Em 1923, um Capitão de Corveta médico, Julio Porto Carrero, escreveu um artigo393 que seria publicado nos meses de março e abril intitulado “Organisação da Saúde Naval – Commentarios e Suggestões”, com um formato extremamente crítico e desprovido de um sentimento de auto-preservação pela carreira, num tom raro para as matérias publicadas ao longo da existência do periódico.
A sua explanação era baseada na expectativa da vinda de uma Missão Americana que iria reformular a Marinha e a esperança de que esta trouxesse frutos para o Serviço de Saúde, que sofreria grandes transformações com essa missão.
Ao começar a descrever a sua receita para o funcionamento do Serviço de Saúde, imaginava-o dividido em um Serviço Preventivo e um Serviço de Assistência.
392 VIEIRA, Manoel Pedro. Serviço de Saude e veterinaria em as manobras de 1912, em a Fazenda dos
Affonsos: relatório apresentado ao Sr. General Dr. Antonio Geraldo de Souza Aguiar, inspetor da 9ª Região, pelo Tenente Coronel Dr. Manoel Pedro Vieira, Chefe do serviço de saude e veterinaria (copia autorisada). Medicina Militar, Ano IV nº 4, outubro de 1913, p. 164-180.
393 CARRERO publicou em 1923, o artigo Organisação da Saúde Naval – Commentarios e Suggestões,
dividido em duas partes, a primeira publicada em março (p. 278-283) e a segunda publicada em abril (p. 314-317).
Reclamava o autor que tínhamos uma “Saúde Naval sem hygiene” 394, pela não existência de um serviço preventivo.
Criticava seus superiores ao alegar que médicos que não houvessem querido ou podido entrar para um corpo clínico hospitalar, estariam fadados a servir como médicos de navio ou de quartéis, ou então que seria melhor que se reformassem395.
Dava pistas sobre o que seriam considerados os principais males da marinha na época: a sífilis, a tuberculose e as helmintoses.
O Serviço de Assistência era composto de três hospitais, sem contar as enfermarias anexas aos arsenais do Pará e do Mato Grosso as existentes em navios e quartéis de Marinha. Não media as palavras:
As enfermarias dos arsenaes, assim como as dos corpos, nada valem. Improvisadas todas, nenhuma obedece nem de longe, aos preceitos da arkhitectura hospital e o seu apparelhamento é deficiente. As enfermarias dos navios são, via de regra, pequenos aposentos para curta demora dos doentes, não merecem detida anályse, porque dells não se poderia esperar melhor; foram feitas para os navios, não os navios para essas. Só o Minas e o S. Paulo, principalmente o primeiro, têm serviço de saúde condigno396.
Os hospitais não mereciam “tal nome”, o Central era um “conjunto de pardieiros, o Hospital de Copacabana “é um agglomerado de barracões situados no cimo do morro da Villa-Rica, frente ao mar e destituído de quaesquer normas de hygiene” 397. O Sanatório Naval “aberra por completo das regras de hygiene hospitalar em geral e particularmente de um sanatório”. Sobre a organização, disse o autor que “corre parelhas com o estudo material” 398.
Eram inúmeras as criticas as instalações, organização, serviços, falta de médicos. Reclamava que a:
[...]obra de Hygiene Publica iniciada por Oswaldo Cruz não encontrou infelizmente terreno proprio para a sua proliferação, na Marinha. Ainda temmos comnosco a varíola, a lepra, o paludismo; e o que é mais, ainda
394 Ibidem, p. 278. 395 Ibidem, p. 314. 396 Ibidem, p. 279, 280. 397 Ibidem, p. 280. 398 Ibidem, p. 280-281.
temos a syphilis, a tuberculose, as helminthoses e até mesmo – para vergonha nossa – o beri-béri399.
Outra crítica se dava as constantes movimentações e instabilidade dos Chefes de Clínicas, que não conseguiam exercer por mais de três anos uma função por causa de uma lei que limitava a esse período o prazo máximo de serviço no mesmo local.
Apontava que o treinamento de um civil seria bem superior ao de um militar, que se deixasse o cargo por causa da movimentação obrigatória, poderia ir para um lugar onde teria uma grande probabilidade de não conseguir exercer a sua especialidade. Mas a matéria não era só de criticas. O autor propunha soluções, principalmente tratando-se da criação de um “serviço de assistencia hospitalar de promto-soccorro, de outro lado um serviço de hygiene”. Clamava também pela criação do Instituto de Hygiene Naval e chegaria a relacionar todas as seções técnicas necessárias ao seu funcionamento400.
O artigo trazia também, importante subsídio do olhar de um médico da Marinha sobre o que seria o estado sanitário da população brasileira. Reclamando da sistemática do recrutamento, muitas vezes realizada isoladamente por um médico, e sem aparelhamento, alegava que este:
[...] examina centenas de matutos, na sua quási totalidade doentíssimos, minados pelas endemias do nosso interior abandonado começa, recusando grande número; depois ele próprio chega a habituar-se com a normalidade daquelle péssimo estado sanitário, crea para si um typo higido que não representa absolutamente a saúde; e entra aceitar benevolamente quantos casos mórbidos attenuados se lhe apresentam401.
Diante desse quadro Porto Carrero entendia que se fosse o médico realmente criterioso, não restaria pessoal a ser recrutado. Aí, diante do dilema de quem recrutar, fazia uso da famosa frase de Miguel Pereira: “Se o <<o Brasil é um vasto hospital>>, se as nossas populações ruraes e litoraneas são opiladas, empaludadas, ulcerosas...onde escolher, conscientemente, gente só para a marinha? 402”
399 Ibidem, p. 283.
400 Ibidem, p.283-284. 401 Ibidem, p. 315-16. 402 Ibidem, p. 316.
A conclusão do Oficial é de que “a Marinha deve fazer a gente sã de que precisa”403. Ou seja, imaginava um trabalho em que o propósito não seria limitado a corrigir as mazelas do pessoal recrutado, mas “faze-los desde o berço; fazer-lhes os pais e os avós; fazer a saúde das populações donde sairá o marinheiro”404, na verdade estava pensando estrategicamente a saúde nacional.
Pretendia mostrar também, o que já vinha sido feito, apesar das precariedades, mesmo diante da conclusão que os esforços individuais não alcançavam resultado prático. A Marinha naquela época, prestava apoio de saúde com algumas embarcações, entre elas o Cruzador Auxiliar José Bonifácio. Seguiam para colônias de pesca e na realidade, pouco podia fazer.
[...] chegar porém, a um pequeno porto, examinar sangues e fezes de malaricos e opilados, curar ulceroses, mercurizar syphiliticos, fazer prelecções e projecções... e depois suspender ferro, demandando outro porto-é apenas malbaratar esforços, gastar tempo e dinheiro. o verminótico curado torna a infestar-se, porque não tem latrina;o paludico reinfecciona- se, porque continua a beira do seu charco; a syphilis recomeça a devastar o syphilitico...a maior tarefa de Othon Moura foi mais uma vez abrir-nos os olhos sobre esse problema gigantesco, que pede solução agigantada405.
O artigo de Porto Carrero, nos remeteu aos estudos sobre a expansão das ações de saúde pública para o interior do país. As origens das políticas nacionais de saúde pública foram estudadas, especialmente as promovidas nas décadas de 1910 e 1920. Esses trabalhos mostraram que Porto Carrero parecia querer indicar uma tentativa de inserção da Marinha naquele modelo, que viria a construir institucionalmente uma política que buscasse consensos em relação a precariedade da situação de saúde por todo o país. É claro que o objetivo do oficial eram os recursos humanos a serem recrutados pela Marinha, mas de qualquer forma a Força Naval se inseria nessa equação.
Da mesma forma, as soluções encontradas pelo articulista corroboram o modelo segundo o qual o Estado brasileiro pretendia naquela época aumentar seus poderes através da expansão territorial de sua capacidade de atuação no campo sanitário.
403 Idem.
404 Ibidem, p. 317.