Cada vez com maior frequência se tem a preocupação de listar as competências, de objetivá-las e de avaliá-las; de julgar, separar, selecionar em função da ideia que se faz desta noção de competência – ou deste “estoque de competências” que teria então vocação para ser relativamente transparente, relacionado a uma pessoa (Schwartz, 2010b).
Para Schwartz (2010b), com a noção de competência, deve-se levar em consideração que uma definição daquilo que uma pessoa coloca em ação no trabalho não pode mais se relacionar ou se restringir ao posto de trabalho, com uma enunciação frequentemente muito sucinta daquilo que há para fazer naquele posto – uma herança do tempo do taylorismo. A noção de competências deve sugerir a abertura ampla acerca da investigação do que é requerido no trabalho, para compreender o que faz uma pessoa.
É diante dessa compreensão e levando-se em consideração o dia a dia de trabalho do profissional de GP / RH, que precisa enfrentar diariamente inúmeros eventos, que se pode visualizar a competência mobilizada por eles nas situações de trabalho. Competências essas que não se limitam a uma lista de características, mas que demonstram a mobilização das suas inteligências, criatividade e capacidade de reflexividade diante das suas trajetórias e formações profissionais, além da mobilização das competências técnicas, organizacionais, de inovação e relacionais, para que dessa forma esses profissionais
possam agir diante das diversas situações profissionais que se apresentam, exigindo deles soluções rápidas, nunca antes pensadas, pois a pergunta que as antecede foi formulada envolvendo uma gama de variados elementos de determinado contexto, e que por esse mesmo motivo, é impossível antecedê-la.
Diante disso, considerando as contribuições de Schwartz (2010b), que defende que as competências são antes de tudo um agir aqui e agora, será apresentado o conteúdo surgido durante a pesquisa que demonstra a competência em ação desses profissionais de GP / RH:
Por alguma falha operacional, faltou informar aos participantes que precisava levar calculadora, aconteceu isso, eu tava lá no dia do treinamento, (...), aí a gente fez uma ligação assim “Junte todas as calculadoras da empresa e mande para cá”, uma solução, não é a melhor, mas tem que ser rápido, porque geralmente todas as ações que a gente faz, envolve as pessoas (E2).
A partir do exemplo citado acima, pode-se visualizar na prática uma das definições de Zarifian (2001b) em que ele afirma que a competência é a faculdade de mobilizar redes de atores em torno das mesmas situações, fazendo com que esses compartilhem as implicações de suas ações, e fazê-los assumir áreas de corresponsabilidade.
Outra definição de Zarifian (2001b) diz que a competência é um entendimento prático de situações que se apoia em conhecimentos adquiridos e os transforma na medida em que aumenta a diversidade das situações, que também pode ser visualizado a partir do exemplo dado por este (a) participante:
Todas as vezes, quando eu cheguei aqui, que a gente começou a fazer o levantamento eu senti falta. Se chega no cliente tá faltando uma caixa, se chega num outro cliente (...) está faltando isso, está faltando aquilo. (...). Então quando puxa no sistema, a bipação aprova que essa caixa saiu, mas não chegou no cliente “Quem levou?”. Aí fica aquele estigma. Qual a providência que a gente vai tomar? Aí se joga a responsabilidade para cima do motorista, enfim. Então, nisso o que é que acontece? Gera uma insatisfação, propriamente dita, que o setor de logística por si só ele não tem como resolver. O RH ele tem que entrar junto. Aí o que foi que eu fiz, eu entro no setor de logística. (...). Como qualquer outro empresário, a gente tem que evitar que tenha perdas, e como qualquer indústria, perda tem que ser zero. É a mesma coisa em qualquer lugar. Então o que é que a gente faz hoje? Todos os produtos que a gente percebe que está muito próximo do prazo, que podem normalmente estar numa prateleira, num local de venda, o que é que a gente faz? A gente tira esse produto, eu faço as cestas e forneço para todos os funcionários da empresa, inclusive para mim mesma. E todo mundo tem acesso a isso. E o que é que está acontecendo? Está começando a diminuir as faltas (E10).
A fala acima demonstra como o (a) participante, a partir da sua experiência advinda da área de indústria em que as “perdas precisavam ser zero”, transformou o seu conhecimento em prol da situação adversa que ele (a) precisava solucionar. É importante ressaltar que nesse caso, verifica-se não apenas a transformação desse conhecimento, mas também, de forma não menos importante, a sensibilidade desse profissional de GP / RH em reconhecer que os colaboradores envolvidos nessa situação, embora tivessem acesso diariamente a esses produtos, não tinham condições de comprá-los com o salário deles. Diante disso, esse profissional age em nome da empresa, oferecendo a cada funcionário
uma cesta com os seus produtos, com o intuito de passar a mensagem de que a empresa reconhece a importância dos seus colaboradores:
Eu acho que a coisa mais frustrante que tem é você tá com um produto da “X” e que quando chega no supermercado, ele tem um custo, e às vezes esse custo, você com 1 real consegue comprar um produto Y, mas com 1 real muitas vezes você não consegue comprar um produto da “X”. E aí você chega em casa com um produto da “X” e tal. “Quem me deu foi a empresa, a minha empresa. Eu trabalho na empresa “X” (E10).
Outra definição de Zarifian (2003) sobre competência é que ela é a tomada de iniciativa e o assumir de responsabilidade do indivíduo sobre problemas e eventos que ele enfrenta em situações profissionais, o que pode ser facilmente visualizado no seguinte exemplo:
Outra vez aconteceu que a gente tava realizando um treinamento, faltou prancheta, aliás não é que faltou prancheta, é porque as pessoas não sabiam que na sala onde ia ocorrer o evento não tinha mesa, aí isso era dias antes do evento, aí eu disse, compre prancheta suficiente para cada participante, compre daquela baratinha mesmo, mas compre, e manda aqui pra central e aí a gente desembolsa (E2).
É desafiador falar sobre competências sem incorrer no erro de fazer exatamente aquilo que tanto se critica: limitá-las a um saber fazer ou a um saber ser relacionados a determinado posto de trabalho. Para Schwartz (2010b), apesar da dificuldade existente em se apropriar de maneira realmente operacional do conceito de competência, é legítimo
examinar a questão das competências, porque nenhuma atividade humana pode deixar de lado a possibilidade de as pessoas engajadas numa operação responderem positivamente e operarem com eficácia tendo em vista o objetivo comum, em uma situação mercantil ou não. Ninguém pode escapar a esta questão, mas é preciso imediatamente avaliar a que ponto vai ser difícil dar um sentido operacional a ela.