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Não há dúvida de que os mecanismos de socialização inventados na modernidade contribuíram de forma cabal para as representações do que hoje chamados de infância e de adolescência ou juventude. Não apenas as instituições familiares burguesas, privada da vida da grande comunidade, como a progressiva escolarização sistematizada na qual intervém o Estado, foram circunscrevendo a infância e a juventude em seu restrito território atual.

Para além disso, há pouco consenso na diversidade de modelos teóricos que falam sobre

43 O Aprendiz é um reality show produzido pela Rede Record e que usa o mesmo formato do programa

estadunidense chamado The Apprentice, que é apresentado pelo empresário Donald Trump. Depois de cinco edições em que alguns profissionais formados concorrem a um contrato em uma grande empresa, o programa passou a mostrar universitários concorrendo a vagas de estágio. Nessa sexta edição, a jovem Marina Vasques de Oliveira Erthal ganhou um milhão de reais e um cargo de trainee na Young & Rubicam ao derrotar Karina Ribeiro no episódio final.

a produção da identidade e do sentimento de adolescência ou de juventude quanto a quais fatores são cruciais em sua definição e para sua compreensão. Uma ou outra instituição aparece privilegiada em cada discurso, seja família, escola, o Estado moderno, o trabalho, os domínios do corpo ou incorporais, os processos “subjetivos” ou sociais. Isso não quer dizer que todas as teorias estejam equivocas. Pelo contrário, todas elas acertam sempre, em certa medida. Cada modelo de juventude, porém, parece carregado de substancialização e se equivoca apenas quando procura estender certos conceitos abstratos a agenciamentos que não suportam a importação de uma forma previamente estabelecida.

Diante de perspectivas tão contraditórias, portanto, torna-se fundamental a qualquer estudo sobre a juventude e a adolescência estabelecer um diálogo que atravesse alguns dos principais pontos de cada uma delas. Corre-se, porém, o risco de formular más compreensões do sentido pretendido por autores de campos tão diversos ou de cometer simplificações que esvaziem de sentido dos argumentos formulados e dos desenhos traçados nessas teorias. Mas, principalmente, há o grandioso risco de se procurar uma nova teoria mais geral, capaz de abarcar todos os agenciamentos comportados pelas teorias anteriores.

Ora, não procuramos formular uma nova teoria que seja mais geral e mais capaz de sintetizar todos os agenciamentos dos diversos territórios existenciais adolescentes e juvenis. Pelo contrário, o que buscamos é a observância das especificidades dos agenciamentos concretos de cada cartografia em particular, de cada indivíduo, de cada grupo e de cada sociedade. Pensamos que os componentes dos territórios existenciais, como o adolescente se relaciona com a imagem do corpo e como o jovem se insere no campo social do trabalho, por exemplo, não se opõem um ao outro numa relação dicotômica, nem se engendra entre eles necessariamente uma relação dialética que levaria, invariavelmente, a uma síntese de suas contradições.

Antes, pensamos, baseados na obra de Guattari, que os vários territórios funcionam ao mesmo tempo e em paralelo, polifonicamente, e que, ao se selecionar uma ou outra voz que compõe essa polifonia, são traçados e retraçados modelos de juventude e de adolescência. Nesse estudo, portanto, buscamos evitar a extensão da validade do funcionamento de dado território existencial a outro. Evitamos propositalmente qualquer teoria geral, pois abordamos as juventudes e as adolescências como a polifonia de territórios existenciais diversificados. Nessa perspectiva, a natureza material do crescimento do corpo e das descargas de hormônios ou a natureza semiótica dos signos sociais do mercado e do trabalho apenas possuem relevância diante de seu redimensionado a agenciamentos concretos de processos de subjetivação (que podem estar presentes ou não, em cada cartografia).

A crise de identidade, tão relacionada à adolescência, não pode ser concebida, a partir do conceito de produção de subjetividade, senão como a quebra de uma “ilusão”, como o momento em que um ritornelo que territorializava a subjetividade encaminha-se a uma linha de fuga e se destrói, destituindo também os universos de referência que até então eram sustentados. Nesse sentido, como apontam Guattari e Rölnik (1999), há uma aproximação desta perspectiva com a que está presente no início da psicanálise freudiana, responsável pela derrocada da ilusão de uma completude da consciência individual – ao introduzir o conceito do inconsciente.

[...] se há algo de válido nos ensinamentos da psicanálise é, no mínimo, o fato de que ela tendeu a fazer explodir a legitimidade da noção de identidade. No início da psicanálise, essa problemática explodiu espetacularmente. Nas primeiras análises de Freud – sobretudo nos estudos sobre a histeria –, ele descobriu que, para aquém do discurso da identidade e do discurso do ego, modos de subjetivação podem se encarnar no corpo, em discursos de imagens, em discursos de relações sintomáticas, de relações sociais, etc. (p.67)

Não há uma verdade única por trás da ilusão de identidade que se desfaz; apenas a polifonia da subjetividade. Também, o inconsciente não é compreendido como marcas do passado, mas como os processos de uma alteridade subjetiva que produzem novos agenciamentos. O sujeito perde suas referências, mas a territorialização despedaçada nunca esteve no indivíduo, mas apenas nele se produzia em conexão com a coletividade. A desilusão da identidade não vem a estabelecer uma nova forma definitiva, mas, através do inconsciente maquínico, um novo produto, tão verdadeiro quanto o anterior. Desta ruptura, porém, não se pode esperar a ausência de novas referenciações, pois a subjetividade não cessa seu processo de produção. Isso não significa, necessariamente, que se embarque em um processo de singularização, mas significa tão somente que um ponto de singularização foi atingido. E este pode levar a uma nova relação de assujeitamento a um vetor de subjetividade dominante ou a um processo no qual a subjetividade grupal é capaz de veicular seu próprio universo de referência (GUATTARI e RÖLNIK, 1999).

Não podemos sustentar que o adolescente esteja propenso a tal crise, como aponta a teoria de Erikson (1968/1976). O que ocorre, mais precisamente, é que nele se individualiza um processo maquínico de produção da subjetividade (agenciamentos de fatores que serão abstraídos enquanto biológicos ou culturais, individuais ou sociais). Nesse processo, os territórios existenciais da infância se chocam com novos processos de territorialização da subjetividade, que ganham forma nos equipamentos de enunciação conhecidos como “adolescência” e “juventude”. Esse processo não está centrado aprioristicamente no

indivíduo, como defendem Aberastury e Knobel (1970/1981), nem na realidade social, como defende Bock (2004), mas é coletivo e, através de seus múltiplos agenciamentos, produz-se um sujeito adolescente ou jovem. Produz-se uma identidade ou uma crise, sem que pré-exista uma instância produtora dessa realidade e do indivíduo que a sofre. Nesse sentido, nossa compreensão difere até mesmo da que Ciampa (1984) defende, e a qual também compreende a identidade de forma extremamente processual, mas toma indivíduo e sociedade como formas já dadas e entre as quais se estabelece uma relação dialética.

O que complexifica ainda mais este agenciamento é que esse território existencial legitimado e teorizado enquanto uma condição de “transição” para os territórios adultos se choca ao mesmo tempo com processos de interdição e de idealização. São interditados intermitentemente os processos de subjetivação relativos ao mundo adulto (do trabalho, por exemplo), enquanto se idealiza a própria “transição”, ora como uma “fase” de liberdade e felicidade, ora como uma “fase” de conflito e crise. Este paradoxo dos processos de subjetivação hodiernos é ainda mais difícil de resolver quando a exigência de preparo para o mundo do trabalho torna-se interminável e quando o mundo do consumo é permitido e instigado mesmo na adolescência e na infância. Mas a grande solução de tais dilemas é que não há o que se resolver. Não há ambiguidade a ser eliminada. O que há é o próprio paradoxo. As territorializações da sexualidade, da família, do trabalho etc, por exemplo, não são únicos e não podem servir de modelos uns aos outros na cartografia da subjetividade.

Encontramos subsídios para pensar a diversidade de desenhos e de movimentos evocados por esses modos de subjetivação em Pais (2003), em Guattari (1988; 1992) e Guattari e Rölnik (1999), Kastrup (2000) e, enfim, em Deleuze e Guattari (1980). Em primeiro lugar, com Guattari (1988), temos um contraponto à afirmação de modelos ou padrões universais da adolescência. Poderíamos dizer que as pretensões universalistas não são incorretas por procurarem certas relações em comum nas experiências dos adolescentes – do contrário, nenhum trabalho teórico poderia ser feito. Elas se equivocam quando universalizam tal ou qual enunciado concreto – o que equivale a dizer um universal abstrato – e quando ignoram a presença dos agenciamentos concretos – que estão sempre fugindo a uma circunscrição.

A abstração só pode resultar de máquinas e de agenciamentos de enuciação concretos. E como não existe um enunciado geral superando o conjunto destas, a cada vez que encontramos um enunciado universal será necessário determinar a natureza particular do seu agenciamento enunciador e analisar a operação de poder que o conduz a pretender tal universalidade. (GUATTARI, 1988, p.12)

Ainda para Guattari (1992), a saída de tais reducionismos pede uma refundação da problemática da subjetividade como algo coletivo, polifônico, múltiplo, heterodoxo, maquínico e possivelmente parcial, isto é, composto por máquinas abstratas que se territorializam e desterritorializam constantamente. Convém, portanto, renunciar às pretensões universalistas das modelizações. Os conteúdos científicos das teorias que abordamos valem essencialmente por sua função existencializante, isto é, por sua função de produção de territórios existenciais. Assim, a atividade teórica deverá se reorientar para um reconhecimento de sua multiplicidade que seja capaz de abarcar a diversidade destes sistemas de modelização, o que não significa, porém, qualquer tentativa de sintetizá-los (GUATTARI, 1992, p.34).

Em Pais (2003), encontramos a operação de idéias em consonância com esse reconhecimento da multiplicidade. Temos, com esse autor, a desconstrução não apenas de uma “natureza” da juventude e da adolescência, mas também das categorias pelas quais a juventude tem sido pensada. Em muitos aspectos, a construção teórica deste sociólogo se aproxima daquela proposta por Bock (2004), na medida em que também compreende a juventude (e a adolescência) como uma construção social. Porém, Pais (2003) redimensiona de forma significativa o problema quando propõe a relativização das duas grandes categorias sociológicas com as quais se costuma analisar o problema: a geração e a classe social.

Por um lado, o autor critica a redução da juventude, a partir do conceito de geração, a uma fase da vida possuidora de determinada cultura que se oporia à cultura de outras gerações. Nem sequer a idéia de que os jovens se dividem em sub-culturas seria válida, uma vez que não haveria uma cultura juvenil una a partir da qual derivariam sub-culturas. Trata-se, para o autor, de generalizações abusivas do conceito de juventude. Por outro lado, critica a visão de que a juventude é determinada pela reprodução de gênero, de raça, de classe econômica etc, enfim, de determinadas classes sociais. A idéia de que a transição dos jovens estaria sempre pautada por desigualdades sociais nem sequer pode ser sustentada por dados objetivos, uma vez que, atualmente, encontramos uma intensa transição entre classes econômicas por parte dos jovens (com destaque para a proletarização do jovem burguês, por exemplo). A reprodução social não se dá de forma estritamente linear, nem as culturas juvenis seriam sempre o resultado das relações antagônicas entre classes sociais. Para o autor, portanto, não se deve reduzir os comportamentos mais exóticos dos jovens (como a estética punk, por exemplo) simplesmente a uma forma de resistir à ideologia da classe dominante.

Os processos sociais que afetam os jovens (e adolescentes) não podem, para o autor, ser compreendidos nem de forma unânime, nem como o simples resultado de determinações sociais e posicionamentos de classe etc. A compreensão desses processos deve incluir a participação em sistemas de interação locais, os percursos de mobilidade social e a imprevisibilidade dos fatos (PAIS, 2003, p.67). Por isso, afirma a necessidade de se considerar cada cultura juvenil singularmente, como sistemas de valores socialmente atribuídos à juventude e aos quais aderirão jovens de diversos meios e condições sociais. Para Pais (2003), assim, a juventude jamais poderia ser entendida de forma unitária, pois ela:

[...] deve ser olhada não apenas na sua aparente unidade mas também na sua diversidade. Não há, de facto, um conceito único de juventude que possa abranger os diferentes campos semânticos que lhe aparecem associados. A diferentes juventudes e a diferentes maneiras de olhar essas juventudes corresponderão, pois, necessariamente, diferentes teorias. (p.67)

Se transpusermos a teoria de Pais (2003) de uma perspectiva sociológica para uma perspectiva de produção de subjetividade, podemos encontrar as pistas necessárias para a multiplicidade que desejamos propor. Primeiro, devemos acrescentar aos argumentos desse autor, que a subjetividade juvenil e adolescente é duplamente descentrada. Ela não é absolutamente social, nem mesmo individual, pois sociedade e individualidade são apenas formas produzidas através dos agenciamentos da subjetividade.

Além disso, é preciso ampliar a noção de cultura, que se remete exclusivamente a sistemas de valores, até alcançarmos todo tipo de produção de sentidos, de afetos e de universos incorporais que encontramos nos territórios existenciais da adolescência e da juventude. Considerar tais territórios é considerar uma diversidade ou uma multiplicidade, como o definem Guattari e Deleuze (1995). Essa multiplicidade, porém, diferente do conceito formulado por Ciampa (1984), pois não encontra qualquer instância que a sintetize ou que a defina, nem mesmo uma unidade à qual se reduza. Não é o uno que se multiplica, mas sim a multiplicidade como instância fundadora.

Na verdade, não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo semântica será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n–1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n–1. (p.14-15)

Já em Kastrup (2000), encontramos uma alternativa às compreensões hegemônicas na psicologia do desenvolvimento. A concepção de uma maturação cuja temporalidade é progressiva, seqüencial e pré-fixada, bem como a existência de fases pré-definidas e possuidoras de formas específicas de compreender o mundo e a si é substituída, na análise desta autora, pela noção de uma temporalidade virtual. É certo que a autora está se referindo especificamente à cognição, mas acreditamos que estender esta compreensão a todo o modo

de ser é não apenas válido, mas se constitui em uma ferramenta preciosa à noção de

multiplicidade da adolescência e da juventude que pretendemos elaborar.

Ora, a psicologia do desenvolvimento, em suas diversas abordagens, costuma formular perguntas como: “o que falta para a criança chegar ao adulto?”. A resposta dessa pergunta equivale em muitos aspectos à pergunta “o que é a adolescência?”, quando essa é concebida como o caminho do desenvolvimento corporal e cognitivo em direção à maturidade. Essa concepção se depara, entretanto, com o fato de que, hoje, a adolescência dificilmente é entendida ou vivida apenas como uma “trajetória à vida adulta”, mas como um processo que assume formas próprias.

Porém, isso não significa que devamos naturalizar uma terceira forma, além do adulto e da criança, como algo que possui certas características, mas sim que devemos operar uma desconstrução contrária a essa naturalização: nenhuma dessas formas existe por si. Todas são produzidas por seus agenciamentos e por suas linhas força, seus vetores de subjetivação. Kastrup (2000) nos lembra que a criança apenas surge como um ser distinto e com características qualitativamente diferentes do adulto (e não apenas quantitativamente, como antes se concebia) por meio práticas concretas, principalmente as familiares e as educacionais – como explica cuidadosamente a obra de Ariès.

Toda psicologia do desenvolvimento, como vimos nos apontamentos de Jobim e Souza (1997) e de Castro (1992; 1996), e como encontramos na teoria de Erikson (1976), por exemplo, se pauta em coordenadas do tempo histórico. Nas concepções de Bergson (1990) apud Kastrup (2000), esta autora encontra uma concepção de tempo que, diferente do tempo cronológico, se apresenta como a coexistência de todos os tempos. Nessa concepção paradoxal, passado, presente e futuro não se sucedem um ao outro, mas coexistem

virtualmente. E esse conceito nos é extremamente útil, na medida em evita o pensamento, de

outro modo quase inexorável, de que a criança e o adolescente possuem formas de existir que vão sendo superadas por formas adultas mais desenvolvidas.

A idéia de uma evolução possui, como vemos, uma só direção e uma única trajetória. Pautada ainda nas concepções de Bergson, nos fala Kastrup (2000) que as formas as quais

encontramos possuem um princípio vital que as torna portadoras de um equilíbrio instável de

tendências. As transformações que percebemos ocorrem sob signo da divergência e da

diferenciação, quando um modo de existir se bifurca em duas tendências divergentes: uma tendência repetitiva e uma tendência inventiva, que, então, se misturam em novas formas atualizadas. A criança, portanto, seria portadora de uma virtualidade e nela prevaleceria uma tendência inventiva, pois engloba em si pessoas diversas que se mantêm assim indiferenciadas porque estão em estado nascente.

Nessa filosofia, que considera a coexistência dos tempos, segundo Kastrup (2000), o modo de ser infantil não é superado pelo modo de ser do adulto. E poderíamos acrescentar: nem pelo modo de ser adolescente, que também não é superado pelo modo de ser adulto. Reconhecer que a criança está mais próxima ao virtual significa reconhecer que o desenvolvimento leva a uma perda dessa virtualidade. Estamos constantemente realizando escolhas que implicam em deixarmos muitas coisas de lado. A forma de existir que vai se produzindo está, portanto, repleta de resíduos de tudo que começava a ser e de tudo que poderia ter sido.

Dessa forma, para Kastrup (2000) e com base em Bergson, haveria sempre “uma” criança no adulto (o que significa dizer que na subjetividade que se individualiza no adulto persistem vetores de subjetivação infantis, mesmo que em estado virtual). E podemos estender esse mesmo pensamento à adolescência e à juventude: seus territórios existenciais não funcionam por superação dos territórios existenciais da infância, nem estão isentos de uma incursão nos territórios da vida adulta e de uma alteridade subjetiva.

A partir das mesmas concepções de Bergson (apud Kastrup, 2000), os autores Deleuze e Guattari (1996) reconhecem a esse tempo virtual de coexistência de tempos que nos leva a uma realidade própria do devir. Essa noção de devir, como explica Kastrup (2000), não significa o mesmo que uma mudança histórica, pois o que caracteriza a história é o tempo cronológico, os acontecimentos sucessivos. O devir não equivale a uma transformação temporal que se concretiza no decurso do tempo histórico, mas a uma transformação

temporal que se dá no presente. E, assim, é uma designação do que há no contemporâneo e

que inclusive pode operar uma bifurcação em relação às formações históricas. Assim, Deleuze e Guattari (1996), falam de um devir-criança, que significa que uma subjetividade infantil:

[...] coexiste conosco numa zona de vizinhança ou num bloco de devir, numa linha de desterritorialização que nos arrasta a ambos – contrariamente à criança que fomos, da qual nos lembramos ou que fantasmamos, à criança molar da qual o adulto é o futuro. (p.92).

O devir, ainda segundo a explicação de Kastrup (2000), se forma por meio de desterritorializações e fuga das formas e não por um fechamentos progressivos de formas anteriores. Portanto, este conceito não se confunde com imitação, identificação, metamorfose, desenvolvimento ou mesmo produção. Um devir-criança não é imitar a criança ou se identificar com o mundo infantil. E, nesse mesmo sentido, podemos extrapolar as idéias desses autores para falar em um devir-jovem ou um devir-adolescente, que assombra ou inspira aos adultos e aos próprios jovens-adolescentes, que existe na subjetividade dos adultos como virtualidade e como resquícios de modos de ser que existem também na subjetividade das crianças como virtualidade.

Com tais ferramentas, podemos evitar a pretensão de se resolver os dilemas existentes entre as diversas posições epistemológicas – o que seria provavelmente impossível. E, assim, podemos simplesmente sugerir a transposição desses territórios existenciais de paradigmas cientificistas para um paradigma ético-estético, aquele da produção de subjetividades, na qual poderíamos compreender os agenciamentos tomados em sua interface e sem referências absolutas. Afinal, “o que precisamos nos indagar”, como afirmam Guattari e Rölnik (1999),

[...] é se vamos nos contentar em fazer explodir a noção de identidade para dentro – fazê-la implodir em direção à teoria dos “objetos parciais” –, ou se vamos tentar também fazer explodir para fora, em direção a coisas como os objetos transicionais de Winnicott, ou os objetos