O conjunto de narrativas obtido nesse estudo oferece uma rica visão das idéias, sentimentos e aspirações de um grupo de sujeitos que experimentou os caminhos e os descaminhos de uma trajetória em torno da escola. Analisar os efeitos dessa caminhada é, indubitavelmente, refletir sobre como um sujeito se constrói e quais são as marcas (e cicatrizes) que a socialização escolar lhe deixa. Se as experiências dos tempos de escola em algum momento pareceram semelhantes percebe-se uma multiplicidade nas formas que foram vivenciadas e absorvidas, o que revela a singularidade dos participantes. Os resultados revelam que após revisitar as lembranças e reconstruir sua trajetória escolar reflexões críticas podem ser feitas sobre posturas (nossas, da nossa família e da nossa escola) antes vistas como heróicas. Sem pretender apresentar uma síntese prolixa, apontamos, para finalizar, alguns aspectos que chamaram a atenção, ainda que muitos outros merecessem ser mencionados.
A análise das narrativas deixa claro que durante a experiência escolar, dois eixos significativos se destacaram e tornaram-se fundamentais para a constituição dos sujeitos investigados: se por um lado o ambiente escolar em suas características, estruturas e dinâmicas deixaram marcas indeléveis à memória e foram determinantes em nossas escolhas, por outro, a família (às vezes representada por um ou outro membro dela), através das várias formas de investimento pedagógico durante o período de escolarização foram de fundamental influência.
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Assim, as marcas combinadas da escola e da família também deixaram um legado importante para nossa formação e para as escolhas que fizemos em nossas vidas, inclusive no que se refere ao direcionamento de nossa formação e carreira profissional. Em outras palavras, a análise dos depoimentos sugere que, tanto a família como a escola exerceram fortes, significativas, porém, diferenciadas influências em nosso processo de individuação.
O primeiro grande ponto a considerar é que a influência psicossocial das experiências escolares não são resultados apenas do que se viveu dentro da instituição escola. Vários outros contextos onde o sujeito se inseriu, principalmente a família, associam-se indissoluvelmente nesse processo e exercem um papel decisivo para a sua formação.
A pesquisa evidenciou que as formas de investimento pedagógico feitas pelas famílias aos seus filhos possibilitam o direcionamento da escolha profissional embora em seu discurso tenha sido reforçada, sobremaneira, uma ideologia meritocrática. Assim sendo, revelou-se a permanência duradoura e resistente do conformismo familiar ao mérito pessoal que contradiz a valorização atribuída à instituição escolar como formadora e como meio social além dos projetos familiares.
Observamos também que muitas das experiências vividas na escola se configuraram como acontecimentos críticos na vida dos sujeitos mudando ou determinando suas condutas, transformado seus comportamentos, atitudes e interferindo em nossas decisões, escolhas e
condução das suas vidas. Fica claro que no ambiente escolar ocorrem diversas oportunidades de interações com as quais muito se aprende sobre relações interpessoais, equipe, ética, competição, cooperação, respeito e comunicação, evidenciando que a escola deixa importantes frutos nos campos sociais e afetivos.
A pesquisa evidenciou, ainda, que a relação com o professor determina, em grande medida, o modo como os alunos lidam com o conhecimento e o uso que deles fazem. A relação afetiva professor/aluno vivenciada pelos nossos sujeitos mostrou-se fundamental no processo de socialização escolar. As variadas práticas docentes relatadas foram, em sua maioria, associadas ao ensino sistemático de saberes escolares, porém, ultrapassando o sentido pedagógico do desenvolvimento dos alunos, esse ensino teve efeitos particulares para cada um deles no seu processo de convivência ambígua entre socialização e individuação. Para todos os sujeitos entrevistados a convivência escolar é uma referência positiva, onde os sentimentos e comportamentos em relação ao saber foram relatados como experiências prazerosas, de superação pessoal. Os alunos esperam sempre dos professores apoio e reforço estimulante no seu processo de construção coletiva e individual, mas ele também pode ser uma ameaça desestabilizadora na construção do Eu escolar. Ao que parece, para os adultos entrevistados a vida na escola também passava por modelos traumáticos, que marcaram duradouramente a experiência escolar.
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O professor compreende que a atividade pedagógica cotidiana pode lhe dar uma noção do que está sendo aprendido, mas geralmente, ele, professor, não tem condições de conhecer as repercussões inconscientes de sua presença e de seus ensinamentos. Pensar assim, de certo, nos leva a atribuir aos conteúdos ensinados somente o valor que lhes cabe e, diferentemente, enxergá-los como a ponta de um iceberg muito mais profundo, invisível aos olhos, indecifrável à consciência. Pode-se com essa evidência, entender que, como professores, não temos controle total sobre o que dizemos e muito menos sobre o efeito das nossas palavras no nosso ouvinte. Não sabemos o que ele fará com aquelas idéias, a que outras associará, que movimentos do desejo o farão gostar mais disso ou daquilo. Quiçá, estejamos atentos às questões mais sutis sobre o ensinar e o aprender!
Certamente, agora, possamos afirmar com segurança que muito do aluno que fomos existe no adulto e profissional que hoje somos. Que o Eu escolar é parte do Eu profissional que existe hoje em cada um de nós. O cidadão, o profissional, o estudante que nos tornamos são derivados dos processos de socialização e individuação, os quais em grande parte se definem durante a vida escolar. E é com o uso desse “capital escolar” adquirido nos tempos de escola que podemos desenvolver os nossos tantos papéis sociais nos dias atuais.
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