As entrevistas estruturadas e os questionários auto-administrados (como, por exemplo, questionário postal e questionário por e-mail) possuem muitas similaridades entre si. Segundo BRYMAN (1995) a principal similaridade é que ambos são métodos altamente estruturados para colher informações em razoavelmente grande número de respondentes. Em muitos aspectos as entrevistas estruturadas são simplesmente questionários administrados face-a-face com o entrevistado. Deste modo, é aplicado o mesmo questionário para todos os entrevistados o que permite uma
padronização do questionário, de forma que variações nas respostas das pessoas possam ser atribuídas a variações genuínas e não à maneira pela qual foi administrada a entrevista. A diferença entre uma entrevista estruturada e uma não estruturada é que na última existe uma grande quantidade de tópicos soltos que podem ser administrados de várias formas e em seqüências diferentes, ao contrário da entrevista estruturada onde geralmente um questionário padrão conduz a entrevista.
Para BRYMAN (1995), de uma forma geral, pesquisas quantitativas tendem a usar entrevistas estruturadas enquanto pesquisas qualitativas tendem a utilizar entrevistas não estruturadas. GOOD & HATT (1979) acreditam que a utilização de questionários estruturados nas entrevistas é um meio de padronizar as respostas, o que possibilita a análise comparativa entre grupos e subgrupo. Porém, para obter esta padronização a profundidade é sacrificada. Portanto, algumas pessoas defendem a utilização de entrevistas não estruturadas com a utilização de um roteiro de entrevista, que permita ao entrevistador reformular a questão para adequá-la à compreensão do momento. Entretanto, é importante ressaltar que quanto maior a liberdade de ação permitida ao entrevistador, mais necessário é um alto nível de competência.
Para o nosso caso, optamos por utilizar a entrevista estruturada durante a pesquisa com os profissionais e com os acadêmicos da região de São Carlos, pois como parte dos entrevistados (principalmente os profissionais) só poderia participar da pesquisa via e-mail, optamos por utilizar um questionário estruturado com o objetivo de padronizar as respostas e facilitar suas análises, além de diminuir os vieses decorrentes das utilizações de entrevistas e questionários por e-mail em um mesmo grupo de pessoas.
Assim, como o processo de elaboração de questionário já foi abordado na seção anterior, apresentaremos a seguir alguns pontos importantes a respeito da condução de entrevistas face-a-face.
2.3.1 Desenvolvimento de perspicácia (insight)
Durante uma entrevista existem alguns indícios, chamados subliminares, que não são conscientemente reconhecidos e que estão abaixo do limiar da percepção. Portanto, perspicácia é a percepção consciente ou inconsciente destes indícios; é um
palpite que temos a respeito de algo. Para melhorarmos a perspicácia, GOOD & HATT (1979) sugerem que devemos tentar conscientemente:
1) Desenvolver uma prontidão ao fato de existirem vários indícios subliminares e aprender a lê-los.
2) Tentar trazer estes indícios ao nível consciente e compará-los aos palpites dos outros observadores e entrevistadores.
3) Verificar sistematicamente as previsões feitas com estes palpites e ver se estão certas.
Devemos ter consciência de que o entrevistador não deve somente tentar entender o verdadeiro significado das respostas do entrevistado, mas também deve estar ciente de que o entrevistado também está tentando conhecer os motivos do entrevistador. GOOD & HATT (1979) afirmam que “... às vezes, o informante dá mais informações porque sente que o entrevistador ‘já sabe’. Ele responde, então, à imagem que crê o entrevistador possuir sobre ele”. Portanto, o entrevistador deve estar atento para a situação da entrevista: seus gestos, sua aparência, sua entonação, sua ansiedade e etc., pois o informante também tem perspicácia e julgará o entrevistador pelas suas características externas mais flagrantes e sutis.
Por outro lado, é importante que o entrevistador aprenda a “ler” uma situação a fim de perceber qual o sentimento do entrevistado e qual a atitude mais adequada a tomar. Por exemplo, às vezes um olhar de incompreensão ou suspeita pode levar o entrevistador a gastar mais alguns minutos e explicar o que está fazendo e porque o está fazendo.
2.3.2 Como obter resposta: concordância (rapport)
Para GOOD & HATT (1979) existe concordância entre o pesquisador e o entrevistado, quando o último aceita os objetivos da pesquisa e procura claramente auxiliar a obter a informação necessária. Geralmente o melhor meio de conseguir esse resultado é uma abordagem entusiástica e simpática, mera benevolência entre o informante e o entrevistador.
A seguir, apresentaremos alguns pontos importantes para melhorar a concordância.
- considerar que o entrevistado está oferecendo uma conversação cujo foco é para o informante o assunto mais interessante do mundo: sentimentos atitudes, idéias e a vida do próprio entrevistado;
- ser um bom ouvinte;
- começar a entrevista com alguma confiança, independendo do seu nervosismo, o que não significa ser impetuoso. Mas, a confiança se deriva da segurança calma do entrevistador e o entrevistado achará agradável a atividade;
- considerar que a entrevista não é uma simples conversa, mas sim uma pseudoconversa. Portanto, deve existir todo o calor e troca de personalidade de uma conversação com a clareza e a orientação de uma pesquisa científica;
- começar se apresentando e dando uma rápida explicação sobre a pesquisa;
- tranqüilizar o entrevistado a respeito das perguntas, pois ele pode achar que o questionário é difícil e não está preparado para responde- la;
- ter um cartão oficial da empresa que o identifique e mostre que o seu trabalho é científico.
2.3.3 A realização da entrevista
Existem vários tipos de entrevistas que podem ser classificadas de diversas formas, entretanto uma variável mais simples para classificá-las é a profundidade da entrevista, a qual depende da natureza do objetivo da pesquisa. Deste modo, se a pesquisa tentar investigar processos sócio-psicológicos, ela terá um caráter quase psiquiátrico, ou seja, será “não-dirigida” e o entrevistador deverá abster-se de fazer quaisquer comentários ou questões orientadoras fazendo apenas comentários como, por exemplo, “continue”, ou um simples gesto de simpatia.
Os tipos de entrevistas podem variar de extremamente longa e intensiva, que busca aspectos íntimos da vida do informante, até a simples constatação da opinião de eleitores. Naturalmente, “realizar a entrevista” tem um sentido bem diferente para cada tipo de entrevista.
Entretanto, até mesmo nos caso de entrevistas estruturadas o entrevistador deve ter alguma habilidade para propor as questões. A seguir, destacamos alguns aspectos importantes para a condução de questionários numa entrevista de acordo com GOOD & HATT (1979):
1) o processo de realizar a entrevista deve ser dirigido pelas questões de uma maneira que se aproxime a uma conversação, introduzindo aqueles itens que são o principal objetivo da pesquisa;
2) é sempre útil introduzir frases apropriadas de conversa, bem como comentários introdutórios ao próprio questionário, principalmente quando as questões são curtas e feitas de modo abrupto;
3) evite os seguintes itens: ler rapidamente as questões sem fazer pausa entre elas; interromper as respostas logo que obtiver a informação necessária; fazer transição entre áreas de questões sobre assuntos diferentes e terminar a entrevista sem fazer comentários, pois, depois de ter obtido a última resposta verificará que toda a inter-relação pareceu forçada, irreal e emocionalmente insatisfatória para os dois lados;
4) geralmente, a pesquisa depende da boa impressão que o entrevistador provoca no informante.
É importante ressaltarmos que às vezes é necessário utilizar questões de verificação para confirmarmos uma resposta do entrevistado ou para fazer com que ele responda mais claramente o que você está perguntando. Além disso, se o informante permitir, pode ser muito útil gravar a entrevista para uma posterior análise, visto que muitas vezes o registro manual da entrevista pode deixar passar algumas informações valiosas. Por fim, sempre o adeus deve ser acompanhado por uma expressão de agradecimento em reconhecimento à generosidade de tempo a atenção do informante.