Com a finalidade de adequar o método avaliativo ao tipo de pesquisa aplicada, a escala de valores foi desenvolvida contendo quinze itens (um a menos que o modelo original), dispostos e organizados de maneira que representem não só as já citadas dimensões “econcêntricas” e “antropocêntricas”, mas, também, uma terceira dimensão, de “indiferença ou apatia”, conforme o modelo utilizado por Sales (2012), baseado no NEP.
Estes quinze itens, também denominados como indicadores, foram assim agrupados: cinco correspondendo às atitudes antropocêntricas (exploração do meio para benefício da humanidade), cinco itens que demonstram “indiferença ou apatia” (o não interesse dos indivíduos nas questões e problemáticas ambientais) e, por fim, mais cinco itens representando as atitudes ecocêntricas (prioriza a valorização e o cuidado com a natureza acima de qualquer coisa).
Os indicadores correspondem a um conjunto de sentenças afirmativas agrupadas nas três diferentes dimensões, como por exemplo “Devo conservar a natureza apenas para garantir uma boa qualidade de vida a mim e aos outros seres humanos”, onde os entrevistados indicam o seu grau de concordância ou discordância numa escala Likert de cinco pontos, apresentando os seguintes valores: 1 = Concordo totalmente (CT); 2 =
Concordo em parte (CP); 3 = Não concordo nem discordo (NCND); 4 = Não concordo em parte (NCP) e 5 = Não concordo totalmente (NCT).
As escalas de Likert são intervalares e possuem uma abordagem de resposta psicométrica. São bastante utilizadas em pesquisas de opinião e comportamento, onde o entrevistado expõe o seu grau de concordância ou discordância com uma determinada sentença afirmativa, o que irá refletir a direção da atitude do respondente em relação a cada uma dessas afirmações (ALCOFORADO, 2010).
Diferentemente do modelo original, para o referido trabalho, alguns destes indicadores foram alterados e reformulados, buscando uma melhor adequação ao tema abordado neste estudo.
A tabela 1, formulada com base e referência no modelo proposto por Sales (2012), demonstra as três dimensões e seus respectivos indicadores (I), descritos da mesma forma em que foram utilizados nos questionários.
Para cada dimensão, foi calculada uma variável (M1, M2 e M3), que correspondem à média dos escores (valores) dos seus cinco indicadores. Estas médias poderão apresentar valores altos e baixos (entre os intervalos de 1 a 5) e isso irá definir se os indivíduos de cada grupo possuem um perfil antropocêntrico, indiferente ou ecocêntrico.
O resumo das percepções destes grupos, dentro de cada dimensão, será feito baseado no cálculo das médias, que irão definir o grau de favorabilidade da atitude de seus indivíduos em relação aos indicadores apresentados.
Tabela 1 – Descrição dos indicadores, separados por dimensões, e a relação de valores. D im en sã o Indi ca do r Descrição Posicionamento Ecocêntrico Antropocêntrico A nt ropo cê nt ri ca I1
Devo conservar a natureza apenas para garantir uma boa qualidade de vida a mim e aos outros seres humanos
Valores
altos ↑ baixos ↓ Valores I2 O pior em destruir a natureza é que não poderemos
mais nos beneficiar dela e de seus recursos
Valores
altos ↑ baixos ↓ Valores I3 Deve-se fazer reciclagem apenas para ganhar mais dinheiro com o lixo Valores altos ↑ baixos ↓ Valores I4 O Turismo às vezes destrói a natureza mas eu o apoio, pois gera emprego e renda Valores altos ↑ baixos ↓ Valores I5
Acredito que a ciência e a tecnologia resolverão problemas ambientais como a poluição e o aquecimento global
Valores
altos ↑ baixos Valores ↓
M1 Média dos cinco indicadores Valores altos ↑ baixos ↓ Valores
Indi
fe
renç
a
I6 Eu não acho que os problemas ambientais são tão ruins como as pessoas dizem Valores altos ↑ baixos ↓ Valores I7 Eu acho que nós, seres humanos, não precisamos da
natureza para sobreviver
Valores
altos ↑ baixos ↓ Valores I8 Eu não me preocupo com problemas da natureza
(ambientais)
Valores
altos ↑ baixos ↓ Valores I9 Com o tempo, a maioria dos problemas ambientais se resolverão sozinhos (a natureza se recupera) Valores altos ↑ baixos ↓ Valores I10 Eu não me importo em destruir áreas naturais, desde que elas sirvam para o meu lazer e diversão Valores altos ↑ baixos ↓ Valores
M2 Média dos cinco indicadores Valores altos ↑ baixos ↓ Valores
Ecocên
tr
ica
I11 Me sinto bem em lugares naturais e gosto de estar em contato com a natureza baixos Valores
↓ Valores altos ↑ I12
Procuro sempre respeitar as plantas, os animais, as florestas, os rios e os oceanos, pois faço parte da natureza
Valores
baixos ↓ Valores altos ↑ I13 Fico triste quando vejo a natureza sendo destruída Valores
baixos ↓ Valores altos ↑ I14 Quando visito algum lugar, me preocupo em recolher
o lixo e economizar água e energia
Valores
baixos ↓ Valores altos ↑ I15 Para mim, a preservação da natureza é mais importante que as questões econômicas (dinheiro) baixos ↓ Valores Valores altos ↑
M3 Média dos cinco indicadores baixos ↓ Valores Valores altos ↑ Fonte: Adaptada do modelo proposto e utilizado por Sales (2012), para análise da percepção ambiental.
Como descrito na tabela acima, nas dimensões “antropocêntrica” e de “indiferença”, os valores baixos (entre 1 e 2) indicam que as pessoas dos grupos concordam com os
indicadores apresentados, refletindo assim um posicionamento de tendência antropocentrista, onde o bem estar e a qualidade de vida do homem são mais importantes que a preservação da natureza em si.
Os valores altos (entre 4 e 5) obtidos dentro destas duas dimensões sugerem que os indivíduos não concordam com as questões indicadas, fato que confere aos mesmos um caráter e posição ecocentrista, favorável a conservação do meio ambiente e de seus recursos para a manutenção do equilíbrio ecológico que garante a vida de todos os seres (não só os humanos).
Por sua vez, para a dimensão “ecocêntrica”, essa relação/lógica dos valores se torna invertida, onde os escores mais baixos (entre 1 e 2), que revelam concordância, passam a significar um perfil ecocêntrico e os mais altos (entre 4 e 5), que sugerem uma relação de discordância, agora definem um posicionamento de cunho antropocêntrico.
Os dados obtidos com valor em torno de 3 revelam que os sujeitos pesquisados não possuem uma opinião formada para os indicadores listados.
De acordo com Sales (2012):
Essas estratégias de interpretação serão importantes, sobretudo, para compreender o panorama geral das visões “antropocêntrica”, de “indiferença em relação ao ambiente” e “ecocêntrica” dos entrevistados e, com isso, construir o mapa-diagnóstico global das percepções ambientais.