3. THEORY
3.1 S OLOW GROWTH MODEL
Para responder sobre o que as crianças acreditam fazer parte dos acervos dos museus, fiz a décima primeira pergunta: “O que encontramos dentro do museu?”. Essa pergunta revelou, além do conhecimento e imaginário das crianças sobre os acervos dos museus, até algumas respostas que falavam sobre outras coisas que podemos encontrar dentro desses espaços, como veremos a seguir.
Entre as 95 crianças que participaram da pesquisa, 88 crianças deram respostas referentes ao acervo, 4 crianças não responderam esta questão, uma criança relatou a
presença de pessoas (profissionais), uma de eventos (exposições), e uma criança citou elementos de infra-estrutura (bancos para sentar). Uma outra criança deu uma resposta que classifiquei como “outros” pela dificuldade de classificação. Ela disse que dentro do museu encontramos “História”. Não é possível saber se está se referindo à área do conhecimento e ao acervo através dos já tão falados objetos antigos, ou se fala de narrações, contação de histórias, que também foram citadas por outra criança. Uma das crianças deu uma resposta que abordou dois pontos de vista, por isso a soma das respostas é de 96 e não 95 crianças.
Mais uma vez, 38 crianças citaram coisas antigas ou do passado, reforçando o que já foi dito. 28 crianças citaram objetos de arte, a arte em si e seus derivados. É a primeira vez que a arte aparece com esta expressividade nas respostas das crianças. Esse tema foi predominante na escola Waldorf (10 de 17 respostas), bem mais fraca na escola tradicional (4 de 28) e intermediária nas duas escolas públicas. Pensando que essas crianças do Colégio Micael desenvolvem em seu cotidiano escolar diversas atividades de artes plásticas e musicais fica claro o porquê desse tema ter se destacado nessa escola.
O resultado obtido também pode indicar que quanto maior a familiaridade com a arte e menor a escolarização da visita ao museu (essas crianças nunca foram ao museu com a escola), é mais provável que as crianças o relacionem à Arte. Lembremos que o conteúdo do museu foi ligado predominantemente à Arte pelos alunos desta escola, apesar de não serem artísticos a maioria dos museus citados por eles.
Ao contrário, as respostas que citam coisas antigas apareceram predominantemente na escola tradicional (com 18 de 28 respostas), nos lembrando da experiência que esta teve ao levar os alunos ao Museu Paulista, uma experiência escolarizada do museu. Esse tema foi bem mais raro na escola Waldorf (apenas 4 de 17 alunos) e intermediária nas duas escolas públicas.
A EMEF Dutra foi a escola que apresentou as respostas mais diversificadas. São dessas crianças as citações de: Animais (ou seus ossos) com 4 respostas; Dinossauros com mais 4 respostas; Narradores contando histórias, e ônibus com mais uma resposta cada. Essas referências, no caso da EMEF Dutra podem ser facilmente explicadas pelo conhecimento que algumas crianças mostraram ter a respeito do Museu de Zoologia da USP, e pelo exemplo do Museu do Ônibus, também citado nessa turma.
Uma das crianças do Colégio Micael falou que no museu nós podemos encontrar coisas malucas, outra que nós podemos encontrar invenções. Estas são expressões que retratam a experiência destas crianças com museus e exposições de ciências naturais como vemos nas falas abaixo:
M16 – No museu tem quadros importantes, tem estátuas, tem algumas
cosias que são meio malucas e você coloca a mão e levanta o cabelo... Tem um monte de coisa legal no museu
M18 –Também no museu, tem museu que pode ter além de quadros
famosos, e coisas da ciências e coisas que já inventaram e coisas que estão inventando.
Embora as respostas “dinossauros” só tenham aparecido no jogo de perguntas com os alunos da EMEF Dutra, esse assunto foi recorrente nas rodas de conversa e desenhos em todas as escolas. Já falamos sobre as possíveis referências sobre a relação dos museus com esses animais ao falar dos intermediadores entre a criança e o museu. Agora, para ilustrar um pouco o fascínio das crianças por esses animais, transcrevo algumas de suas falas:
M16 – Um dia, eu era assim um pouco menor, eu fui num museu que tava
falando dos dinossauros. Tinha uma espécie de dinossauro feita com os ossos assim, e entrava num túnel e tinha os filmes de como eles morreram e essas coisas assim.
S02 – Anh... o museu é bem (...) e tem muitas coisas antigas: esqueletos,
fósseis, e bichos que só existiam na pré-história e um monte de coisa.
P – E o que vocês esperam encontrar dentro do museu?
S04 – Ossos de dinossauro! Eu gostaria de encontrar muitos ossos de
dinossauros
S05 – Aqueles negócios de dinossauro, aqueles ossos montados P – E o que é legal?
B36 – Você ver uma coisa interessante que eu quero aprender só e... os
dinossauros!
P – E o que você espera encontrar no museu? D19 – Eu queria ver dinossauros muito gigantes D24 – Eu gosto de museus de dinossauros
[O que encontramos dentro do museu? – Jogo de Perguntas]
D23 - Animais, cadáveres de dinossauros e narradores contando histórias
9 crianças disseram encontrar no museu coisas interessantes, sem especificar quais. Dessas, 4 são da EMEF Dutra, 3 do Colégio Beatíssima e apenas uma de cada uma das outras duas escolas. 6 crianças falaram em várias coisas, objetos, também sem especificar. Isto aconteceu também nas quatro escolas.
Além da clara tendência em relacionar o museu ao passado e ao colecionismo de maneira geral, vale a pena citar as respostas diferentes dessas. Alguns exemplos dados pelas crianças são claramente provenientes de suas experiências no museu, em especial o Museu Paulista da USP. Tanto nas falas quanto nos desenhos aparecem objetos como pratos, vasos e roupas. Nos desenhos aparecem também muitas armas, referência específica a esse tipo de coleção. Outros exemplos trazem o nome de outros museus visitados como “Histórias de futebol” ligado ao Museu do Futebol, “coisas malucas”
identificado posteriormente como experiência ligada à Estação Ciência ou Catavento; e “ônibus” como exemplo de acervo do “Museu do Ônibus”.
É interessante notar que pelo menos 2 crianças em escolas diferentes (Colégio Micael e EE Artur Sabóia) comentaram que o museu também tem coisas novas, e até coisas que ainda não foram inventadas, como vemos nas falas abaixo. Estarão essas crianças se referindo às Feiras de Novidades Tecnológicas? Ou esta é apenas mais uma referência aos museus de ciência?
M18 –Também no museu, tem museu que pode ter além de quadros
famosos, e coisas da ciências e coisas que já inventaram e coisas que estão inventando.
P – E vocês acham que no museu só tem coisa antiga?
S02 – Não, tem muitas coisas novas, que ainda vão lançar. Que já
inventaram só que ainda não construíram para todas as pessoas.
Para completar esta parte sobre os acervos, e também sobre como é o museu para a criança, pensemos nos desenhos que elas fizeram. Como nem todas as crianças os entregaram, temos um total de 87 desenhos, entre as quatro escolas. Destes, 45 representam o museu visto pelo lado de fora e 33 pelo lado de dentro, 6 crianças representaram ambos os pontos de vista e, em 3 dos desenhos, isto não pôde ser definido.
Em 13 desenhos, as edificações externa ou internamente foram representadas com elementos de ornamentação como: colunas, escadarias, gárgulas, volutas, lustres, bandeiras e bandeirolas. Esses elementos apareceram principalmente nos desenhos dos alunos do Colégio Beatíssima, com 7 desenhos representando, cada um, vários desses elementos. Nas escolas públicas, o número de desenhos com elementos de ornamentação foi menor e no Colégio Micael esses elementos não apareceram.
Das 48 crianças que representaram o museu externamente, podemos notar que o estilo de construção varia bastante. Apareceram 8 desenhos que fazem referência a castelos, 3 que apresentam elementos da estética neoclássica, 9 crianças representaram o museu como uma casa ou um prédio simples, 7 crianças usaram linhas retas e formas simplificadas (quadrados, retângulos, com poucos elementos), 6 crianças utilizaram formas diferenciadas dando um caráter mais “moderno” à construção e os outros quinze desenhos não puderam ser classificados em categorias específicas. Destes quarenta e oito desenhos que representam o museu externamente ainda podemos notar que 30 representam a porta do museu fechada, 7 a representam aberta e em 11 desenhos não há porta ou a sua condição não é identificável.
19 crianças indicaram em seus desenhos elementos de expografia e comunicação como legendas, placas informativas, agrupamento de objetos semelhantes, prateleiras e
vitrines. Esses números aparecem mais nas duas escolas particulares e os mesmos desenhos apresentam mais detalhes desses assuntos nessas que nas escolas públicas.
4 crianças representaram em seus desenhos faixas de segurança nas exposições. Dessas, 3 são do Colégio Micael e somente uma criança é do Colégio Beatíssima. No Colégio Beatíssima uma das crianças representou uma catraca e na EMEF Dutra três desenhos representaram os museus com grades. Na EE Artur Sabóia nenhuma criança representou elementos de segurança em seu desenho.
Quanto aos objetos que aparecem dentro do museu os mais comuns são os quadros, em 20 desenhos. Percebemos por estes que as crianças identificam esses objetos tanto no contexto artístico quanto no contexto histórico. Referências à obra “Independência ou Morte” de Pedro Américo, são encontradas em vários desenhos. 9 desenhos mostram dinossauros e 8 representam estátuas ou esculturas. Esta última categoria está concentrada na escola Waldorf, com 7 desenhos, já as duas anteriores estão bem distribuídas nas quatro escolas. 5 desenhos representam armas, 4 representam veículos e outros 4 representam, muitas vezes no lugar no próprio museu, um monumento, possivelmente relacionado pelo Monumento à Independência. Apareceram ainda nos desenhos: animais, múmias, brinquedos, cartas, ferros de passar, objetos indígenas, ferramentas, armaduras, roupas, criaturas fantásticas, osso de padre, cruz, jóias, entre outros.
Para visualizar melhor o que as crianças esperam encontrar dentro dos museus acompanhemos nos gráficos abaixo os respectivos percentuais das respostas. O primeiro é referente às respostas escritas e o segundo aos elementos constantes nos desenhos:
Gráfico 12 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 40% 29,47% 9,47% 6,31% 4,21% 4,21% 2,10% 1,05% 9,47% 4,21%
O que encontramos no museu
Respostas escritas
Gráfico 5
Respostas escritas % Quant.
Coisas antigas, etc. 40% 38
Arte 29,47% 28
Coisas interessantes 9,47% 9 Objetos, peças, etc 6,31% 6
Dinossauros 4,21% 4
Animais 4,21% 4
Coisas raras ou valiosas 2,10% 2
Exposições 1,05% 1 Outros 9,47% 9 Não Respondeu 4,21% 4 Desenhos % Quant. Quadros 21,05% 20 Estátuas 8,42% 8 Dinossauros 9,47% 9 Armas 5,26% 5 Veículos 4,21% 4 Monumentos 4,21% 4 Múmias 3,15% 3 Cartas 3,15% 3 Brinquedos 3,15% 3 Outros 27,36% 26
Não entregaram o desenho 8,42% 8
Por meio dos gráficos conseguimos ter uma visão mais abrangente do que a criança espera encontrar nos museus. Nas respostas escritas ficaram mais evidentes noções de valor e classificação dos objetos, desta forma as crianças falaram destes como antigos, interessantes, raros e valiosos, além de reforçar a noção de quantidade e coleção ao citar apenas expressões como “muitas coisas”, “várias peças”, “objetos” e etc. Também aparecem nas respostas escritas exemplos de objetos concretos como quadros, esculturas, obras de arte, dinossauros mas, com exceção dos objetos artísticos, os outros aparecem em
0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 21,05% 8,42% 9,47% 5,26% 4,21% 4,21% 3,15% 3,15% 3,15% 27,36% 8,42%
menor quantidade em relação àqueles aos quais foi atribuído algum tipo de juízo, classificação ou valor.
Já nos desenhos, esses objetos, que as crianças podem julgar interessantes, valiosos, legais ou antigos, aparecem de forma mais concreta, sem a demonstração (exceto pela própria escolha do assunto a ser desenhado) do interesse da criança. É aí que podemos ver que aqueles objetos a que se referem nas respostas escritas e faladas devem ser, afinal, quadros, estátuas e esculturas, dinossauros, armas, cartas, veículos, brinquedos, múmias e etc.
A variedade das respostas das crianças ao falar (desenhar) sobre o objeto concreto demonstra que ela abarca de alguma forma em sua referência de museu tanto os museus de História, quanto os de Arte, os de Ciências Naturais, Tecnológicos e etc. A barra maior no segundo gráfico, representando “outras respostas”, registra esta variedade e percebemos então que a criança tem uma visão bastante abrangente do que pode constituir os acervos de museu.
Por fim, tendo como base todos esses exemplos, podemos tentar reconstruir o que é o museu para a maioria dessas crianças: O museu é um lugar em que a maioria delas gosta de estar, que reúne muitos objetos diferentes, boa parte deles ligado ao passado e onde elas podem ver esses objetos e aprender sobre eles. O museu é um local onde se pode aprender, mas também se divertir. Serve para as pessoas e às pessoas, para que possam ver, conhecer, descobrir, aprender, fazer projetos e passar momentos de lazer. Além das coisas antigas as crianças também esperam encontrar no museu algumas coisas novas, coisas diferentes e curiosas. Na minha interpretação de suas falas, as crianças esperam que o museu, com seus acervos ligados ao passado ou ao futuro, as surpreendam.
Figura 16
Figura 17