Outro aspecto a ser ressaltado, conforme já explicitado na revisão, refere-se às taxas de urbanização. Tanto no país, no Estado de São Paulo, quanto nas bacias do PCJ ou mesmo do Piracicamirim, estas taxas têm se tornado cada vez maiores, gerando danos ambientais considerados inevitáveis, e são sempre justificadas pelo desejado crescimento econômico. Desta forma, nas áreas rurais vêm sobrando uma área e uma população cada vez mais reduzidas.
Normalmente as bacias urbanas são aquelas que já foram impermeabilizadas por calçamentos e construções, onde as áreas ciliares foram tomadas por avenidas e onde os próprios rios, muitas vezes, foram transformados em canais retilíneos de cimento. Não conservam, desta forma, nem os processos hidrológicos, defendido por um grupo, nem a biodiversidade focada por outros.
Parece haver, assim, uma contradição nas políticas públicas de conservação, pois, enquanto nada se faz para reduzir a expansão urbana - com seus problemas como lixões e aterros, lançamentos de esgotos in natura, para citar alguns - verifica-se um deslocamento, uma pressão pela conservação focada nas áreas rurais remanescentes. O meio rural, fica, então, como refém, como aquele que irá compensar as áreas e os hábitos urbanos por sua inevitável destruição ambiental.
Isto nos leva a pensar que a responsabilidade pela conservação e reparação ambiental anda sendo direcionada apenas a alguns segmentos sociais, no caso, dos rurais e, dentro dele, dos pequenos proprietários.
Malagodi (1999), além disso, questionou como e por que se atribuiu ao reflorestamento ciliar o papel prioritário da conservação dos recursos hídricos. Além disso, fez algumas perguntas que se dirigem diretamente a essa discussão: como se diagnosticou a crise dos recursos hídricos e se planejaram ações; como se trabalhou o conhecimento científico e as ações planejadas e por fim, como se implementaram modelos de reflorestamento para a realidade da microbacia estudada por ele. Ao final verificou que é necessário centrar esforços no aperfeiçoamento tanto da legislação
ambiental quanto agrícola, e que o plantio de árvores como esforço isolado não alcançará a desejada conservação dos recursos hídricos.
Desta forma, se faz necessário uma reflexão: não terá sido a mata ciliar a solução ambiental escolhida para salvar o modelo de desenvolvimento para o qual não se acha ou não se quer achar uma solução? Se todos se encontram igualmente mergulhados dentro de um mesmo sistema econômico, por que responsabilizar mais um proprietário de 20 ha ou 30 ha por algo que a cidade “enterra” e desperdiça? Por que exigir apenas de alguns um comportamento exemplar?
Pode-se ainda adicionar o fato de a maior parte dos representantes do segmento técnico-científico ser de origem urbana e normalmente de classe social média a alta. Assim, temos na legislação atualmente vigente assim como nos projetos por ela elaborados, valores provenientes deste imaginário (Cf. TUAN, 1980, p. 260-288). Ao lado da lei e da técnica e embasados pela ciência, este segmento “urbano-centrado” se sente legitimado para, através de relações assimétricas, impor ao mundo rural suas visões e princípios, baseados em relações de comando e controle.
Desta forma, aqui são citados alguns exemplos de posturas e visões de projetos com relação aos seus públicos. Malagodi (1999, p. 1-6) verificou em um projeto de restauração florestal em Capivari, aspectos como autoritarismo, improvisação, simplificação para praticidade, coerção e impacto financeiro como forma de se alcançar maior poder das propostas.
Taniguti (2006, p. 155-160), por sua vez, apontou dentro do Curso de Capacitação de Agentes Multiplicadores para o Programa de Educação “Semana da Água” a coexistência de visões conflitantes de educação ambiental traduzidas em ações que incentivavam, por um lado, transformações individuais e coletivas - partindo da reflexão de que o estado de degradação atual era resultado do atual modelo de desenvolvimento - ao mesmo tempo em que levavam à conservação de “estruturas político-culturais mantenedoras do atual modelo de desenvolvimento sócio-econômico” - quando incentivavam, por exemplo, o pagamento por serviços ambientais, reforçando a transformação dos elementos naturais em produtos.
Beduschi (2003), quando retrata as redes sociais para trabalhos de restauração florestal, ressalta a importância da qualidade das informações técnicas e a forma como
essas informações são repassadas e articuladas junto aos atores envolvidos na questão. Porém, em todos os eventos descritos, assim como nas categorizações apresentadas quanto às instituições e seus representantes ou participantes individuais, os pequenos produtores aparecem sempre mesclados com instituições técnicas e junto a empresas rurais, com uma representatividade bastante baixa e sempre na categoria de ouvintes. Ainda que se perceba uma preocupação e um grande avanço na forma de se conceber a restauração, os pequenos produtores e pequenos proprietários rurais são sempre aqueles que devem apenas aprender com o conhecimento proveniente do segmento técnico-científico.
Thomaziello e Santos (2003, p. 49-50) perceberam ainda, em um levantamento realizado em um loteamento em Campinas-SP, que existe preconceito, por parte do segmento técnico-científico, ao considerar populações das classes média e alta como conhecedoras das questões ambientais, o que faz direcionar todos os trabalhos de educação para a conservação a populações de baixa renda, por nelas se concentrar a idéia da “falta de conhecimento e a conseqüente produção de impactos difusos [...], difíceis de controlar”. As classes média e alta, segundo as autoras, têm conhecimentos superficiais e focados em poucas questões, levando a interpretações errôneas que não se traduzem necessariamente em atitudes e comportamentos voltados à conservação, já que muitos elementos naturais são apreciados mais por seus valores estéticos e visuais do que por seu valor ambiental.
O resultado aqui apontado se mostra o oposto ao encontrado por Alves (2006, p. 11,85,87), que levantou a percepção ambiental de assentados do Estado de São Paulo. O autor afirma que escolaridade e percepção ambiental são diretamente correlacionados e que normalmente baixa escolaridade é encontrada nas populações de baixa renda, como é o caso dos assentamentos. Alves (2006, p. 104) coloca ainda:
“Observa-se que conforme se aumenta a escolaridade, mais característica e uniforme vai ficando a percepção ambiental de forma que perfeitamente se distinguem as opiniões das pessoas com curso superior. [...] A proporção de assentados entrevistados que não concluíram o ensino básico perfazem 88,68% da população de assentados tomadores de decisão [...] Nesta proporção se encontram, principalmente, pessoas com idades mais avançadas, o que nos dá indícios de que a efetiva convivência no ambiente escolar e o conteúdo lecionado são mais efetivos que a experiência adquirida com a idade”.
É interessante notar, através desta citação, que está sendo avaliada e valorizada justamente a homogeneização do conhecimento e das idéias, desprezando-se a experiência dos mais velhos e responsáveis pelos lotes. Assim, a proposição desta correlação parece ser equivocada, já que escolaridade, idade ou renda, não necessariamente implicam em um aumento da percepção ambiental, como já afirmado pelas autoras citadas, e sim, a experiência e convivência destas pessoas com o meio onde vivem. O próprio autor, a princípio, relata que a maior parte dos assentados é de origem urbana e que não há, em boa parte destes locais, desde a implantação dos assentamentos, ambientes conservados com os quais estes assentados pudessem conviver e adquirir experiência.
É exatamente neste sentido que Padovezi (2005, p. 53-79,83-110) ressalta que na bacia do Campestre, os sitiantes mais velhos são aqueles que mais interagiram e vivenciaram a região, apresentando, portanto, um conhecimento mais abrangente e mais detalhado, ou seja, um maior conhecimento ecológico local. Destaca ainda que os indicadores apresentados pelos sitiantes para avaliação e monitoramento de áreas degradadas se mostraram equivalentes aos indicadores ecológicos utilizados atualmente pela academia.
Assim, como visto nas entrevistas e na revisão bibliográfica, os sitiantes de Saltinho, mas também os de Joanólis, de Capivari e de Porto Feliz (entrevistados por Brandão, Malagodi e Queda et al., respectivamente), por exemplo, se ressentem de ter que assumir o ônus desta conservação dentro de uma relação tão desigual em relação às pessoas da cidade.
É por isso que Loureiro incita a uma reflexão sobre projetos e intervenções, que mesmo quando se apresentam como abordagens inovadoras, acabam muitas vezes por retomar aspectos conservadores, já questionados há muito na área da educação. Assim, acabam por impor, através das já citadas relações assimétricas, a superioridade do saber científico sobre o popular e soluções técnicas desvinculadas das relações de poder e da política, como se fossem geradas fora da organização social que define as dimensões em que vivemos.