Na preparação do trabalho de Leonor a desenvolver nas aulas, os manuais escolares ocupam um papel bastante importante como complemento ou substituto dos programas oficiais, nomeadamente, na indicação das competências e na indicação, sequência e profundidade dos conteúdos, já referidos em outros trabalhos (Cabrita, 1999; Freeman e Porter, 1989):
“na planificação, os manuais ajudam, porque… em vez de estar, constantemente, todos os dias a pegar no programa, e como os manuais vêm com o programa completo, é muito mais fácil a pessoa partir
[deles], vê logo o tema que deve ser tratado, embora depois possa aprofundar mais ou alterar a respectiva ordem… não quer dizer que se siga sempre a ordem que está no livro. Eu às vezes altero-a! Por isso, os manuais, pelo menos a mim, ajudam-me bastante” (e.L.58).
Também no restante trabalho de planificação, como seja a definição de competências a desenvolver, a selecção de estratégias, de actividades ou de tarefas a realizar, a organização de conteúdos, a previsão de materiais manupulativos ou tecnológicos, as formas de avaliação, a marcação do trabalho de casa ou a selecção de textos, o manual adoptado (e outros manuais escolares) pode funcionar como uma ajuda primária e significativa, mas sempre orientada para a adaptação aos alunos a que se destina:
“eu consulto o manual dos alunos e digo ‘falta aqui qualquer coisa’! Tento arranjar outro… se no outro não tiver o que procuro, vou tentando noutro… ou arranjo eu própria… para tentar conseguir sempre um pouco mais. (…) Posso dar um exemplo [de selecção de textos] em Língua Portuguesa. Para tratar ‘os santos populares’, não gostava das quadras do manual… não gostava! Não quero dizer que não tivessem qualidade mas, para o nível dos meus alunos, tinha palavras muito complicadas… talvez os alunos as lessem e não compreendessem o que queriam dizer. Então, procurei em vários livros até arranjar umas quadras mais simples, mais adaptadas aos meus alunos” (e.L.56, e.L.57).
O manual escolar é um material curricular sempre disponível na sala de aula, pois “acompanha sempre os alunos”. Apesar dessa disponibilidade, Leonor não tem uma preocupação excessiva em o utilizar permanentemente na aula. De qualquer maneira, como foi constatado nas actividades observadas, quando é usado, o manual escolar é de uma grande utilidade, não tanto de apoio à exposição e explicações dos assuntos mas mais como suporte à resolução das tarefas propostas e à sistematização e registo das conclusões, quer no desenvolvimento da aula quer como trabalho de casa:
“não vivo muito em função da utilização do livro. Apesar de pensar que, com a falta de meios auxiliares que temos, seja quase impossível dizer que não vou trabalhar com o manual. Acho que ele é necessário, mas não estou com aquela preocupação de dizer assim: ‘hoje, tenho de dar isto do livro!’. Tenho dias que nem sequer o uso… Mas isso é uma coisa que já se faz quase inconsciente… Já está de tal maneira interiorizado que o faço sem estar a pensar” (e.L.64).
“nas aulas, recorro muito pouco ao manual [para as explicações]. Eu dou a aula directa com o aluno (…) fazendo outras actividades diferentes. (…) O trabalho propriamente com o manual… utilizo-o para tarefas de escola. Depois os exercícios de aplicação são feitos no quadro ou levo os
enunciados numa folha ou podem ser do manual dos alunos. Geralmente, os exercícios que o manual contém são para eles fazerem como trabalho de casa” (e.L.59).
Esta utilização do manual é complementada com outros recursos com a intenção principal de “diversificar” e porque “só com o manual torna-se cansativo para a criança”. De entre os recursos a que recorre, destaca os materiais escolares dos alunos, o quadro e outros materiais didácticos mais específicos da área da Matemática, tais como barras de Cuisenaire, sólidos geométricos, figuras geométricas, ábacos, tangram, geoplano, réguas, compassos, transferidores e materiais de uso corrente como pauzinhos ou palitos. Nas actividades observadas, a par do manual adoptado, os alunos trabalharam com fichas de trabalho elaboradas pela Leonor, cópia de páginas de outros manuais, modelos de sólidos geométricos, geoplanos e réguas.
Esta maneira de combinar o manual escolar com outros materiais é bastante próxima da categoria ‘combinação do manual com outros materiais’ referida por Henson (1981), pois o manual é um auxiliar para a Leonor na selecção de conteúdos e tarefas, mas é ela que determina os tempos e as funções da sua utilização.
Leonor recorre a algumas estratégias específicas para os alunos saberem estudar bem pelo manual, como sejam a “leitura de páginas seguida dos respectivos resumos escritos e orais” acompanhada com um dicionário para esclarecer eventuais dúvidas (como foi observado) ou para “tirar a definição de palavras do texto que eu sublinho previamente”. Este tipo de proposta, feita mais frequentemente nos anos de escolaridade mais avançados, permite aos alunos, na sua perspectiva, um trabalho mais autónomo e uma melhor interpretação e compreensão dos conceitos a estudar.
Por isso, a par da resolução de exercícios ou problemas propostos no manual escolar, os alunos também realizam esta tarefa de ler e resumir partes do texto como trabalho de casa. Leonor acrescenta e reforça a importância de os alunos levarem trabalho para fazer em casa, apesar de reconhecer que alguns deles “praticamente não fazem os deveres de casa, muitas vezes, porque não têm ambiente familiar” que os motive ou estimule. Também, prevendo essa situação, o trabalho proposto aos alunos é, geralmente, do mesmo tipo daquele que estão habituados a fazer na aula:
“esse tipo de trabalho quando eu mando fazer para casa antes já foi feito na escola. Nunca mando fazer coisas novas para casa sem elas terem sido feitas antes na escola (…) não quer dizer que seja sempre igual, mas, que [os alunos] já tenham alguma experiência. Não vou mandar
fazer, em casa, uma coisa nova que eles desconheçam. Não mando” (e.L.62, e.L.63).