Tornar-se protagonista de sua ação autoral diz respeito à essência de ser autor- empreendedor, de agir sobre o mundo de maneira proativas, colocando-se à frente de projetos pessoais e profissionais, buscando interferir na realidade em que está situado. Um processo infundido em ações coletivas e institucionais que levam à valorização dos esforços e dedicação.
O processo autoral passa pelo reforço institucional que fomenta o protagonismo e a autoria de sua história. Ao se envolver em instituições ou projetos sociais, o futuro autor- empreendedor incorpora valores e atitudes dispostoss pela organização. Porém, essa incorporação não é algo passivo de se acontecer. A predisposição em participar de algo é inerente ao indivíduo que se identifica pessoalmente com tal projeto.
Com isso, ninguém se torna autor de sua ação de maneira atomística, mas estando em relacionamento com um ambiente capaz de fornecer mecanismos para tal. Incorporado na narrativa do autor-empreendedor, o escotismo é descrito como uma escola que transmite para os jovens escoteiros a lição de assumir riscos calculados, sair do status quo, ser o protagonista ou autor de sua história e de contribuir para o desenvolvimento de outras pessoas: “Eu devo muito ao escotismo. Porque o escotismo tem muito disso, de você se aventurar, de você se arriscar, de você ser protagonista de você mesmo, da sua vida, entendeu? De você além de se ajudar, ajudar os outros” (E15).
Ao entender que o desenvolvimento da autoria empreendedora se dá de maneira dialogada, interativa entre o futuro autor e as demais instituições pertencentes a uma comunidade, é possível assumir a compreensão de níveis de agência e escolha exercitados pelos indivíduos na tentativa de se envolver ou influenciar o mundo, como também apresentado por Tatli et al. (2014). Assim, ao participar de uma instituição social o indivíduo vai absorvendo valores e significados que a mesma se propõe a exercitar.
Essas instituições ou organizações podem servir como instrumento de libertação do potencial de um jovem autor-empreendedor em busca de realização, algo que foi corroborado pelo incentivo vindo da mãe: “Cara, eu acho que os escoteiros foi uma certa libertação. Vendo de hoje. Porque o seguinte, como minha mãe deixava a gente sempre muito esperançoso, sempre tão motivado das possibilidades que a gente era capaz de conseguir...” (E45).
O movimento escoteiro ganha espaço considerável dentro da narrativa do entrevistado principal deste trabalho, pois foi onde determinados atributos de liderança e de relacionamento começaram a aflorar. Expresso na narrativa do antigo chefe dos escoteiros, o autor-empreendedor desde a juventude já mostrava sinais de protagonismo. É importante compreender o desenvolvimento autoral de maneira holística - ao unir diversos trechos destacados nesta seção, como E45, E15 e E53 – vinculando o indivíduo à história, ao social, à cultura local, além de ser vivencial/experiencial: “E ele como lobinho era o primo da matilha. A matilha de lobos era seis membros. E o primo era o quê coordenava a matilha. E ele era o primo da matilha” (Mce3).
As instituições podem ser instrumentos de construção de uma cultura de esforço e dedicação, da meritocracia. A fama do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica), construída por diversas pessoas e fatos, chamou a atenção de diversos jovens, que a classificavam como um dos melhores colégios da época. A prova do CEFET (atual IFPB – Instituto Federal da Paraíba) também mostra como o autor-empreedendor buscava se destacar e estar entre os melhores, estar em público e se sentir realizado:
“Aí quando foi no Diocesano (colégio de ensino médio da cidade) que eu vi que eu estava no mesmo nível que o pessoal das particulares. eu consegui um jeito de fazer a seletiva do CEFET, que assim, os mais inteligente da cidade tinham que estudar lá. Porque saía no rádio, colocavam na porta do rádio, tinha uma lista que eram as pessoas que estavam lá, que tinham passado no teste. Todo mundo só era realizado se fosse para esse negócio. Aí eu encontrei uma maneira de me qualificar e de fazer a prova e de entrar no segundo ano” (E82).
O relacionamento entre agente e estrutura e o seu reforço ou transformação acontecem de maneira relacional (TATLI et al., 2014). Assim, ao se envolverem, instituições e a autoria empreendedora vão sendo co-construídas pelos movimentos intrínsecos das mesmas. Ao adentrar no movimento escoteiro e no CEFET, o autor-empreendedor pôde, por iniciativa própria, escolher sobre que atividade do meio participar e, em um movimento oposto, essas instituições, juntamente com outros agentes que nela participam, iriam moldando a sua autoria.
A família também ocupa papel nessa construção, pois percebe-se certa capacidade de inspiração transmitida de geração para geração na busca por realização de feitos. Isso pode ser evidenciado pelo fato de o autor-empreendedor ter recordado esse momento. Assim, a autoria empreendedora pode ser incentivada por meio da narrativa dos feitos de pessoas próximas ou de histórias de pessoas de referência, uma forma de inspiração que acontece por meio da descendência familiar:
“Minha mãe sempre gostou dessa história de idolatrar, criar ídolos. Não de idolatrar, mas de criar ídolos. Não confundir com religião, mas ela criava ídolos, sabe? Para nós sempre o nosso avô era nosso ídolo. O pai dela. E ela sempre gostava de contar histórias de pessoas que tinham feitos. Meu avô tinha muitos feitos. Gostava muito de contar essas histórias. De um tio meu que tinha essas coisas. E ela falava que meu avô é uma pessoa muito boa, que a gente tinha que seguir os passos dele. Ela sempre gostou dessa história de ter uma referência. Meu avô sempre foi referência. Uma pessoa muito boa, que as pessoas gostavam dele. Uma pessoa muito trabalhadora. E ela sempre falava que quando as pessoas trabalhavam muito que conseguiam sair do sítio. Ela ficava falando isso para a gente” (E26).
O desenvolvimento da autoria empreendedora também passa pela convivência com pessoas de referência na realização de atividades. Na narrativa do autor-empreendedor o pai é tido como referência de trabalho e de honestidade:
“Meu pai sempre foi uma pessoa que trabalhou muito, sabe? Muito, muito mesmo. Trabalhou bastante. Uma pessoa referência mesmo de trabalho era ele. Nunca reclamou de nada. E ele é tipo daquela pessoa honesta, sabe? Bem demais (...) Ele gosta muito de trabalhar. Ele não visualiza nem tanto dinheiro para você ver. Ele gosta de fazer a atividade mesmo” (E28).
Já a mãe é tida como uma referência em criatividade e em ‘combinatividade’ (habilidade de combinar e criar). O entrevistado principal usa a metáfora de MacGyver – personagem de uma série de televisão americana que era considerado versátil na criação de explosivos e de armamentos militares - para a explicitação dessas características. Assim, os pais, de alguma forma, constituem a base do desenvolvimento autoral de um indivíduo quando as suas características relacionadas à criação e desenvolvimento de algo são percebidas como importantes:
“Minha mãe sempre foi a referência da pessoa mais criativa. Disputava com a minha tia. Pensando bem se eu juntar as características dos dois eu me vejo nisso, com um pouco delas. Porque minha mãe sempre dá um jeito em tudo. Rapaz, pensando bem, acho que sim, porque minha mãe consegue encontrar um jeito. Ela é tipo um MacGyver (...) Agora, minha mãe, ela consegue combinar as coisas. Ela tem uma certa combinatividade. Não sei se essa palavra existe. Eu sei que ela consegue pegar uma coisa com a outra e juntar essas coisas. Ela tem muita força de vontade sabe. Muda muito” (E29).
Ao se perceber os pais do entrevistado principal como referência em trabalho e criatividade (duas características da ação empreendedora) e o impacto das histórias de pessoas “que tinham feitos”, percebe-se a autoria-empreendedora como sendo uma atividade criada dialogicamente entre as pessoas em suas conversações diárias, ao contrário da formação subjetiva (na mente das pessoas) e estrutural (externamente por instituições) (CUNLIFFE, 2001). Assim, os significados da ação empreendedora, da autoria e capacidade de agência vão sendo co-construídos pela convivência diária na comunidade e, principalmente enraizada pelos laços familiares, pois são esses vínculos que inicialmente tornam esse indivíduo ligado à
comunidade. Interessante notar que esses significados são tomados por consciência tempos depois das experiências vivenciadas por meio da reflexão, talvez provocada pela pesquisa narrativa.
A autoria empreendedora, embora concebendo o seu desenvolvimento e a sua caracterização como sendo uma construção coletiva, tem muito da agência do indivíduo em construir uma imagem ou buscar a realização de coisas, algumas vezes, talvez, sem esperar a disposição de outras pessoas. Isso pode ser evidenciado no apreço pelo protagonismo ainda na infância do autor-empreendedor, no movimento escoteiro:
“Eu mesmo criei a minha própria turma. Eu não queria ser o subchefe. Eu queria ser o chefe. Então, eu criei uma maneira de ser chefe também. Eu tive um bom desempenho como chefe, pois eu tirei em segundo lugar no acampamento nacional em todo o Brasil, em todos os grupos de escoteiros do Brasil” (E50). “Eu sempre queria assumir o protagonismo do negócio para o negócio dá certo, entendeu? (...) Eu só vivia nas Casas dos caras para entender o que estava faltando, Para saber se tinha alguma coisa errada com um grupo” (E54).
O protagonismo autoral do empreendedor alcança seu ápice quando o mesmo assume a responsabilidade pelo desenvolvimento do meio, passando a exercer agência ao buscar modificá-lo a partir de um empreendimento. Na narrativa a seguir, percebe-se que a responsabilidade (ou culpa) pelo subdesenvolvimento de uma localidade ou mesmo de um indivíduo, sai do meio-estrutura e passa para o agente-empreendedor que, quando enraizado, percebe a sua importância quanto tal indivíduo:
“Agora assim, eu acho que a falta de opção em cajazeiras pesou muito na minha decisão, por que eu tive que ir embora da cidade e achava que o problema era a cidade. Por que quando eu cheguei em um grande centro, percebi que o problema era eu, por isso que eu voltei para cá. E aí quando eu cheguei aqui: ‘pô, cara, gosto tanto daqui. É um lugar que eu gosto. Por que não fazer esse negócio crescer’, entendeu? Já que o problema não é a cidade. É a oportunidade que não tem, poucas pessoas qualificadas e tal” (E73).
A autoria é concebida por caracterizar os atos de um autor pela construção de espaços organizacionais ou sociais, bem como o sentido de sua identidade e, o que mais caracteriza esse agente como tal é o movimento de criação de novas possibilidades para a ação, novas formas de ser e de se relacionar (CUNLIFFE, 2001). Assim, protagonismo e responsabilidade pelo desenvolvimento do meio são elementos autorais intimamente relacionados, pois o autor-empreendedor extrapola as fronteiras comerciais e passa a buscar mudança social.
Assim, o protagonismo vincula-se à autoria empreendedora no que se refere à proatividade do autor em se colocar à frente das situações. Seu processo de desenvolvimento é
fortemente alimentado pelas características pessoais do indivíduo, seu envolvimento com determinados grupos e instituições com valores fincados no esforço e dedicação na realização de atividades, nas narrativas de pessoas que tenham ‘feitos’, nome dado para as realizações socialmente reconhecidas e admiradas, e nos incentivos da família.
Aqui, a família ganha destaque no que se refere à sua estrutura com valores fortes e presentes no cotidiano, capaz de gerar no autor disposição para sua autorrealização, bem como responsabilidade, honestidade, apoio emocional e material, vontade de aprender e de “vencer na vida”. Não só a família de origem interfere na autoria, mas também a família gerada pelo casamento, pois pode gerar no indivíduo responsabilidades pelos entes queridos. A próxima e última subseção destaca o desenvolvimento da identidade autoral.