Não apenas atributos da mente e do corpo de uma pessoa causam orgulho nessa pessoa. Também coisas que não possuem uma relação tão imediata com o eu dessa pessoa são capazes de provocar essa paixão. Assim, uma bela casa, desde que possua alguma relação com o eu, pode ser uma causa de orgulho. Vejamos a seguinte passagem:
Embora o orgulho e a humildade tenham como causas naturais e mais imediatas os atributos de nossa mente e corpo, isto é, do eu, a experiência nos mostra que há, porém, muitos outros objetos que produzem esses afetos, e que sua causa primária se vê, em alguma medida, obscurecida e perdida em meio à multiplicidade de causas estranhas e extrínsecas. Casas, jardins, equipagem são motivos de vaidade, além do mérito e de realizações pessoais. T 2.1.9.1.
Suponhamos agora que uma pessoa famosa com um caráter irreprochável se assemelhe
presente dissertação.
fisicamente a mim. Segundo Hume, essa semelhança é um detalhe insignificante de nossas pessoas, mas é suficiente para estabelecer uma relação entre essa pessoa e o meu eu, de tal maneira que, refletindo sobre o belo caráter da pessoa famosa, é natural que eu sinta orgulho:
Só podemos envaidecer-nos por nos assemelharmos a uma pessoa em detalhes insignificantes se ela for dotada de qualidades muito notáveis que nos causem respeito e veneração. A rigor, essas qualidades é que causam nossa vaidade, mediante sua relação conosco. Ora, de que maneira se dá essa relação? Essas qualidades são partes da pessoa que valorizamos e, consequentemente, estão conectadas com esses outros detalhes insignificantes, que também se supõem serem partes dela. Esses detalhes estão conectados com as qualidades semelhantes que se encontram em nós; e essas nossas qualidades, sendo partes de nós, estão conectadas com o todo; forma-se, assim, uma cadeia de vários elos entre nós e as qualidades excelentes da pessoa com quem nos parecemos. T 2.1.9.3.
Enfim, até mesmo uma qualidade notável de caráter em uma pessoa pode ser motivo de orgulho no eu caso essa pessoa possua uma outra qualidade que a faz se assemelhar a mim.
Uma pessoa pode estar relacionada com o meu eu não por semelhança, mas pela relação de sangue. É o caso dos nossos parentes que possuem ou uma beleza física, ou notáveis destrezas, ou uma boa reputação:
(...) não é de admirar que nos envaideçamos das qualidades daqueles que estão conectados conosco por consangüinidade ou amizade. De acordo com isso, vemos que precisamente as mesmas qualidades que em nós causam orgulho produzem o mesmo afeto, em menor grau, quando aparecem em pessoas relacionadas a nós. Os orgulhosos exibem cuidadosamente a beleza, a destreza, o mérito, a reputação e as honrarias de seus parentes, como algumas das mais importantes fontes de sua vaidade. T 2.1.9.9.
Nesse caso, ao invés da relação de semelhança, é a relação de causalidade que estaria fazendo a transição da ideia do parente para a ideia do eu. Cumpre ressaltar que, na filosofia do Tratado, é a relação de causalidade que existe entre a ideia de uma pessoa e a ideia de um parente consangüíneo a essa pessoa, conforme Hume já havia mencionado no Livro T 1, ao dizer que “Primos de quarto grau são conectados pela causalidade (se me permitem empregar esse termo), mas não de modo tão estreito quanto irmãos, e menos ainda que uma criança e seus pais.”. T 1.1.4.3.
Hume apresenta, ao longo da Seção T 2.1.9, outros exemplos de causas de orgulho que têm uma relação mais distante com o eu do que a beleza do corpo e a virtude de caráter desse eu. Uma delas é a beleza ou notoriedade do país ou da região a que o eu pertence, além das características agradáveis ligadas à amenidade do clima, à excelência dos produtos ali produzidos e à fertilidade dos solos:
Os homens vangloriam-se da beleza de seu país, de seu condado, de sua paróquia. Aqui a ideia de beleza produz claramente um prazer. Esse prazer está relacionado ao orgulho. O objeto ou causa desse prazer está, por hipótese, relacionado ao eu, ou seja, ao objeto do orgulho. Por essa dupla relação, de impressões e de ideias, realiza-se uma transição entre uma impressão e outra. Os homens também se vangloriam da amenidade do clima em que nasceram; da fertilidade de seu solo natal; da excelência dos vinhos, das frutas ou dos outros alimentos neles produzidos; da suavidade ou da força de sua língua materna, além de outras particularidades. Esses objetos se referem claramente aos prazeres dos sentidos, sendo originalmente agradáveis ao tato, ao paladar ou à audição. Como poderiam se tornar objetos de orgulho, a não ser por meio da transição acima explicada? T 2.1.9.6-7.
Hume menciona até mesmo aquelas pessoas que experimentam no peito um orgulho a partir da beleza, utilidade ou raridade de coisas que existem em um determinado país estrangeiro que já visitaram. O fato de eles já terem visitado esse país estabelece uma relação entre a ideia do país e a ideia do eu dessas pessoas. Trata-se de uma relação bastante tênue, mas, segundo Hume, já é suficiente para fazer despertar a paixão orgulho.
É interessante constatar que Hume tem sempre em mente os princípios de associação de ideias discutidos no Livro T 1 ao investigar, no Livro T 2, os fenômenos envolvidos com as paixões humanas. Ao tratar das vantagens e desvantagens externas enquanto causas de orgulho, Hume tece algumas considerações a respeito da influência dos princípios de associação de ideias. Depois de ter chegado a um exemplo bastante específico em que a semelhança atua na produção de orgulho em T 2.1.9.3, Hume conclui em T 2.1.9.4 que, em geral, a contigüidade ou a causalidade entre a ideia da coisa observada por mim e a ideia do meu eu são as relações que estão sempre presentes no surgimento do orgulho e são essenciais para esse fenômeno.
O que Hume argumenta em seguida, no Parágrafo T 2.1.9.4, é que a associação de ideias, apesar de necessária, não é suficiente para despertar uma paixão:
É evidente que a associação de ideias age de maneira tão silenciosa e imperceptível que quase não a sentimos, descobrindo-a antes por seus efeitos que por uma sensação [feeling] ou percepção imediata. Ela não produz nenhuma emoção, e não gera nenhuma nova impressão, de espécie alguma, apenas modificando aquelas ideias antes presentes na mente e que podem ser relembradas quando preciso. Desse raciocínio, bem como de uma experiência indubitável, podemos concluir que uma associação de ideias, embora necessária, não é suficiente para, sozinha, despertar uma paixão. T 2.1.9.4.
A associação não é suficiente para despertar uma paixão porque seria preciso, além de uma associação de ideias, uma associação de impressões. Hume, em seguida, no Parágrafo T 2.1.9.5, reconhece que a associação (ou relação) de ideias interfere na associação (ou relação) de impressões, pois uma alteração de grau na associação de ideias produz uma alteração proporcional na paixão:
Uma transição fácil de ideias que, por si só, não causa nenhuma emoção nunca poderia ser necessária, ou sequer útil às paixões, se não favorecesse a transição entre algumas impressões relacionadas. Isto para não mencionarmos o fato de que o mesmo objeto causa um grau maior ou menor de orgulho, proporcionalmente não só ao aumento ou diminuição de suas qualidades, mas também à distância ou à proximidade da relação – o que constitui uma clara evidência de que existe uma transição de afetos, juntamente com a relação de ideias, já que toda mudança na relação produz uma mudança proporcional na paixão. Assim, uma parte do sistema anterior, concernente à relação de ideias, é uma prova suficiente da outra parte, concernente à relação de impressões; e ela própria está fundada de maneira tão evidente na experiência que seria perda de tempo fornecer provas adicionais. T 2.1.9.5.
O que Hume parece querer fazer é reafirmar que seu sistema da dupla relação, de impressões e de ideias, é extremamente abrangente para dar conta das paixões e pode ser considerado ainda como uma prova de que os princípios da ciência da natureza humana de Hume que vigoravam entre as ideias, tal como descrito no Livro T 1, continuam aplicáveis no Livro T 2, e continuam explicando um considerável número de fenômenos quando pensados juntamente com mais alguns outros princípios.