A pesquisa de campo é carregada de elementos imprevisíveis, os quais tendem a instigar a percepção e/ou intuição no campo. Esta é acionada no desejo criativo de distanciamento dos quadros fechados de análise que impossibilitam o despertar que ultrapasse referências conceituais e metodológicas. Paradoxalmente, a intuição também está entrelaçada às mesmas referências teórico-metodológicas do pesquisador.
Nessa direção, por mais que estejamos carregados de referências teóricas e metodológicas acerca do objeto, o campo tende a argumentar na desconstrução de nossos pressupostos. Porém, o planejamento e a orientação teórico-metodológica ainda são condições fundamentais para um entendimento mais reflexivo do objeto de estudo. É justamente o jogo ofensivo entre o que temos de construções teóricas e metodológicas de um planejamento anterior ao campo em face às desconstruções agenciadas pela vivência no campo, o que alimenta a intuição e a percepção para uma análise mais compreensiva.
Nessa direção, foi justo em um momento inesperado que me veio um importante
insight para a construção de um conceito em minha pesquisa. Trata-se do conceito de
territórios de projeções simbólicas. Já fazia alguns dias de minha vivência no campo, na qual realizava observações e comparava discursos, no esforço interpretativo para o entendimento do contexto recente que envolve a construção de uma nova barragem em Algodões I, quando, num dia dedicado ao lazer na região, resolvi, na companhia de minha esposa e de dois amigos de Tianguá, aproveitar um banho de cachoeira na localidade de Pirapora – lá tive esse importante insight. A localidade de Pirapora fica na divisa entre Piauí e Ceará, situada perto da região dos povoados atingidos pela barragem Algodões.
Foi um dia, sobretudo, dedicado ao lazer em que pude, já de volta a Tianguá, à noite, organizar o primeiro esboço desse conceito para operacionalização de meu objeto. Um
insight diretamente ligado ao meu campo, um conceito mais operacional, ainda sujeito a
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A base dessa proposta se dá pelo fato de que – diante das situações de constantes deslocamentos e das perdas dos marcos de apoio que orientam e dão sentido à vida das pessoas, característica comum que se pode observar no contexto de povos que, a exemplo das vítimas de Algodões, têm passado por constantes processos de deslocamentos territoriais, muitas vezes agenciados pelo Estado no âmbito das chamadas políticas desenvolvimentistas – estas pessoas têm conseguido, de alguma forma, angariar forças de modo paradoxal, tendo em vista o forte golpe em seus rastros simbólicos de uma cartografia sentimental construída historicamente.
Assim, diante de novas configurações espaciais iminentes no contexto de construção da Nova Algodões e da disputa jurídica frente ao estado do Piauí pelas indenizações, novas cartografias territoriais são projetadas e imaginadas pelos atingidos. Desenhos mentais imaginados, elas resultam de uma vivência anterior ao desastre, em interconexão com o tempo presente. É um território projetado para o futuro, mas que tem sua base no passado recente, realimentado também pelas condições difíceis que os atingidos vivenciam hoje. Estes territórios de projeções simbólicas são o que alimentam e dão força para a luta diária, diante da desestabilização da ancoragem sentimental dos atingidos.
A noção de “viagem da volta”, utilizada por João Pacheco de Oliveira (PACHECO DE OLIVEIRA, 2016), é essencial para o entendimento e a compreensão do conceito que proponho. Poderíamos refletir, em diálogo com essa noção, acerca da construção dos territórios de projeções como viagens simbólicas carregadas de sentido social, político e afetivo.
Assim, para o caso em estudo, os atingidos experienciam, na construção dos territórios de projeções simbólicas, uma espécie de “viagem da volta”, ao passado, anterior ao rompimento da barragem, no qual incide o presente e reflete o futuro. No processo, imagens são criadas. Trata-se de um desenho de território que flutua e carrega, em suas bases, memórias e sonhos. Sustentação simbólica que tem orientado o dia a dia dos atingidos para não afundarem totalmente nas águas.
A viagem, para Pacheco de Oliveira (2016, p. 214), “[...] é a anunciação, autorreflexiva, da experiência de um migrante”, perspectiva transposta para os versos do poeta piauiense Torquato Neto e do pernambucano Carlos Pinto: “Desde o começo que saí de casa/ trouxe a viagem da volta gravada na minha mão/ enterrada no umbigo/ dentro e fora assim comigo/ minha própria condução” (TORQUATO NETO; PINTO, 1973, faixa 20).
A “viagem da volta gravada na minha mão/enterrada no umbigo”. Aqui a expressão “enterrada no umbigo” constitui importante significação para a população
nordestina, um sentido bem particular, sobretudo em áreas rurais, onde ainda há o costume de as mães enterrarem o umbigo de seus filhos recém-nascidos para manutenção da ligação entre o indivíduo e a terra onde nasceu (PACHECO DE OLIVEIRA, 2016). Tal ato teria uma função mágica que aumentaria as chances de retorno do indivíduo à terra de origem, mesmo ao passar por períodos e experiências fora da terra natal. Nesse sentido, infere o autor o seguinte:
O que a figura poética sugere é uma poderosa conexão entre o sentimento de pertencimento étnico e um lugar de origem específico, onde o indivíduo e seus componentes mágicos se unem e se identificam com a própria terra, passando a integrar um destino comum. A relação entre a pessoa e o grupo étnico seria mediada pelo território, e a sua representação poderia remeter não só a uma recuperação mais primária da memória, mas também às imagens mais expressivas da autoctonia (PACHECO DE OLIVEIRA, 2016, p. 215, grifo do autor).
Nessa direção, Pacheco de Oliveira (2016) expõe dois importantes sentidos da imagem figurativa de “viagem da volta”, que devem ser apreendidos de maneira inter- relacional e sem os quais a etnicidade não poderia ser pensada, pois seria algo próprio das identidades étnicas.
A etnicidade supõe, necessariamente, uma trajetória (que é histórica e determinada por múltiplos fatores) e uma origem (que é uma experiência primária, individual, mas que também está traduzida em saberes e narrativas aos quais vem a se acoplar). O que seria próprio das identidades étnicas é que, nelas, a atualização histórica não anula o sentimento de referência à origem; até mesmo o reforça. É da resolução simbólica e coletiva dessa contradição que decorre a força política e emocional da etnicidade. (PACHECO DE OIVEIRA, 2016, p. 215).
Portanto, a etnicidade decorre de conexões com a origem e da trajetória histórica dos indivíduos dentro de uma coletividade maior. É nesse sentido que Pacheco de Oliveira (2016) esclarece a escolha da imagem de “viagem da volta” e não de “viagem de volta”. “A viagem da volta não é um exercício nostálgico de retorno ao passado e desconectado do presente (por isso não é uma viagem de volta)” (PACHECO DE OLIVEIRA, 2016, p. 216).
Conforme esse autor, as viagens constituem um importante fator na própria constituição das sociedades. É isso que se verifica nos estudos mais recentes sobre o processo de emergência étnica de diversos grupos no Nordeste, sobretudo no que se refere a viagens de lideranças indígenas em busca de reconhecimento do grupo ao qual representavam.
Suas viagens às capitais do Nordeste e ao Rio de Janeiro para obter o reconhecimento do SPI e a demarcação de suas terras configuraram verdadeiras romarias políticas, que instituíram mecanismos de representação, constituíram alianças externas, elaboraram e divulgaram projetos de futuro, cristalizaram internamente os interesses dispersos, e fizeram nascer uma unidade política antes
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inexistente. É preciso perceber que essas viagens só assumiram tal significação porque os líderes também atuaram em outra dimensão, realizando outras viagens, que foram peregrinações no sentido religioso, voltadas para a reafirmação de valores morais e de crenças fundamentais que fornecem as bases de possibilidade de uma existência coletiva. (PACHECO DE OLIVEIRA, 2016, p. 216-217).
Essa discussão é fundamental para o entendimento dos territórios de projeções simbólicas em Algodões I, pois, no processo de construção destes a partir de imagens projetadas para o futuro, eles carregam em suas bases elementos de uma trajetória histórica que remete desde o passado relacionado à origem nos povoados até a experiência mais recente em novos espaços, sobretudo na arena institucional e política vivenciada pelos atingidos desde o rompimento da barragem em 2009.
Pode-se dizer, assim, que os territórios de projeções simbólicas são viagens onde se processam e se sintetizam diferentes espaços-tempos de uma trajetória individual e coletiva na busca pela estabilização cultural e afetiva. No caso de Algodões I, a construção desses territórios para o futuro tem possibilitado o caminhar dos atingidos ante o forte impacto ao principal marco de apoio destes – a terra.