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1ª Turma de Normalistas Rurais da ENRLN,1938 – Álbum de Dona Carmusina Arrais

A Escola Normal Rural de Limoeiro foi instalada em 15 de fevereiro de 1938, sendo que sua oficialização ocorre somente em 23 de Janeiro de 1939, pelo Decreto Lei de nº. 485, no governo de Meneses Pimentel. Ancorada em iniciativa particular, era mantida pela Sociedade Pró-Educação Rural de Limoeiro. Dessa forma, a criação de uma escola de formação do professorado rural constituiu evento de envergadura para ainda pequena cidade de Limoeiro do Norte:

[...] Em um dos salões do Grupo Escolar Joaquim de Meneses, da cidade, com a presença dos srs. Custódio Saraiva, Prefeito Municipal, Manfredo Oliveira, Presidente da Sociedade Pro-Educação Rural de Limoeiro, várias professoras do Grupo Escolar, grande número de alunas e muitas pessoas gradas, realizou-se a sessão inaugural dos trabalhos da Escola Normal Rural de Limoeiro, fruto da cooperação do dinâmico povo Limoeirense". ( CASTELO, Op cit., p 45/46 ).

Para Franklin Gondim Chaves, naquela época , o ambiente de Limoeiro do Norte, do ponto de vista cultural, era atrasado. Havia lá duas casas onde havia estantes com livros: era a casa de seu padrinho, o vigário, e a casa de um advogado, José Osterne Ferreira. Havia uma escola primária só e um colégio à noite, de um rapaz que chegou lá em Limoeiro, mas muito atrasado. Então, segundo seu depoimento19:

Ouvi falar que tinha sido fundada em Juazeiro, uma Escola Normal Rural. Com os contatos com a Ação Integralista, eu me dei muito com o Padre Helder Câmara, nesse tempo o Padre era moçinho, tinha saído do seminário, inteligente, falava muito bem. Conversa vai, conversa vem, falamos da Semana Ruralista. O Padre foi convidado por Pimental para ser Diretor da Instrução... Então ele disse: você não quer ir ver essa Semana Ruralista lá em Juazeiro? [...] Eu não tinha nada com esse negócio de Educação. Era comerciante, mas fui. Peguei o trem de Quixadá, eu fui no mesmo trem com eles... Foi quando conheci o Plácido Castelo. Nessa oportunidade conheci a D. Maria Gonçalves da Rocha Leal, uma professora ruralista que havia em Juazeiro. Então ela começou a contar o drama dela. Uma moça pobre, órfã, e ainda tinha duas irmãs, estudou com muita dificuldade, ajudada pelo Padre Cícero. Fez um curso de especialização no Rio de Janeiro, em ruralismo. Criaram a Escola Normal Rural, ela esperava ser convidada para ser diretora , não foi. Foi convidada a D. Amália Xavier, que era um irmão de um Deputado Federal. Ela ficou traumatizada... Eu disse: D. Gonçalves, me diga uma coisa: se lá em Limoeiro a gente tivesse condições de fundar uma escola dessa, a sra. Iria nos ajudar, lá? Ela disse: Vou. Eu vi naquilo uma possibilidade[...].

Concretiza-se o projeto de criação de uma Escola Normal Rural em Limoeiro do Norte. A Escola gozara de muito prestígio na região, sendo equiparada à de Juazeiro do Norte pelo seu idealismo e pelo tempo que perdurou fiel ao seu propósito de formação da professora rural. E é justamente a mestra

19 Depoimento de Franklin Chaves em entrevista realizada por professores do Núcleo de

vinda de Juazeiro do Norte que assumirá a tarefa de implementar uma escola nos moldes da escola caririense. Na solenidade de inauguração da ENRLN,20a Diretora fundadora, Dona Maria Gonçalves, proferiu eloqüente discurso sobre o importante papel que competia essa escola de formação docente e o que ela representaria para o meio rural:

Mostrando a sua influencia como renovadora da mentalidade em geral, particularizou a missão sócio-econômica desta mesma escola, preparando professores para o hinterland, dentro da sadia política da fixação do homem ao “habitat rural”. Vivamente aplaudida, a oradora perorou tecendo um hino elogioso ao povo limoeirense pela esplêndida iniciativa que naquele momento se concretizava e lembrou a todos o dever de ajuda-la, na alta missão a que tinha sido chamada, nesta cidade, numa cooperação feliz em que colocava em plano superior os interesses da Pátria e o respeito às nossas crenças religiosas..” (CASTELO, 1951, p.47).

Dona Maria Gonçalves era uma mestra querida e muito respeitada por suas alunas. Carmusina Arraes Freire21, a ela dedicou crônica publicada em seu livro Fagulhas de Luz (2003, p.37 e 38). Eis alguns trechos dessa homenagem:

A tradição, que fala a linguagem do passado através das gerações, há de perenizar no Vale do Jaguaribe, mormente em Limoeiro do Norte, o conteúdo áureo da atuação dessa personalidade em evidência, graças ao seu trabalho fecundador de primeira diretora da Escola Normal Rural.

Fez da Escola um templo cultural polivalente, rasgando com intrepidez e denodo as entranhas do analfabetismo que grassava em toda a região.

Desbravadora da inteligência, seu nome atravessou as fronteiras do Ceará com extensão aos Estados limítrofes.

[...] Aí está o vulto inconfundível e eminente, cuja vida imperecível a história guardará, para enaltecer a Educação do nosso Ceará.

Ela é Maria Gonçalves da Rocha Leal, Estrela do Ceará.

20Em alguns momentos utilizarei a sigla ENRLN, para designar Escola Normal Rural de Limoeiro

do Norte.

21 No livro de Carmusina Arrais Freire, uma das narradoras dessa pesquisa, existe um capítulo

Em 1941 ocorre a diplomação da primeira turma de normalistas rurais, composta por quatro alunas. Em 1938, já existiam 91 alunos matriculados na escola. Ao descrever a fundação e os caminhos traçados pela ENRLN, Plácido Castelo (1951), apresenta algumas instituições que funcionavam como meios educativos naquela escola: Clube Agrícola Euclides da Cunha, Círculo de Estudos Pe. Helder Câmara; Hora da Socialização; Biblioteca Menezes Pimentel; Hora Pedagógica Jackson de Figueiredo: Orfeão Branca Bilhar; Liga da Amabilidade; Liga Esportiva Limoeiro.