Esta pesquisa foi desenvolvida na Escola Pública Federal de Educação Infantil (NDC), em Fortaleza-Ceará e no domicílio de cada criança. Optamos pelo NDC porque este correspondeu aos critérios preestabelecidos para a investigação:
a) ter um programa de Educação Infantil que atende crianças na faixa etária de cinco anos e meio a seis anos e meio; e
b) incluir em seu programa famílias ligadas à UFC, que representam diferentes segmentos sociais - professores, alunos, funcionários de níveis superior, médio e de apoio, representando, dessa forma, diferentes segmentos socioeconômicos.
Essa escolha possibilitou o estudo de práticas de leitura e de escrita de pessoas de variados segmentos socioeconômicos dentro de uma mesma instituição, bem como a análise das diferentes relações que mantêm com o impresso em função do cargo que ocupam na Universidade.
Como diz Chartier (1996), os diferentes grupos sociais estabelecem variadas relações com o texto escrito (o que lê? Como lê? Para que lê?); dessa forma, as relações e variações na forma de interagir com o texto contribuem para os diferentes sentidos atribuidos ao impresso. Sobre pluralidade das leituras, Chartier, ressalta:
São elas que constroem de maneira diferente o sentido dos textos, mesmo se esses textos inscrevem no interior de si mesmos o sentido de que desejariam ver-se atribuídos. E é justamente essa diferenciação da leitura, desde suas modalidades mais físicas até seu trabalho intelectual, que pode constituir um instrumento de discriminação entre os leitores, muito mais do que a repartição supostamente diferencial deste ou daquele tipo de objeto manuscrito ou impresso. (1996: 243/244).
Para esse historiador, as leituras são sempre plurais e a aprendizagem da leitura pela criança se apóia muito mais nos questionamentos advindos de fora da escola, relacionados mais à descoberta, pelo leitor, de problemas que pertencem à difícil compreensão da ordem do mundo do que à escolarização, isto é, à aprendizagem escolar.
Para melhor compreensão da escolha dessa escola, é necessário discorrer um pouco sobre sua prática pedagógica.
O Núcleo de Desenvolvimento da Criança (NDC), escola de Educação Infantil pública, da Universidade Federal do Ceará (UFC), faz parte do Departamento de Economia Doméstica, do Centro de Ciências Agrárias. Foi criado por professoras dessa unidade acadêmica, com o objetivo de integrar as atividades de ensino, pesquisa e extensão relacionadas com a criança e a família.
Desde 1990 o NDC oferece um programa educacional para crianças na faixa etária de 2 ½ a 6 ½ anos, filhos ou dependentes de professores, funcionários e alunos da UFC.
Em 2003, foi reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) como Escola Pública Federal de Educação Infantil, por atender aos critérios de qualidade para uma instituição de Educação Infantil, preestabelecidos por esse órgão. O reconhecimento como escola de Educação Infantil, no entanto, junto ao Conselho de Educação do Ceará e à própria UFC se encontra em fase de tramitação.
O NDC tem como objetivo favorecer o desenvolvimento infantil em seus aspectos físico-motor, sócioafetivo e cognitivo e ensejar aos alunos dos mais diversos cursos de graduação da UFC e de outras Instituições de Ensino Superior, que incluem em sua grade curricular estudos relacionados ao desenvolvimento e educação da criança, o confronto da teoria com a prática por meio de estágios de observação, participação e de estágios supervisionados. Além dos objetivos relacionados com o ensino de graduação, o NDC proporciona campo para a realização de pesquisas relacionadas com o desenvolvimento e aprendizagem da criança, educação familiar. Contribui para a formação de professores de Educação Infantil de instituições públicas e privadas.
Em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Educação Infantil e atendendo às determinações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei 9394/96), o NDC procura desenvolver uma ação integrada incorporando às atividades educativas os cuidados essenciais da criança e suas brincadeiras. A proposta pedagógica se fundamenta nos pressupostos teóricos de Piaget, Vygotsky, Wallon e outros e na experiência vivenciada pelas professoras e tem por objetivo o desenvolvimento integral da criança e a apropriação, por ela, de elementos de sua cultura.
A proposta pedagógica do NDC assenta-se na certeza de que a infância é uma categoria social e histórica, e que a criança é determinada histórica e socialmente, sendo, portanto, seu desenvolvimento e aprendizagem intrinsecamente relacionados com as características do seu meio sociocultural. De acordo com essa convicção, as crianças são co-produtoras dos saberes necessários ao seu crescimento e desenvolvimento. Uma vez que a formação intelectual é um processo social, a professora tem papel fundamental na mediação do ensino-aprendizagem: organiza o ambiente; planeja, por iniciativa própria e com as crianças, as experiências de aprendizagem; coordena e sugere as atividades e dá encaminhamento às propostas de estudos das crianças; lança desafios a partir da observação permanente das crianças e avalia o nível de desenvolvimento e aprendizagem de cada criança.
Com o objetivo de formar leitores competentes e que desenvolvam o prazer de ler, o NDC contribui, por meio do programa de empréstimo de livros, para que todas as crianças que lá estudam tenham a oportunidade, também em casa, de compartilhar momentos de leitura na família.
As professoras do NDC entendem que ler é uma das formas de a criança exercer o seu direito de cidadania e que as práticas de leitura desenvolvidas na escola e na família contribuem mais eficientemente para que a criança se aproprie desse objeto de conhecimento. A aquisição da leitura e da escrita é uma condição para a democracia, pois a língua é o instrumento por meio do qual o indivíduo-leitor exercita a cidadania. Saber ler e escrever, além de ser um direito é ao mesmo tempo forma de exercer a cidadania. A leitura e a escrita são instrumentos de apropriação da cultura e de conhecimentos, necessários para a solução de desafios que a vida impõe. Por esse motivo o NDC possibilita que as crianças levem para casa, semanalmente, no mínimo, quatro livros da literatura infantil para serem lidos pela criança e/ou pessoas da família.
Segundo Teberosky e Colomer (2003, p.34), “quando os adultos incluem as crianças ativamente em torno de atividades de escrita, colaboram para o aumento de seu vocabulário e
para a compreensão das funções do texto escrito. Ambos os aspectos estão relacionados ao desenvolvimento das capacidades de leitura e de escrita”.
Uma vez que os pais e alunos que formam a escola fazem parte de uma instituição de produção e de socialização de saber, como é o caso da Universidade – UFC, acreditamos que as práticas de leitura e de escrita fazem parte da rotina das famílias. Daí a suposição de encontrarmos, a partir das informações das famílias e das crianças, resposta para as indagações que viabilizaram esta pesquisa.