encontro? Qual o objetivo desse encontro numa relação profissional que é a psicoterapia? Quais as conseqüências, para o cliente de se trabalhar nesse enfoque?

Na clínica, a questão trazida pelo cliente torna-se também uma questão para o terapeuta que se coloca como um interlocutor real. Experiências de um outro começam a aparecer e se descortinar diante de seus olhos e sua tarefa é acompanhá-las, acolhê-las, contribuir para sua compreensão e ir além destas, deixando-se levar pelo cliente. A partir da companhia verdadeira do terapeuta, a pessoa pode se arriscar a embarcar nesse processo, pois não está sozinha. Desencadeia-se um movimento, assume-se um risco e uma tarefa. As palavras de Mahfoud (1989) resumem o que foi abordado anteriormente:

tratam-se de certas condutas do eu que facilitam ao outro colocar-se num certo movimento de busca e de maior clareza e integração de si – e é um processo que acontece numa relação, ou seja, não é promovido por uma nem por outra pessoa, mas acontece, é facilitado naquela relação que também vai se transformando a cada movimento das pessoas (p. 547, grifos do autor).

Ou seja, o encontro não é o objetivo final da terapia. Um ponto fundamental é a sua natureza fluida, que não pode ser tida como um fim em si mesmo. Para Safra (2004c), o encontro não é a resposta, é o início da caminhada. Serve para que a pessoa se ponha em trânsito, em devir. O encantamento e o envolvimento presentes na relação verdadeira precedem o momento do encontro, no qual este encanto se rompe e algo novo é formulado,

colocando-se em marcha. Assim, a partir do encontro, um saber é produzido e uma pergunta é construída e apresentada.

A respeito desse movimento acarretado pelo encontro, Mahfoud (2002) assinala o caráter da resposta que surge a partir da pergunta formulada: é uma resposta que não fecha, que não responde simplesmente, cessando os questionamentos. Ao contrário, ela abre para novas formulações, novas indagações. Uma resposta que surge de uma pergunta nascida do encontro, quando corresponde à vivência da pessoa, a colocará em movimento. A possibilidade desse movimento reflexivo e vivencial experimentado pelo cliente explicita sua relação com o mundo e se expande, apontando para o lugar onde a pessoa de fato se situa: na fronteira entre sua subjetividade e o mundo. Isso é fundamental na questão do encontro, posto que ele não é um fenômeno intra-psíquico, e sim relacional. Ele ocorre na fronteira de contato, entre o organismo e o meio, entre a pessoa e aquilo que a toca de alguma forma. Só assim, podem ocorrer elaborações, re-significações, e a busca pelo sentido, coisas que não se dão necessariamente no setting terapêutico, mas como conseqüência de uma relação que se reflete na vida da pessoa também fora daquela situação específica.

Certamente, a dimensão do mistério está presente em todo este processo, que pode ser vivido, sentido, mas não plenamente explicado. Segundo Mahfoud (1989), a chave simples e potente para manter em marcha o movimento do cliente é admirar-se, maravilhar-se com esse processo que se mostra, velado e revelado ao mesmo tempo. O psicólogo vive também uma experiência estética diante da beleza e incompreensibilidade do que se revela.