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Dentro ainda do tipo de avaliação que se poderá considerar conflituante, a dinâmica da nacionalidade portuguesa-identidade pessoal apresenta, em António Manuel Couto Viana e Manuel Alegre, uma dimensão particularmente interessante, perante a qual ocorre pensar numa circularidade entre o “Eu” e o seu referencial (Portugal). Efectivamente, estes dois autores como que assumem uma responsabilidade pessoal no estado actual (tendencialmente negativo) de Portugal: seja pela quota parte na “limitação” de que Portugal é vítima (Couto Viana), seja no aconselhamento que lhe evite o sofrimento e desorientação, seja no corpo que metaforicamente se oferece como “nova estrada” a abrir (Alegre).

No poema intitulado Prisão de cristal, Couto Viana, mais que olhar-se no espelho Portugal, olha com os “olhos de Portugal” que lhe devolvem afinal a sua própria imagem. E, por que o autor se não aventura em “mares revoltos e sem fim”, assim resta Portugal, retido e prisioneiro, qual “aquário” de “bom senso tutelar”, em estreitos “limites” pessoais dos eus que o constituem (ANT, p. 29) 73.

Manuel Alegre como que fecha um ciclo de identificação. Qual Eu emancipado do seu modelo e perante um Portugal ferido e de rumo perdido, oferece-se a si mesmo, como guia e abrigo, para que, repousando na sua interioridade, Portugal se possa reencontrar. O pedido de acolhimento de filho-pródigo à Mãe-Povo, de Carlos Queiroz, é, em Manuel Alegre, transformado no seu contrário: agora é o Eu do autor que

suas vocações, os seus timbres, (...) Não nos inibamos, pois, com as nossas sublinhadas modéstias em quase tudo, de tanto que nos fomos autoflagelando com o menosprezo (...) De qualquer modo, a única via para avaliarmos os outros e, através deles, nos avaliarmos também, é a convivência sem complexos. E entre os benefícios que ele nos presta não se ponha de lado a clara identificação do que somos e os estímulos que dos outros iremos colher. O da fraternização, só por si (nós, povo sensível, com o mundo nos olhos, franqueado no receber e sem sobrancerias), bastaria para que não adiássemos essas jornadas de comunicabilidade – que na fase resgatadora em que estamos, contribuiria para a necessária mobilização colectiva.” (ANT, p. 52).

73 “Meus olhos de Portugal, / Vós reflectis minha sina: / Mares estáticos, dormentes, /

Tendes o brilho do sal, / Verduras d’alga marinha, / Por detrás do aquário das lentes. / (...) /

Amo o perigo e a aventura,/ Sonhados, num sono quieto, / À noite, sob os lençóis: / Não há audácia ou loucura, / Todo o mundo é descoberto, / Resta dormir em heróis. / (...) / Meus olhos

de Portugal: / Vós bem quereríeis ser / Mares revoltos e sem fim... / Mas prendi-vos num cristal, / P’ra melhor poderdes ver / Os limites que há em mim.” (ANT, p. 29).

CAPÍTULO 4 - O povo português e os Portugueses no discurso erudito 121 materniza Portugal para a construção de um novo ciclo – o ciclo do regresso a casa (ANT, p. 46) 74.

Síntese

No conjunto de textos apreciados encontraram-se elementos referentes à imagem de Portugal, às características nacionais, sua estruturação e comparação com características de outros povos. Em alguns textos os autores analisam a identidade portuguesa no quadro da sua identidade pessoal.

O nosso principal objectivo consistia em averiguar qual a importância das características afectivas na representação dos Portugueses segundo o discurso erudito e, como resultado global, há a referir que não só se registou a atribuição de características afectivas aos Portugueses como a componente afectiva se apresenta como a que reúne maior consenso entre os diferentes autores.

Relativamente a este objectivo e aos vários pontos da análise efectuada considera-se de interesse resumir a informação obtida, salientando os aspectos que a seguir se indicam.

1. Portugal é um objecto ambiguamente representado – contingente (aspectos acidentais) e essencial (princípio abstracto) ou objectivado em formas antropoformes: masculino (antigo, heróico, humano) e feminino (bondoso, misterioso, simples, materno) –, estimulando fortemente a emocionalidade dos autores (Barros, Queiroz, O’Neill, Mello).

2. A existência de uma comunidade humana portuguesa e de uma “consciência nacional” são claramente afirmadas: apesar de se referirem contrastes regionais, estes são o resultado de circunstancialismo histórico- geográfico − Portugal primitivo e Portugal dilatado (Nemésio) −, não impedindo a diversidade regional que se tenha constituído um vincado “carácter nacional” (Monteiro, Brandão, Cortesão, Moura e Sá, Pessoa).

74 Ciclo a que Alegre se refere do seguinte modo: “Povo que foste ao mar onde colheste

/ teu fruto amargo: pátria de sal / E o mal é este: / Procuras pelo mundo o Portugal / que em Portugal perdeste. // Canta dentro de mim descalça e nua / conta-me tudo quanto te fere. E a / dor da Ibéria / ceifa-a ceifando o pão azul da lua / que é o pão da miséria. // Abre dentro de mim a longa estrada. / Teu coração navio ou asa / teu braço o arado tua mão a espada / vamos: é tempo de voltar a casa.” (ANT, p. 46)

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3. No campo semântico das características nacionais identificaram-se como itens principais (empregues por maior número de autores) os seguintes: universalistas, amantes/amorosos, duais, saudosos, impulsivos, rurais, adaptáveis, emotivos, espírito crítico, humanos, imaginativos, plásticos, poetas, simpáticos. Relativamente à delimitação do núcleo central da representação do Português, e salvaguardando dificuldades metodológicas oportunamente referidas, será de admitir que entrem na sua constituição os os itens adaptáveis, afectivos, contraditórios.

4. Em alguns autores do corpus, que se demarcam dos restantes por apresentarem perfis mais elaborados da identidade portuguesa, poderemos obter imagens-síntese, ou seja, descrições do Português organizadas em torno apenas de algumas características que são apresentadas como básicas ou estruturais (Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Jorge Dias, Jaime Cortesão, Francisco da Cunha Leão e José Rodrigues Miguéis). Estas imagens permitem-nos aperceber um fio comum na caracterização da identidade portuguesa, em que surge como paradigma uma complexidade harmoniosa marcada por grande capacidade de adaptação e forte emocionalidade. A referida complexidade será percorrida ciclicamente por duas forças contrárias (centrípeta e centrífuga) e revela-se no quotidiano por um misto de actividade e passividade (sonho e realidade). Em síntese, o Português tende a ser pluralmente definido através de dois ou três principais itens.

5. Como aspectos positivos da identidade portuguesa são de destacar: a complexidade harmoniosa pela tendência a equilibrar características de personalidade e comportamentos (Cortesão); a habilidade para ser-se inteiro, que no geral é habilidade para fazer tudo mas que, expandindo-se, pode tornar-se habilidade para ser tudo (Pessoa); a mistura de sonho e realidade que faz do Português um “sonhador activo” (Dias).

6. A dualidade presente no carácter nacional contém também aspectos negativos ainda que menos evidenciados. Observa-se uma tendência em apresentar os aspectos negativos integrados, como “defeitos das virtudes”, na expressão de Jaime Cortesão, e mais acentuados em certas épocas. Ser plástico, adaptável, a grande virtude nacional, se for excessiva torna-se no principal defeito dos Portugueses. Dois grandes temas mais interrelacionados dominam os defeitos nacionais: o tema da plasticidade - conformismo - disciplina (plasticidade excessiva resulta em conformismo e

CAPÍTULO 4 - O povo português e os Portugueses no discurso erudito 123 disciplina social rígida) e o tema da vontade descontínua - impulsividade - irresponsabilidade social. A falta aparente de responsabilidade social, que decorre de impulsividade e vontade descontínua, tornam o Português individualista. Este individualismo, de “aversão pelo associacionismo”, não significa falta de solidariedade com o próximo; é antes explicável pelo tipo de fraternidade portuguesa: “fraternidade de casa da malta” (Aquilino Ribeiro), e não uma fraternidade legislada, de quadro legal.

7. Um dos eixos de caracterização dos Portugueses é criado através de uma polaridade entre racionalidade e afectividade e evidencia uma tensão entre individualismo e colectivismo: será à razão como quadro legal (limitativo) da acção humana que os Portugueses são avessos, e não à racionalidade na sua componente de razão prática, como capacidade lógica de compreender e actuar no mundo. Outro eixo igualmente identificável assenta na actividade-passividade, enquanto um terceiro eixo estabelece um plano em torno da interioridade-exterioridade (contenção- extroversão).

8. A comparação da identidade nacional com outras identidades nacionais integra-a no conjunto dos povos da Europa, em particular entre os povos do chamado mundo latino-mediterrânico − Espanhóis, Franceses e Italianos − e Gregos (antigos), com os quais em certos aspectos os Portugueses se aparentam e em outros se dissemelham. A nota mais interessante será a conclusão de que são afinal pouco latinos.

9. A hispanidade, como matriz cultural mais definida na identidade nacional, tende a perspectivar Portugueses e Espanhóis naquilo que se poderá considerar como contraste simétrico. Francisco da Cunha Leão usa uma tipologia comparativa em que é a profundidade que dirige os pensamentos e acções dos Portugueses, em que o mundo dos sentimentos e dos afectos revela a sua supremacia.

10. Na experiência pessoal da identidade portuguesa, esta surge para alguns autores como uma referência maior da identidade pessoal cuja avaliação pode ser positiva, conflituante e negativa. Transversal aos diferentes posicionamentos encontra-se o peso do passado heróico dos Portugueses. Na avaliação positiva o passado é integrado, e além de marco fundador projecta no futuro características que se valorizam na identidade pessoal e colectiva; na avaliação conflituante-negativa a grandeza e

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heroicidade do passado cria confrontos de auto-imagem entre o Portugal histórico e Portugal quotidiano. Estes confrontos são expressos de modo diferente: em exaurível sofrimento ou em exorcismo das fraquezas presentes e apelo a nova fase de reconstrução da identidade nacional.

Capítulo 5