• No results found

Om magedanserinner og appropriasjon i New Yorksomethinginthewayshe moves

In document Betwixt & Between 2012 (sider 85-99)

Ao realizar a formação de si, de Perón e do povo peronista em seu texto autobiográfico, Eva Perón elabora alegorias com as quais descreve a nação argentina: lar e família. Resumidamente, a pátria deve ser administrada como um lar que abriga a família formada pelo pai, Perón, a mãe, Evita, e os filhos, o povo.

Relata Eva Perón que, para levar adiante seu projeto de governo, era necessário a Perón o apoio popular. No contato com o povo, percebeu que havia um trabalho modesto, mas que precisava ser feito: o atendimento das necessidades urgentes dos trabalhadores. Ao abordar esse assunto, introduz a ideia da família:

Entre las esperanzas de los descamisados había muchas pequeñas ilusiones que depositaban en Perón como los hijos piden a sus padres.

En todas las familias los pedidos y las exigencias varían mucho: los mayores quieren cosas de importancia, los menores piden juguetes. En la familia grande que es la Patria también los pedidos que se presentan al Presidente, que es el padre común, son infinitos. (LRMV, p. 83)60

Se a pátria é o lar, Perón é o pai e Evita, a mãe. O pai é “símbolo da geração, da posse, da dominação, do valor... Ele é uma representação de toda forma de autoridade: chefe, patrão, professor, protetor, deus” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2012, p. 678). Já a mãe, como matriz de vida, simboliza “a segurança do abrigo, do calor, da ternura e da alimentação” (ibdem, p. 580).

O lar, formador do povo, é cuidado pela mãe e nele serão formados os homens e mulheres excepcionais dos quais a nova idade justicialista necessita (LRMV, p. 309). Eva

60Tradução nossa: “Entre as esperanças dos descamisados havia muitas pequenas ilusões que depositavam em Perón como os filhos pedem a seus pais.

Em todas as famílias os pedidos e as exigências variam muito: os mais velhos querem coisas importantes, os mais novos pedem brinquedos. Na família grande que é a Pátria também os pedidos que se apresentam ao

Perón declara: “¡Es que me siento verdadeiramente madre de mi pueblo!” (LRMV, p. 314).61

E, como mãe, apresentou-se para trabalhar junto ao povo, atendendo aos “pequeños pedidos” (LRMV, 83)62 e, assim, tornou-se “Evita”, para ser a mediadora entre Perón e o povo, numa relação que não terminará em divórcio:

Yo elegí ser “Evita”... para que por mi intermedio el pueblo y sobre todo los

trabajadores, encontrasen siempre libre el camino de su Líder. La solución no pudo ser mejor ni más práctica.

Los problemas de gobierno llegan a Perón todos los días a través de sus ministros, de los funcionarios o de los mismos interesados; pero cada uno de ellos no puede disponer sino de escasos minutos de la jornada agotadora de un Presidente como Perón.

En cambio los problemas del pueblo llegan al conductor todos los días, durante el almuerzo o la cena, en las tardes apacibles de los sábados, en los domingos largos y tranquilos y llegan por mi voz leal y franca en circunstancias propicias, cuando el ánimo del General está libre de toda inquietud apremiante.

Así el pueblo puede estar seguro de que entre él y su gobierno no habrá divorcio posible. Porque, en este caso argentino, para divorciarse de su pueblo, el Jefe de Gobierno deberá empezar por divorciarse ¡de su propia mujer! (LRMV, p. 85)63 A narradora manifesta consciência de que seu papel de mediadora entre Perón e o povo constitui o motivo pelo qual é rechaçada pela oligarquia (LRMV, p. 98). Relata que sua obra “nació de un entendimiento mutuo e simultaneo entre mi corazón, el de Perón y el alma grande de nuestro pueblo” (LRMV, p. 157).64

A situação do lar, ou seja, da Argentina antes de Perón é descrita como complicada para os trabalhadores pobres. Havia poucos ricos e muitos pobres. O produto da lavoura, como o trigo, era destinado aos privilegiados do exterior e não ao povo argentino (LRMV, p. 158). Assim sendo, no primeiro centenário, nas palavras de Eva Perón, o país apresenta semeadura de pobreza e de miséria nos campos e nas cidades. A narradora diz que no

61Tradução nossa: “É que me sinto verdadeiramente mãe de meu povo.” 62Tradução nossa: “pequenos pedidos”.

63Tradução nossa: “Eu escolhi ser ‘Evita’... para que por meu intermédio o povo e sobretudo os trabalhadores encontrassem sempre livre o caminho de seu Líder.

A solução não pode ser melhor nem mais prática.

Os problemas de governo chegam a Perón todos os dias através de seus ministros, dos funcionários ou dos próprios interessados; mas cada um deles não pode dispor senão de escassos minutos da jornada esgotadora de um Presidente como Perón.

No entanto os problemas do povo chegam ao condutor todos os dias, durante o almoço ou o jantar, nas tardes aprazíveis dos sábados, nos domingos compridos e tranquilos e chegam por minha voz leal e franca em circunstâncias propícias, quando o ânimo do General está livre de toda inquietude premente.

Assim o povo pode estar certo de que entre ele e seu governo não haverá divórcio possível. Porque, neste caso argentino, para se divorciar de seu povo, o Chefe de Governo deverá começar por se divorciar de sua própria mulher!”

64Tradução nossa: “nasceu de um entendimento mútuo e simultâneo entre meu coração, o de Perón e a alma

momento em escreve (final de 1950), o quadro ainda não mudou totalmente, mas restava pouco dele (LRMV, p. 159).

O justicialismo é apresentado na narrativa autobiográfica como solução para os problemas da Argentina e, por extensão, de todos os países do mundo: “Cuando el mundo sea justicialista reinará el amor... y reinará la paz” (LRMV, p. 251).65 Eva Perón tece críticas ao

socialismo e ao comunismo, sobretudo porque estes se fundamentam em ideias que lhe parecem alheias ao povo argentino. Segundo ela, deveria haver uma solução caseira, isto é, procedente dos próprios argentinos (LRMV, p. 27). Paradoxalmente, considera que o justicialismo seria uma solução para o mundo inteiro, ou seja, rejeita a importação de ideias políticas para o seu país, mas deseja exportar aos demais a doutrina política que professa.

Além da importação de ideias alheias, Eva Perón critica os dirigentes trabalhistas socialistas, chamando-os de falsos dirigentes, trabalhadores aliados à oligarquia, opondo a eles os de boa fé e verdadeiro espírito sindical (LRMV, p. 110).

Em sua proposição acerca do justicialismo, aproxima-o do cristianismo, afirmando que assim como aos humildes e aos pobres foi anunciado o nascimento de Cristo, Perón se dedica a lutar pela felicidade dos descamisados (LRMV, p. 217), sendo um imitador de Cristo (LRMV, p. 255), e ela mesma, como Cristo, quer sacrificar-se em favor deles: “Si alguna vez lo molesto a Dios con algún pedido mío es para eso: para que me ayude a dar la vida por mis descamisados” (LRMV, p. 219).66

Através de suas obras de justiça social (lares para mães desempregadas, para crianças, para idosos, etc.), pretende fazer ver “que era verdad luminosa el cristianismo humanista de la doctrina de Perón” (LRMV, p. 227). Defende que as estruturas físicas sejam luxuosas, assim como se arruma impecavelmente para receber os trabalhadores, porque considera que eles merecem ser bem tratados e que poderia ela mesma vir a precisar usar o lar de idosos futuramente (LRMV, p. 228).

De modo ufanista e milenarista, considera o justicialismo uma pré-condição para o pleno estabelecimento do cristianismo:

Nadie más que Perón le muestra a la humanidad un nuevo camino, dándole una nueva esperanza. La humanidad cree que todo le ha salido mal y que ya no hay ninguna solución para sus males. Incluso cree que el mismo cristianismo ha

fracasado… Y Perón le dice francamente:

― No. Lo que ha fracasado no es el cristianismo. Son los hombres los que han

fallado aplicándole mal. El Cristianismo no ha sido todavía bien probado por los

65Tradução nossa: “Quando o mundo for justicialista reinará o amor... e reinará a paz”.

66Tradução nossa: “Se vez por outra incomodo a Deus com algum pedido meu é para isso: para que me ajude a dar a vida por meus descamisados”.

hombres porque nunca el mundo fue justo… El Cristianismo será verdad cuando

reine el amor entre los hombres y entre los pueblos; pero el amor llegará solamente cuando los hombres y los pueblos sean justicialistas. (LRMV, p. 257, 258)67

Para Eva Perón, a Argentina tem o futuro por vir, enquanto a Europa olha para o passado (LRMV, p. 236). Por isso, manifesta desejo de sair pelo mundo pregando o justicialismo (LRMV, p. 251). Como missionária, sente-se impelida por um ordenamento e apregoa o fim dos privilégios oligarcas utilizando a expressão “neste século”, como se, de fato, o governo de Perón fosse o governo de felicidade esperado no porvir do milênio cristão: “Creo, como que hay sol, que la “vida social”, así como la sociedad aristocrática y burguesa que la vive son dos cosas que se van... ¡Este siglo acabará con ellas!” (LRMV, p. 303).68

Relaciona intimamente sua vocação e missão a seu papel social como mulher. Estabelece um modelo de mulher e tece críticas às oligarcas e às feministas. Segundo ela, as mulheres da oligarquia são preocupadas apenas com vida social, salões e festas, e a obra social que elas desenvolvem, chamada de beneficência, nada mais é que ostentação da riqueza. Apresenta suas obras como de decadentes sociedades de damas de beneficência, as quais as desenvolveram apenas para se reconciliarem com suas consciências (LRMV, p. 221). Essas mulheres possuem vida vazia e fácil, são pertencentes a outra raça de mulheres (LRMV, p. 303), cuja vida social não tem objetivos: “Llena de apariencias, de pequeñeces, de mediocridades y de mentiras, todo consiste en representar un papel tonto y ridículo” (LRMV, p. 304).69 Para Eva Perón, essa representação é diferente da teatral, pois no teatro representa- se o que existiu ou pode existir; na vida social, as mulheres nada representam (LRMV, p. 304).

Opõe a essas mulheres as do povo, designadas como autênticas e cuidadoras do lar. Segundo Eva Perón, a mulher autêntica refugia-se silenciosa nos lares do povo e cria o povo. Essa mulher não foi aclamada por intelectuais ou poetas nos salões sociais (LRMV, p. 307). A importância do lar está na formação dos novos homens e mulheres: “No será tanto en las

67Tradução nossa: “Ninguém mais que Perón mostra à humanidade um novo caminho, dando-lhe uma nova esperança. A humanidade crê que tudo saiu muito mal e que já não há nenhuma solução para seus males. Inclusive crê que o próprio cristianismo fracassou... E Perón lhe diz francamente:

― Não. O que fracassou não foi o cristianismo. Foram os homens os que falharam aplicando-o mal. O

Cristianismo não foi ainda bem provado pelos homens porque o mundo nunca foi justo... O Cristianismo será verdade quando reinar o amor entre os homens e entre os povos, mas o amor chegará somente quando os homens

e os povos forem justicialistas”.

68Tradução nossa: “Creio, como que existe sol, que a ‘vida social’, assim como a sociedade aristocrática e

burguesa que a vive são duas coisas que se vão... Este século acabará com elas”.

69 Tradução nossa: “Cheia de aparências, de minúcias, de mediocridades e de mentiras, tudo consiste em

escuelas sino en los hogares donde se ha de formar la nueva humanidade que quiere el Justicialismo de Perón” (LRMV, p. 308).70

Sente-se a humilde representante de todas as mulheres do povo. Como elas, está à frente de um lar – a pátria:

El gran hogar venturoso de esa Patria mía que conduce Perón hacia sus más altos destinos.

¡Gracias a él, el “hogar” que al principio, fue pobre y desmantelado, es ahora justo

libre y soberano! ¡Todo lo hizo él!

Sus manos maravillosas convirtieron cada esperanza de nuestro pueblo en un millar de realidades.

Ahora vivimos felices, con esa felicidad de los hogares, salpicada de trabajos y aun

de amarguras… que son algo así como el marco de la felicidad.

En este gran hogar de la Patria yo soy lo que una mujer en cualquiera de los infinitos hogares de mi pueblo. (LRMV, p. 311)71

Na valorização do lar como alegoria da pátria, Eva Perón faz críticas às mulheres que não se dedicam a ele, sobretudo as feministas, sobre as quais apresenta vários lugares comuns. Seriam elas: mulheres ressentidas com a mulher e o homem, solteiras entradas em anos e feias (LRMV, p. 265). Declara que não queria ser como elas (LRMV, p. 266):

Sentía que el movimiento femenista en mi país y en todo el mundo tenía que cumplir

una misión sublime… y todo cuanto yo conocía del feminismo me parecía ridículo.

Es que, no conducido por mujeres sino por “eso” que aspirando a ser hombre, dejada de ser mujer ¡y no era nada!, el feminismo había dado el paso que va de lo sublime a lo ridículo.72

No entanto, funda o movimento feminista peronista, sendo sua primeira ação a luta pelos direitos políticos da mulher: dar à mulher o direito de votar (LRMV, p. 269). Para Eva Perón, o principal era votar para conquistar direitos, o grande direito de ser simplesmente mulheres e poder cumprir sua missão na humanidade; em sua narrativa, revela que se interessa mais pela mulher que pelos seus direitos políticos (LRMV, p. 271). Eva Perón afirma que se a mulher trabalha substituindo o homem, não é feminismo, é masculinização do

70Tradução nossa: “Não será tanto as escolas senão nos lares onde se formará a nova humanidade que quer o

Justicialismo de Perón.”

71Tradução nossa: “O grande lar venturoso dessa Pátria minha que conduz Perón até seus mais altos destinos.

Graças a ele, o ‘lar’ que, ao princípio, foi pobre e desmantelado, é agora mesmo livre e soberano!

Tudo ele fez!

Suas mãos maravilhosas converteram cada esperança de nosso povo num milhar de realidades.

Agora vivemos felizes, com essa felicidade dos lares, salpicada de trabalhos e ainda de amarguras... que são algo assim como o marco da felicidade.

Neste grande lar da Pátria eu sou o que é uma mulher em qualquer dos infinitos lares de meu povo”.

72Tradução nossa: “Sentia que o movimento feminista em meu país e em todo o mundo tinha que cumprir uma missão sublime... e tudo quanto eu conhecia do feminismo me parecia ridículo. É que, não conduzido por mulheres senão por ‘isso’ que aspirando a ser homem, deixava de ser mulher (e não era nada!), o feminismo

sexo feminino, visto que a missão da mulher é formar um lar (LRMV, p. 273). Segundo ela, o primeiro objetivo de um movimento feminino deve ser o lar: “Nacimos para construir hogares” (LRMV, p. 276),73 no entanto reconhece a falta de direitos das donas de casa e

defende que haja uma remuneração para que essas mulheres sejam economicamente independentes. Para isso também seria necessário elevar a cultura das mulheres para que ela não caísse na delinquência ou na prostituição, que são frutos da escravidão econômica da mulher (LRMV, p. 281). Seu propósito é dar ao lar um prestígio que este nunca conheceu, afirma, declarando o milenarismo justicialista uma vez mais, ao dizer que de nada valeria um movimento feminino num mundo sem justiça social, por isso o justicialismo deve estar em todo o mundo (LRMV, p. 282).

Em sua visão de mundo, as organizações não funcionam bem porque não contam com a presença criadora da mulher: “Tal vez por no habernos invitado a sus grandes organizaciones sociales el hombre ha fracasado y no ha podido hacer feliz a la humanidad” (LRMV, p. 284).74 Defende um mundo idealizado no qual as mulheres, tendo suas

necessidades e as de suas famílias providas, pudessem dedicar-se inteiramente ao lar, e que fossem felizes como ela o é em sua vida doméstica com seu marido (LRMV, p. 314).

In document Betwixt & Between 2012 (sider 85-99)