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Olav Dragesund

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De acordo com Volnovich (1993, p. 121); Maud Mannoni, assim como Françoise Dolto, insistem no fato de que “o grande erro dos psicanalistas de criança ingleses (exceto

Winnicott) e norte-americanos é a permanente exclusão da palavra dos pais do tratamento da criança, a não ser a título de informação.” Junto a esses autores, nos opomos à exclusão da palavra dos pais e adultos que trazem a criança para tratamento, pois, como foi indicado por Freud, o próprio fazer clínico nos reafirma que a criança trás em seu sofrimento um mosaico de questões que concernem principalmente aos problemas de quem a cuida, além do fato de que “[...] por mais que a analista afaste os pais, vê-se presa, à revelia, de um discurso coletivo [...]” (MANNONI, 1999, p. 71).

Consideramos aqui que as palavras do parentes ou responsáveis pela criança compõem o seu sofrimento e apenas abordando tais palavras no processo do tratamento é que o analista pode trabalhar de forma efetiva e coerente. Salientamos que o discurso coletivo perpassa a criança, seja pela intervenção das figuras parentais seja numa formação mais ampla que compõe o psiquismo do sujeito a partir dos significantes que são colhidos no discurso do Outro.

Ainda segundo Mannoni (1999, p. 72), “as reações dos pais são parte integrante do sintoma da criança e, portanto, da condução do tratamento”. No mesmo parágrafo, mais adiante, a autora vai reiterar que “a criança doente faz parte de um mal-estar coletivo, sua doença é o suporte da angústia dos pais”. E ela também adverte que, “tocando no sintoma da criança, arriscamo-nos a fazer emergir brutalmente o que, nesse sintoma, servia para alimentar ou, ao contrário, para obturar a ansiedade do adulto.” É o caso visto na vinheta do segundo capítulo, que intitulamos TDAH pré-natal – questionar tal diagnóstico levaria a descobrir a inquietude da própria mãe como pontuamos.

É necessário situar o que representa a criança no mundo fantasmático dos pais e compreender também o lugar que estes lhe reservam nas relações que estabelecem coma criança (interrupções bruscas do tratamento estão geralmente relacionadas com o desconhecimento, pelo analista, dos efeitos imaginários, nos pais, de sua própria ação junto à criança). (MANNONI, 1999, p. 73).

“Será, pois, a partir da pulsão – representada no fantasma da criança, sendo este por sua vez suporte do fantasma dos pais –, que o analista de crianças achará seu lugar interpretativo.” (VOLNOVICH, 1993, p. 37). Não obstante, para a interpretação, incidente sobre o gozo, é necessário toda cautela, dado que, em alguns dos casos, ela pode vir a causar grande resistência na criança, em outros, atingir os pais nas suas formas cristalizadas (às quais eles não cederão facilmente), e, dessa forma, ao levantar a resistência, pode culminar na atitude de retirar a criança do tratamento no momento em que a análise poderia gerar os melhores resultados. É por isso que se faz necessário reconhecer os pais como integrantes

da trama transferencial que devem ser visados durante o tratamento. “O analista deve poder operar na sustentação de um campo de transferência onde os pais estão implicados.” (VIDAL, 2001, p. 16) e, com isso, forjar a base para o começo e a manutenção da análise da criança.

Testemunha-se, na clínica com crianças uma “confusão de línguas” ou um “não saber quem fala” (VIDAL, 2001). Muitas vezes a criança assimila e reproduz em ecolalia os discursos dos pais ou de outras pessoas em posição de poder, como professores ou alguma instituição religiosa. Retirando-se enquanto sujeito da situação, a criança repete as falas que a cercam e a assujeitam e, em casos de psicose, essa intrusão do discurso do Outro fica ainda mais patente. Porém, tal confusão acontece com todos – adultos ou crianças – fazendo parte das identificações e das formações do ego.

Por esse reverberar de várias línguas que existe no tratamento da criança, é necessário que o analista não se restrinja apenas ao que é veiculado nas falas daquela, pois, se esses enunciados que a atravessam cumprem o papel de eliminá-la enquanto sujeito, tomando à dianteira e fazendo-se como falas automáticas, é porque, provavelmente, não é possível, na condição da criança, sustentar uma posição de sujeito diante dos imperativos tirânicos dos representantes Outro. Ao analista cabe não apenas ouvir a criança e seu sofrimento diante desse Outro, mas esburacá-lo enquanto ele tenta se colocar sem furo diante da criança, ou até ouvir, junto à condução do tratamento da criança, esses representantes do grande Outro que são os pais ou os professores.

Caso esses “representantes do grande Outro para a criança” não sejam ouvidos em seu tratamento, parece-nos que ela, a criança, continuará na posição de veículo e depositário das mensagens, incômodos e angústias daqueles. Ouvir quem se queixa da criança é, pois, uma das partes mais necessárias para o tratamento dela, já que as questões desses outros tomam a criança como representante perfeito para falar de si sem se implicar e o sintoma na criança fala deste lugar para o qual ela foi eleita.

Durante o tratamento, caso se passe da condição de “sintoma na criança” para a condição de “sintoma da criança” uma distinção parece operar-se com os adultos que a cercam, o descolamento de gozo ao redor da criança e o sentido de seu sintoma parecem enviar a questão do mal-estar para além do núcleo cristalizado do sofrimento que a criança trazia. O sintoma na criança diz respeito à “contaminação” que esta sofre quando, em seu meio, as pessoas que são seus responsáveis não conseguem haver-se com os próprios problemas e a colocam como representante de suas angústias inomináveis. Nesse sentido, “é

fundamental ressalvar a função do analista de escutar os significantes que dizem sobre o lugar dessa criança na economia libidinal” (VIDAL, 2001, p. 11) desses que a cercam.

Jerusalinsky (2011) corrobora que o analista de crianças suporta a transferência dos pequenos pacientes e, por tabela, suporta a demanda e dedica atenção aos pais diante do que estes endereçam ao pequeno sujeito. O sintoma na criança é efeito desse transporte de significantes de seu meio, onde ela assume os significantes que lhe são atribuídos no maior dos graus de alienação. Deslocar a condição de sintoma na criança para a condição de sintoma da criança é produzir um efeito de separação, onde o que ela encarnou sem “consentir” subjetivamente pode passar para um efeito discursivo para o qual ela pode formular uma resposta enquanto sujeito. Essa transformação é uma das possibilidades de operação da análise, na qual o analista, contando com a sua posição transferencial em relação à criança e aos parentes, desloca a organização que se fez na trama que mantém o sofrimento.

Como personagem incluído nas repetições, nos clichês estereotípicos dos pacientes, o analista compõe a cena inconsciente e assim move os elementos que foram apresentados nas queixas em seu trabalho através da transferência. (MORETTO, 2001) “Como vimos, é pela via do trabalho com os pais que se introduz e se constitui a possibilidade de transferência analítica, onde a criança pode vir a supor saber no analista e assim permitir outro sentido às queixas trazidas pelos pais.” (VORCARO, 2004a, p. 172).

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