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Vários autores (Thompson, 1995; Castells, 1996, Tabernero, 2008), ao considerarem os processos comunicativos contemporâneos, e os media englobados nesses processos, como elementos centrais na contínua construção de práticas sociais e culturais, argumentam que essas tecnologias e as suas aplicações estão a tornar-se instrumentos de mudança sociocultural de modo gradual. Na base desta premissa está a ideia de que todas as sociedades são caracterizadas por modelos comunicacionais como a comunicação interpessoal ou bidirecional, a comunicação de um-para-o-grupo, a comunicação de

massas e finalmente a comunicação em rede (Wolton, 2000; Colombo, 1993; Castells, 2006; Himanen, 2006, Cardoso, 2006). A defesa que há um modelo comunicacional emergente (Ortoleva, 2004; Cardoso, 2006), a comunicação em rede, não implica para os autores uma rutura nas práticas comunicacionais, que seria difícil de sustentar, mas antes o aparecimento de um modelo que se vai imiscuir nos precedentes. Esta ideia sugere que se evite procurar as ruturas entre modelos comunicacionais, privilegiando-se antes a análise dos pontos de contacto entre a comunicação em rede e a comunicação interpessoal ou outras modalidades de comunicação. Poderá igualmente ajudar a compreender que, apesar de a televisão continuar a ser o meio de comunicação dominante, a interatividade dos novos media é por vezes contrastada de modo favorável por parte das crianças à passividade dos meios de comunicação de massa (Livingstone, 2002).

As crianças têm sido colocadas como agentes privilegiados nos processos de mudança sociocultural por diversos autores, ao se constatar que, dependendo do acesso, adotam precocemente as novas tecnologias, geram os seus próprios estilos de apropriação dos media e que através dessa apropriação demonstram competências sociais, traços identitários e processos de socialização e aprendizagem distintivos (Valkenburg, Schouten e Peter, 2005; Lee, 2005; Bryant et al. 2006; Tabernero et al., 2008). Estas investigações sugerem uma ligação entre o estudo dos media e a sociologia das gerações. Num ambiente mediático onde os media têm um papel central na vida das crianças e dos adolescentes (Pinto e Sarmento, 1999; Cardoso et al, 2008) surge a questão de saber até que ponto os media são, na sociedade contemporânea, um elemento central na definição de geração e na constituição de uma memória coletiva. Esta questão é importante no sentido de examinar o papel que as clivagens geracionais enquanto fatores mediadores do impacto dos media nos quotidianos infantis e familiares.

A associação entre memória coletiva e a constituição de gerações foi lançado por Mannheim (1952), que, em vez de entender as gerações como um reflexo de normas etárias que diferenciam o ciclo de vida, encara-as como sendo influenciadas, e até mesmo delimitadas, por acontecimentos históricos marcantes (Attias-Donfut e Lapierre, 1994). Mannheim imprimiu também um processo dinâmico à transmissão intergeracional de normas e valores societais. Surgiram daqui também tentativas para conciliar as abordagens que tomam como variáveis a classe social ou a geração como forma de análise das representações, práticas, trajetórias, condições de vida e o contexto social e cultural dos indivíduos. Para as abordagens classistas (como a de Bourdieu, 1986), as diferenças geracionais são tratadas como operacionalmente menos importantes na pesquisa, em

comparação com uma análise que organiza os indivíduos no espaço da estrutura social, sublinhando, dados os pressupostos analíticos, a heterogeneidade social dentro da mesma coorte ou unidade geracional. Por outro lado, nos desenhos de pesquisa onde a variável geração assume primazia é esperado que a partir de comparações geracionais seja identificada uma métrica temporal capaz de captar processos de mudança social (Nico, 2014). Pode-se argumentar que ambas são cientificamente legítimas, que tocam interesses de pesquisa algo diferenciados, mas articuláveis, embora de conciliação analítica complexa.

Melucci (1996) segue uma abordagem geracional afirmando que, na sociedade moderna, o processo de socialização, outrora considerado como transmissão básica de regras e valores, é agora visto como possibilidade de redefinição e invenção das capacidades “formais” de aprendizagem, de aquisição de competências cognitivas e de criatividade. Autores como Aroldi e Colombo (2003, 2007) e Cardoso (2006) aproveitaram estas ideias substituindo a marca deixada pelos eventos históricos pelas formas diferenciadas de apropriação social dos media. No entanto, esta posição deixa a questão de saber qual o momento do ciclo de vida que será mais recetivo para essa espécie de estampagem dos contextos históricos e mediáticos na memória coletiva dos indivíduos. Neste âmbito, Aroldi e Colombo (2003, 2007), assinalam que a infância e a adolescência são etapas fundamentais para uma espécie de alfabetização face aos media, que define os padrões de consumo e os hábitos futuros, através da definição de expectativas, gostos, preferências, familiaridade de géneros, textos e padrões de interpretação. É neste período que as crianças começam a criar sua própria biografia dos media, que terá vários pontos de contacto com as biografias dos seus pares. É através da sobreposição de histórias de consumo e de hábitos mediáticos semelhantes que uma geração poderá construir uma memória dos media que lhe é própria. Embora este processo de alfabetização tenha influências importantes das formas de organização e gestão da vida quotidiana, o que gera utilizações e preferências diferenciadas, como assinala Pereira (1998) no que respeita à televisão.

Este tipo de classificação baseada na socialização num determinado sistema dos media não tem sido feito sem críticas. Por exemplo Attias-Donfut e Lapierre (1994) designam de superficiais as classificações baseadas em evoluções técnicas. Todavia, não é essa a proposta de Aroldi e Colombo e de Cardoso que arremessam o apelidado determinismo tecnológico, preferindo olhar para as atitudes, representações e práticas diferenciadas face aos media, isto é, para a domesticação dos media característica de cada

geração. Nem tampouco Cardoso resume a classificação geracional ao acesso ao mesmo sistema dos media, e aos mesmos media, reconhecendo embora que a partilha do mesmo período histórico, do mesmo ambiente cultural e mediático, absorvida em variados contextos, faz parte da construção de uma identidade sociocultural própria de cada geração, mesmo contando com a heterogeneidade social intra-coorte. Nesta perspectiva, fazer parte de uma mesma geração implica a vivência de uma série de experiências, a exposição a factos históricos e a padrões de consumo comuns faz com as crianças partilhem determinados valores (Gnasso, 2003). Mas Attias-Donfut e Lapierre (1994) ressalvam que a aceleração do tempo de mudança, a fabricação de signos e símbolos culturais efémeros e a difícil manutenção de uma memória de longo-prazo, tornam problemática a classificação das gerações. Tal posicionamento reflete aliás os postulados das teorias da individualização (Giddens, 1991; Beck 1992; Beck, Adam et al. 2000). Por outro lado, mesmo num contexto de mudança acelerada, a adolescência é entendida como um momento central de construção da identidade e de fixação de atitudes, representações e de disposições (Jeammet, 1997).

Contudo, Attias-Donfut e Lapierre assinalam ainda que processos de atomização e individualização das biografias pessoais, de erosão de sistemas de pensamento totalizantes, de projetos coletivos e de solidariedades tradicionais podem tornar as classificações artificiais. Embora Cardoso (2006) não entenda as gerações como entidades monolíticas, sendo intersectadas por outras variáveis, apresentando diferentes subculturas, distingue empiricamente traços comuns na relação com diferentes tecnologias e uma partilha geracional de práticas e valores face aos media. Deste modo, o autor designa a geração de crianças e jovens, que nasceram nos anos 80 ou posteriormente, por geração multimédia, visto que se socializaram com uma multiplicidade de ecrãs, que coincide com a segunda geração informacional, socializada desde a sua infância nos computadores em rede em casa ou na escola e que toma a massificação do acesso à internet como algo adquirido. A geração multimédia e informacional, que propende a privilegiar os novos media face à televisão, tende a criar redes entre media, passou a utilizar os espaços e os dispositivos pessoais como nó de mediação nas relações sociais, está mais tempo exposta a diversos ecrãs dentro ou fora de casa, articulando-os, de forma integrada, no seu modo de vida (Cardoso et al., 2007).

Esta discussão implica um olhar epistemologicamente vigilante em torno do uso do conceito de "geração", que poderá dar aso a alguns equívocos dada a potencial ramificação para eventos diferenciados. Por exemplo, o termo "conflito de gerações",

popularizado na década de 1960 até a década de 198021, engloba a ideia de que, devido à rápida mudança social, os valores e atitudes dos pais estavam a afastar-se dos dos filhos (Nico, 2014). Este contexto contribuiria para encarar com estranheza algumas culturas e subculturas infantis e juvenis, e os seus universos musicais, normativos, estéticos e atitudinais, que se tornariam objetos de estudo das ciências sociais. Smith (2005) sustenta, no entanto, que, quanto aos valores e atitudes sociais, a diferença putativamente mais problemática em termos de entendimento mútuo entre as gerações, as coortes infantis e juvenis de hoje não são tão distintas como no passado. Porém, esta diferença, em alguns aspectos, parece ser maior em países onde os processos de mudança social foram mais profundos num curto espaço de tempo, como em Portugal (Torres e Lapa 2010). A noção de conflito de gerações exclui a ideia de uma abertura e pontes de diálogo e pode constituir um salto interpretativo abusivo quando, em dados contextos sociais e históricos, podemos simplesmente estar perante valores, atitudes e práticas descoincidentes ou divergentes sem que isso signifique necessariamente confronto, tensão ou desacordo.

É de assinalar que as clivagens geracionais podem dever-se tanto a um efeito do ciclo de vida - os indivíduos mudam de interesses ao longo da sua vida – como a autênticas diferenças inter-geracionais que acompanham os indivíduos ao longo da sua vida. Aqui Eco (2004b) reitera a importância dos media na tradução do espírito geracional por via da sua produção cultural e dos usos a ela dados. Contudo, certas necessidades ou procuras mediáticas que se manifestam nas crianças poderão estar diretamente ligadas às motivações e disposições características da infância e da adolescência. Os dois processos – o efeito do ciclo de vida e a formação de uma memória dos media que perdura ao longo da vida – serão porventura paralelos e poderão ocorrer simultaneamente. Há ainda que ter em conta que as gerações não são formações estanques. Por um lado, é possível distinguir diferentes domesticações dos media, por outro lado, poderão ocorrer contaminações múltiplas entre gerações. É de sublinhar que, para Cardoso (2006), não está em causa a defesa da geração multimédia e informacional enquanto geração efetiva, que Mannheim define com tendo uma determinada consciência histórico-social e uma identidade coletiva (Attias-Donfut e Lapierre, 1994). Tal como o conceito de classe social não implica necessariamente a existência de consciências de classe, o conceito de geração poderá não implicar necessariamente uma identidade coletiva e autorreferencial.

21 Inclusive por produtos culturais como os filmes Viagem a Tokyo de Yasujirô Ozu ou Fúria de Viver de

Autores como Aroldi e Colombo, assim como Cardoso (2006), limitam-se a reconhecer as clivagens entre culturas mediáticas de diferentes gerações, não discutindo as implicações dessas clivagens ao nível das interações quotidianas ou das representações que os indivíduos constroem sobre os membros de outras gerações caracterizadas por outras culturas mediáticas. Também Almeida et al. (2013) se debruçam para o problema da infância como geração, à luz das transformações sociais associadas ao uso das novas tecnologias por crianças e adultos. Em primeiro lugar, a par de Qvortrup (2007), os autores relembram que a relação desigual entre gerações, ou crianças e adultos, é uma ordem ou característica estrutural do tecido social. Aqui os novos media não trouxeram algo de propriamente novo. Segundo, apelam a uma consideração do contexto, em particular, o familiar, para ultrapassar visões essencialistas ou deterministas sobre a relação entre tecnologia e geração e olham para a diversidade interna no seio das coortes. Neste âmbito, apontam para a importância dos recursos e da posição social da família. No entanto, não deixam de identificar as potencialidades transformativas da internet, que se jogam diferencialmente entre contextos familiares. Entre as famílias mais desfavorecidas é mais provável que a internet surga como domínio privilegiado das crianças, o que reforça o fosso geracional, e implica mudanças na relação de poder e saber (em termos de literacia digital), que jogam em favor das crianças. Entre as famílias mais favorecidas, a internet é tendencialmente introduzida como plataforma familiar. Ou seja, não é negada uma ordem geracional, mas aponta-se que esta é atravessada por lógicas sociais externas e que tem manifestações diversificadas consoante os contextos.

Fica por explorar de uma forma mais alargada as modalidades diferenciadas de incorporação de culturas mediáticas e os seus efeitos na interação das crianças com os adultos, em termos de convivência, negociações e confrontações inter-geracionais, fruto de uma socialização primária em culturas mediáticas diferentes, que não só influenciam os valores individuais e as atitudes em relação aos novos media, como também têm impacto nos conceitos e nas práticas educativas. O uso da comunicação mediada por computador e os jogos multimédia, enquanto formas de expressão da ludicidade infantil (Sarmento, 2004), poderá assim chocar com uma “ética protestante” mais ligada à adultez. Uma das possíveis consequências da penetração cada vez maior dos media no quotidiano das crianças que começa a ser explorada analiticamente é a ocorrência de conflitos familiares específicos em torno do consumo dos designados novos media. Contudo, estes conflitos devem ser contextualizados na condição mais genérica da infância. Como assinalam Jeammet et al. (1997), a adolescência, em particular, é uma etapa marcada por

confrontos, pela exploração dos limites e pela conquista de autonomia com movimentos de separação da presença protetora dos pais. Deste modo, as modalidades de utilização dos media surgem como esferas, entre outras, onde as crianças e os adolescentes testam o nível de resistência dos pais, adotando-as como formas de expressão da sua autonomia.

Capítulo 3: O estudo da infância no modelo comunicacional em

rede - modelo conceptual e métodos

O plano de investigação segue algumas das questões em aberto que emergem da revisão da literatura com a ambição de alargar o leque de conhecimento sobre as consequências da relação das crianças com os media e sobre os próprios contextos em que essa relação se dá, em particular os relativos ao espaço doméstico. A grande questão que emerge é saber até que ponto a apropriação social dos media por parte das crianças, num contexto mediaticamente saturado e de comunicação em rede (Cardoso, 2006, Cardoso et al, 2009), poderá contribuir para a reconfiguração dos quadros de existência ou sociais infantis, entendidos numa lógica ideal-típica. Neste sentido, para além do reconhecimento das dimensões estruturais da infância (Qvortrup, 1995), marcadas por instituições como a família ou a escola e pelas relações de poder entre crianças e adultos, parte-se igualmente da análise de quadros (framing) de inspiração goffmaniana (Goffman, 1974), que se reporta a um conjunto de instrumentos conceptuais sobre as modalidades de percepção, organização e comunicação das crianças nos seus quadros sociais. O desenvolvimento desta perspetiva nos estudos da comunicação envolve os processos de construção social da realidade dos fenómenos sociais em que os media participam ativamente, a par das interações quotidianas das crianças e dos processos de mediação em interação com os pares ou com os adultos. Mas para além da vertente percecional os quadros de existência remetem para a componente disposicional dos agentes (Bourdieu, 1979), atentendo à experiência incorporada dos agentes, seja uma experiência vivida ou mediatizada, para efeitos de análise das práticas ou dietas mediáticas, comportamentos e representações face aos media. A identificação de elementos distintivos nos quadros de existência infantis tem as suas complexidades teóricas e metodológicas, diferenciando-se consoante os fatores considerados na análise, isto é, consoante o modelo comparativo, entre gerações ou considerando diferenciações intra-coorte, entre sexos, idade ou classe social, entre

outros. Ademais, seguindo Lahire (2005), o sistema disposicional não é um bloco monolítico e coerente, atividado trans-situcionalmente, independentemente dos contextos. O posicionamento de Lahire, faz lembrar os postulados teóricos de Simmel (Simmel e Wolff, 1950) sobre os efeitos individualizantes da segregação de círculos sociais e conflui com a perspetiva da individualização, que chama a atenção para a constituição reflexiva do projeto do “eu” e das trajetórias de vida (Giddens, 1991), enquanto Bourdieu parece dar prioridade aos processos infraconscientes. Assim, para Lahire, o sistema de disposições é antes alicerçado em constituintes heterogéneos, não necessariamente coerentes ou confluentes, estruturados por modalidades de socialização múltiplas e por grupos de referência diferenciados, como diria Merton, como a família, a escola, os pares, os media, etc. É, no entanto, de relevar que nem todas as modalidades de socialização, nem todos os grupos de referência, têm o mesmo poder estruturante. Não obstante, constituem fontes diversas que moldam a experiência e as trajetórias individuais construídas e atualizadas em interação com outros agentes (outras crianças ou adultos), que, por sua vez, poderão dispor de um sistema disposicional semelhante ou dessemelhante.

Neste âmbito, pretende-se partir do ponto de vista de Giddens (1984) de tratar igualmente os quadros infantis (e familiares) como um conjunto padronizado de relações sociais através do espaço e do tempo, entendidas enquanto práticas rotinizadas. Sem prejuízo de considerações cautelosas sobre as diferentes experiências infantis quanto à sua sistematicidade, isto é, considerando-se que não constituem necessariamente um todo coerente e que variam quanto à sua integração sistémica. Mas, é de particular importância olhar para a integração social entre as crianças e os seus contextos no que se reporta à reciprocidade das práticas entre atores. Não é só a hipótese da emergência de relações distintivas das crianças com os media, num contexto de socialização na comunicação em rede, que se pretende examinar. É o impacto que a apropriação dos media por parte das crianças poderá trazer ao conjunto padronizado de relações que os agentes infantis mantêm com a sua rede de relações sociais. Desta maneira, assume-se o potencial transformativo na forma como as crianças mobilizam vários media nos seus contextos quotidianos, sendo que esses contextos não se resumem necessariamente ao espaço físico do lar. Todavia, não se aceita de modo acrítico a ideia de que as crianças são agentes privilegiados nos processos correntes de mudança tecno-social, simplesmente por apropriarem precocemente os novos media. Se o são, resta saber em que moldes: serão agentes de mudança simplesmente porque irão transportar ao longo da sua vida um

conjunto de práticas e representações face aos media que compõem uma cultura mediática tendencialmente mais hegemónica com o passar do tempo? Ou, em primeira instância, essas práticas e representações vieram trazer inovações substantivas às rotinizações e contagiar um conjunto alargado de agentes sociais, sejam crianças ou adultos?

De enorme relevância é o exame das rotinas diárias e a estruturação do espaço e tempo, em particular no espaço doméstico, tal como Silverstone (1994) enfatizou, mas olhando para o consumo dos media de um modo agregado, incorporando-se assim as consequências da utilização dos media em rede e de registos e modalidades de consumo e utilização. Claro que este exame implica necessariamente a inclusão de variáveis de diferenciação social entre as crianças, seja em termos de acesso aos diversos dispositivos mediáticos como em termos de variáveis mais tradicionais na pesquisa sociológica. Neste caso, iremos essencialmente debruçar-nos sobre as diferenças intra-coorte entre sexos e idade, embora em alguns capítulos sejam apontadas outras diferenciações, nomeadamente de ordem geracional ou em termos de capital cultural. Não obstante, o sentido analítico da presente tese é olhar a domesticação dos media e os quadros de existência infantis sob a perspetiva ideal-típica da experiência das putativas classes médias (Giddens, 1975). Como Giddens e Silverstone assinalam, a rotinização remete para a prevalência de estilos individuais ou domésticos e de formas de conduta que suportam e são suportados pela sensação de segurança ontológica. Portanto, faz parte da agenda da pesquisa explorar as consequências das alterações nas rotinizações infantis face aos media, fruto da apropriação social de novos media, em termos da manutenção da segurança ontológica das crianças e dos pais eventualmente socializados noutro contexto mediático. Desta forma, pretende-se analisar, em que termos poderá a utilização dos media contribuir para a manutenção da segurança ontológica dos atores, mas igualmente contribuir para a