Nonaka, Toyama e Konno (2000) relatam que a criação do conhecimento é um processo de auto superação contínua aonde a fronteira do velho é superado pelo novo pela aquisição de uma nova visão de mundo, um novo contexto e um novo conhecimento. Em síntese é sempre a jornada no sentido do ser para tornar-se.
Porém, para alcançar o novo conhecimento citado, Nonaka, Toyama e Konno (2000) relata que não basta ter o conhecimento explícito ou o tácito. É necessário a junção de ambos os conhecimentos em complementaridade. A criação do conhecimento ocorre pela interação entre o explícito e o tácito.
Visando a criação de novos conhecimentos Nonaka e Takeuchi (1997) propõe o modelo SECI (Fig 5).
Este modelo consiste em interações entre tácito e explicito visando o avanço do conhecimento. O modelo está dividido em quatro dimensões: Socialização, Externalização, Combinação e Internalização.
A Socialização consiste na conversão de tácito para tácito, é o processo de conversão de novo conhecimento tácito através de experiências compartilhadas. Como o conhecimento tácito é difícil de formalizar, muitas vezes o conhecimento tácito só pode ser adquirida através da experiência compartilhada, como gastar tempo juntos ou viver no mesmo ambiente.
A Socialização geralmente ocorre em uma aprendizagem usual, aonde aprendizes absorvem o conhecimento tácito necessário ao seu ofício através da experiência direta, em vez de manuais escritos ou livros didáticos. A socialização também pode ocorrer de modo informal em reuniões sociais fora do local de trabalho, onde o conhecimento tácito, tais como visões de mundo, modelos mentais e confiança mútua podem ser criados e compartilhados. A socialização também ocorre além dos limites organizacionais. As empresas costumam adquirir e tirar proveito
do conhecimento tácito incorporado em clientes ou fornecedores por interagir com elas. (NONAKA, TOYAMA e KONNO, 2000).
Figura 5 - Modelo SECI.
Fonte: Adaptado de Nonaka, Toyama e Konno (2000)
A Externalização é a conversão de tácito para explícito. Quando o conhecimento tácito é transformado em explícito ele é cristalizado, permitindo assim que seja partilhado por outros, e torna-se a base de novos conhecimentos. O conceito de criação no desenvolvimento de novos produtos é um exemplo deste processo de conversão. Outro exemplo é um círculo de controle de qualidade, que permite que os funcionários façam melhorias sobre o processo de fabricação, articulando o conhecimento tácito acumulado dentro da fábrica ao longo de anos no trabalho. (NONAKA, TOYAMA e KONNO, 2000).
A Combinação é a conversão de explícito para explícito. Consiste em converter o conhecimento explícito em conjuntos mais complexos e sistemáticos de conhecimento explícito. O conhecimento explícito é recolhido a partir de dentro ou fora da organização para em seguida ser combinado, editados ou processados para formar novos conhecimentos. O novo conhecimento explícito é então disseminado entre os membros da organização. O uso criativo de redes informáticas de comunicação e
bancos de dados de grande escala pode facilitar esse modo de conversão do conhecimento. Quando o controlador de uma empresa coleta informações em toda a organização e coloca junto num contexto para fazer um relatório financeiro. Este relatório é o novo conhecimento de modo que sintetiza o conhecimento de muitas fontes diferentes num contexto. O modo de combinação de conversão do conhecimento é incluir a quebra de paradigma ao propor uma nova visão corporativa de negócios e produtos. Isso explícita novos conhecimentos. (NONAKA, TOYAMA e KONNO,2000).
A Internalização é a conversão de explícito para tácito. Através da internalização, o conhecimento explícito criado é compartilhado por toda a organização e convertido em conhecimento tácito por indivíduos. Internalização está intimamente relacionado com “aprender fazendo". O conhecimento explícito, tais como os conceitos de produtos ou os processos de fabricação, tende a sofrer atualização através da ação e prática. Programas de treinamento, por exemplo, podem ajudar os formandos a compreender uma organização e a si mesmos. Ao ler documentos ou manuais sobre seus trabalhos e organização, os estagiários podem internalizar o conhecimento explícito escrito em tais documentos para enriquecer sua base de conhecimento tácito.
Quando o conhecimento é internalizado para tornar-se parte da base de conhecimento tácito individual na forma de um modelo mental compartilhado torna-se um bem valioso. Esse conhecimento tácito acumulado no nível individual pode então detonar uma nova espiral de criação de conhecimento, quando é compartilhado com os outros através da socialização. (NONAKA, TOYAMA e KONNO, 2000).
Especificamente no domínio da tarefa de modelagem digital 3D, foco desta tese, é possível fazer associação direta com as estratégias de criação de conhecimento expostos. A Internalização acontece frequentemente em decorrência dos diversos cursos e treinamentos existentes e a Socialização através da troca de conhecimento existente principalmente dentro de fóruns e redes sociais.
No entanto, a Externalização e Combinação apresenta-se como desafio pela necessidade de se organizar um repositório de conhecimento sistematizado que apresente as melhores práticas. A indústria de softwares CAD necessita desta Externalização e posterior Combinação visando a melhoria do controle de qualidade e proposição de novos produtos e processos.
2.2.3 Expertise
A pesquisa sobre expertise abarca diversos domínios. Com isso há uma diversidade de definições para expertise. Matlin (2004) define expertise como uma “performance consistentemente superior em um determinado conjunto de tarefas representativas de uma área em particular”. Mieg (2001) aponta dois aspectos da expertise que são desempenho superior e especialização. Mieg (2001) descreve que nenhuma por si só define expertise. A definição de expertise pelo autor é desempenho superior baseado numa especialização.
Outra definição de expertise é dada por Sternberg (1990) que propõe que os experts podem fazer coisas “automaticamente” enquanto os novatos fazem com grande esforço. De acordo Sternberg e Grigorenko (2003), a habilidade de processar informação de maneira automática libera o expert para usar o controle executivo para a tarefa de planejamento, monitoramento e revisão. As informações que são processadas de modo automatizado ocorrem de modo subjacente e paralelo às atividades do controle executivo. Entretanto, o Novato se dedica a um processamento em serial ao processar o conhecimento necessário para controle do domínio da tarefa exigindo um gasto de tempo elevado.
Chi, Glaser e Farr (1988) argumentam que a expertise é caracterizada por altos níveis de domínio do conhecimento, velocidade no tempo de execução da tarefa e superioridade tanto na memória de longo termo quanto na memória de trabalho. Os experts têm grande habilidade de reconhecer padrões significativos. Pesquisa de Groot (1965) apontou a capacidade de experts em jogo de xadrez de serem aptos a reconhecer ampla quantidade de jogadas válidas. Essa capacidade de reconhecer grande quantidade de jogadas foi identificado em pesquisa posterior de Cooke et al (1993). Numa atividade como a modelagem 3D pesquisada nesta tese, verifica-se semelhança com o xadrez no aspecto de reconhecer diversos padrões significativos. Quanto mais formas de modelar o profissional tiver conhecimento, maiores as possibilidades de resolução de problema e de eficiência.
As estruturas utilizadas para lembrar e reconhecer padrões de informação de um domínio em particular são algumas vezes descritos como esquemas (MATLIN, 2004). Esquema é uma estrutura mentalpara organizar o conhecimento que cria conceitos relacionados baseado no significado (STERNBERG, 2010). Os esquemas na modelagem 3D permitem, por exemplo, o reconhecimento de complexas combinações
entre comandos e ações. Além dos esquemas estruturados pelos experts Custers, Boshuizen, e Schmidt (1998) argumentam que os experts desenvolvem roteiros (scripts) das suas atividades. Os roteiros descrevem sequências apropriadas de eventos em um determinado contexto (STERNBERG, 2010). Os experts têm organizado de forma definitiva a sequência de ações que deve realizar num domínio específico. Na modelagem 3D, tanto o reconhecimento de padrões quanto o sequenciamento de ações, se apresentam como estruturadores do conhecimento declarativo e procedimental da tarefa.