Ulf Torgersen*
5 Omorganisering og nyskaping i kunnskapssektoren
A gravidade da situação ambiental do semiárido cearense está diretamente associada à forma como as classes dirigentes vêm governando o Estado ao longo de várias gerações. Seguindo o padrão vigente desde a colonização, o Ceará é um dos estados do Nordeste fortemente marcado pela oligarquia agrária que sempre esteve associada ao poder, hábil em promover o que Oliveira (1977) nomeou de a captura do Estado. Para Oliveira, o Ceará é “talvez entre todos os Estados do Nordeste o mais encarniçadamente oligárquico” (Id. p. 55). E não é sem razão a sua avaliação. Historicamente o Ceará é reconhecido por um forte patrimonialismo, em que “o Estado se vê constantemente submetido aos interesses de grupos particulares e de sua própria burocracia que em diversos momentos é apenas aparentemente racional, mas que age igualmente de modo privado” (MONTE, 2005, p. 73).
No desenrolar do tipo de colonização que se deu na parte sertaneja do Estado, onde a pecuária, a cultura do algodão e da cana de açúcar, essa última nas áreas mais úmidas como no Cariri, a divisão do Ceará por latifúndios seguiu o modelo de sociedade excludente que se forjou no Brasil. E da passagem do século XVIII para o século XIX, quando se estabeleceu a República do Ceará em 26 de agosto de 1824, a história político-administrativa do Estado vai ser marcada pela força do coronelismo, em referência ao poder dos grandes latifundiários, também conhecidos pela alcunha de coronéis.
No final do século XIX, em 1896 tem início a poderosa oligarquia Accioly no Estado, comandada pelo comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly, filho de proprietários rurais de Icó, de descendência portuguesa. A partir de então a região do Cariri participa ativamente da história do coronelismo no Ceará. O século XX, por sua vez, será marcado por ciclos de poder dos coronéis, conflitos e batalhas sangrentas, como a Sedição de Juazeiro, entre 1913 e 1914, que irá misturar motivações políticas pessoais dos grupos que disputam o poder regional e
estadual com a forte religiosidade popular que se inicia na região em torno da figura de Padre Cícero.48
Em meio a este quadro, todas as tentativas de organização popular em torno da conquista de autonomia serão combatidas. O maior exemplo disso é a história do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, comunidade organizada pelo beato José Lourenço em uma propriedade rural pertencente ao Padre Cícero, no Crato, que foi dizimada pelas forças do Estado por representar grande ameaça às oligarquias agrárias diante do seu exemplo de sociedade igualitária. A comunidade resistiu de 1926 a 1937 quando foi invadida e destruída pela primeira ação de extermínio do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Estado do Ceará. Na ocasião aconteceu o primeiro ataque aéreo da história do Brasil. 49
É a partir da Revolução de 1930 que a força dos coronéis passa a declinar ao entrar em choque com a direção política do governo de Getúlio Vargas que vai se inserir na perspectiva mundial de construção de nações modernas e, entre outras coisas, promove o crescimento da produção industrial, levando ao aumento do poder político de banqueiros, comerciantes e industriais em detrimento dos fazendeiros (MONTE, 2005). Mas se em âmbito nacional os coronéis perdem espaço, o mesmo não acontece em âmbito estadual. Por alguns anos ainda eles serão beneficiados pelos governos estaduais, em razão da manutenção dos currais eleitorais, predominantes no meio rural.
Nos anos 1960, pautados pelo desenvolvimentismo, os governos estaduais iniciam sua política de fortalecimento do setor industrial, predominantemente urbano. Inaugura-se, assim, a partir de 1963, com o governo de Virgílio Távora, a “modernização” do Ceará. Os coronéis ainda sobreviverão por algum tempo, até que, em 1983, o governador Gonzaga Mota rompe com o grupo e abre espaço para a geração que usou a propaganda da modernização do Estado a seu favor. Na segunda metade da década de 80, um novo ciclo político se inicia sob o comando do social democrata Tasso Jereissati, defensor do modelo econômico neoliberal, alinhado com as políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Esse ciclo se estende de 1986 a 2006. Em 2007, Tasso Jereissati e o PSDB perdem a hegemonia no comando do Estado para o ex-colega de partido Cid Gomes, eleito para o governo estadual
48 Fonte: Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Cear%C3%A1>. Acesso em: 22 jun. 2011.
49 Fonte: Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Cear%C3%A1>. Acesso em: 22 jun. 2011.
pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Reeleito em 2010, Cid Gomes dá seguimento ao processo de modernização conservadora no Estado nos dias atuais.50
Por essa dinâmica, o Ceará que abre o século XXI já é predominantemente urbano – 75,09% de sua população vivem nas cidades e apenas 24,91% no meio rural51. No campo, as políticas públicas estimulam a agroindustrialização, também sob o argumento de que a atividade industrial é a única capaz de “modernizar” o Estado, além de gerar emprego e renda para as populações pobres. As pequenas propriedades rurais, ao longo dessa história, vão ver seus filhos e filhas fugirem para as pequenas, médias e grandes cidades em busca de “melhores condições de vida”. O êxodo rural, que tanto agrava a problemática urbana, é alimentado pelos/as bisnetos/as, netos/as e filhos/as de camponeses/as, em grande parte. A pobreza no campo, que tanto os/as assusta e afasta, está diretamente relacionada à falta de reforma agrária e à existência de políticas públicas majoritariamente voltadas para expansão do agronegócio. Fato este que fica evidente nos contrastes entre a agricultura familiar e a agricultura não familiar. Segundo o Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável: Território Cidadania do Cariri (2010, p. 235, 236): os 52.030 estabelecimentos de agricultura familiar que existem na região ocupam uma área de 399.639 hectares, enquanto apenas os 5.463 estabelecimentos de agricultura não familiar ocupam área equivalente a 353.631 hectares.
Na esteira desse processo, Drew (1986, p.56) considera que “o problema até agora por resolver é até que ponto e como os solos de determinada área podem ser manipulados em benefício da agricultura, mas sem infligir prejuízos „inaceitáveis‟ ao mundo da natureza”, como vem acontecendo desde a II Guerra Mundial, quando o pacote tecnológico da Revolução Verde foi expandido dos países desenvolvidos para aqueles em desenvolvimento. No Brasil, particularmente, a Revolução Verde, incorporada com o nome de “modernização da agricultura”, se intensificou a partir de meados dos anos 60, durante a ditadura militar.
A adoção desse pacote tecnológico, de acordo com Alves (2008, p. 63), deve-se ao modelo de desenvolvimento exógeno adotado pelos governos do país, o qual
confluía para uma proposta de articulação subordinada das atividades desenvolvidas no espaço rural pelas desenvolvidas nas economias urbanas. Nessa visão, o aspecto dinâmico da economia (com desenvolvimento de produtos, serviços e pesquisas) ocorreria no espaço urbano. Ao rural caberia o papel de receptáculo passivo de
50 Fonte: Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Cear%C3%A1 >. Acesso em: 22 jun. 2011.
tecnologia e insumos e de fornecedor de matérias-primas e de alimentos para nutrir a máquina produtiva e as populações.
“Todo aparato construído pela Revolução Verde ao longo de aproximadamente meio século”, tem como uma de suas consequências “a paulatina erosão do conhecimento local e sua substituição por um conhecimento científico global” (ALVES, 2008, p. 63). E desta forma, provocou processos de desflorestamento, erosão e salinização dos solos, levando a uma perda de fertilidade da terra, com crescentes custos ecológicos e sociais. As mudanças ambientais provocadas pela modernização da agricultura, segundo Leff (2001, p. 302), “não só geraram processos migratórios, mas afetam a dinâmica populacional, inclusive as taxas de natalidade e mortalidade, ao degradar as bases de sustentabilidade do planeta e a qualidade de vida de uma população crescente”.
A história nos mostra que existem diversos fatores em meio à relação sociedade e natureza especialmente responsáveis pelos percalços maiores da atividade agrícola sustentável no semiárido. Entre os principais está a associação dos governos locais com interesses de grupos hegemônicos globais, levando à definição dos valores que norteiam as políticas públicas em desacordo com as condições ambientais locais, as necessidades e práticas culturais populares. À medida que os governos estabelecem como prioridade a agroindustrialização, os/as camponeses/as e suas famílias buscam articulações contra- hegemônicas na sociedade global para se fortalecerem e manterem-se livres.
3.4 Semeando pequenos territórios de Esperança – reatando laços com a utopia da Terra