Portugal categoria metafísica ou religiosa
Tal como para os autores do corpus anteriormente analisado, Agostinho da Silva refere-se a Portugal como entidade abstracta (“o ser de Portugal”) e também como um objecto constituído por determinados traços culturais e delimitado pelo uso da língua portuguesa. Menos território que cultura, mais Nação que Pátria. Portugal é a cultura portuguesa, na actualidade disseminada no mundo, e os seus limites não são configurados pelo espaço territorial nacional. De acordo com esta concepção culturalista de Portugal, o autor estabelece uma analogia entre Condado Portucalense-
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 135 Portugal e Portugal-Mundo Português, em que Lisboa, como “inspiração oculta”, substituiu Guimarães:
“Portugal está, para o que hoje existe de português no mundo, como esteve para Portugal o Condado Portucalense; e a Lisboa a vejo na posição de Guimarães: nada impede que seja amanhã outra a capital do mundo português; mas, como são ainda hoje Guimarães e o Condado, mesmo quando nisso se não pensa, a inspiração oculta de Portugal, espero que sejam Portugal e Lisboa a inspiração oculta do mundo português.” (ob. cit., p. 17).
A língua portuguesa será a substância estruturante deste futuro Portugal ou mundo português; no que, assumidamente, o autor se irmana a Fernando Pessoa e em que o tratamento que, neste contexto, Agostinho da Silva dá a Pessoa, transcende o respeito e a simpatia pelo poeta-pensador, sendo antes reconhecimento e sagração da sua obra como mito fundador do Portugal-futuro:
“como sua pátria a língua portuguesa, tanto era Pessoa lisboeta como de São Luís de Maranhão, e o era sobretudo de um futuro sonhado, (...) tendo podido ser inglês com toda a largura do mundo ao seu dispor, escolheu ser nosso, preferindo por aí, num acerto de inteligência e de instinto, a grandeza do mundo que ainda nos não foi dado; com a simplicidade com que se enche ficha de hotel, escreveu ele que a sua Pátria era a língua portuguesa, e, com a percepção do mistério que um dia encarnará, rogou a Deus que se cumprisse Portugal.” (ob. cit., pp. 13-4).
Sobre o Portugal-futuro, e continuando a delimitar-lhe contornos, Agostinho da Silva acaba por ir além da substancialidade da língua na configuração do mundo português, acabando por defini-lo como uma nova forma de conjugação do humano. Apoiado na observação das características que pelo mundo apresentam os Portugueses ou aqueles que o desejam ser, acaba por definir Portugal como ideia nova ou “forma de ser”, mais “categoria metafísica ou religiosa” do que “categoria social e psicológica” 83:
83 A concepção do ser português por escolha, por assumida identificação, é ilustrada por Agostinho da Silva através de Pessoa. Em ter Fernando Pessoa escolhido a identidade portuguesa faz Agostinho da Silva assentar a grandeza que lhe atribui e a que se refere detalhadamente na obra Um Fernando Pessoa que lhe dedica. Como então escreve: “Quem pode, em raro jogo, escolher o seu País por aí mesmo está escolhendo a sua vida: uma vida que dele mesmo se vai alimentar”. E continua afirmando que, “poderia Fernando Pessoa ter passado inteiramente ao domínio inglês e nele se afirmado como um homem de Império”, não sendo isso que faz bem pelo contrário: “vai deliberadamente confirmar o acaso físico: vai nascer
136 CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras
“quando se procura o ponto de convergência de todas estas atitudes, [dos milhões de portugueses que não falam português e desejam acima de tudo continuar portugueses] principia-se pensando se podemos conservar a ideia de Portugal como o conjunto de povos que falam português ou se a temos de encarar como uma forma de ser, elevada já de categoria social e psicológica a categoria metafísica ou religiosa, forma de ser que apareceria desejável a todo o mundo, e que portugueses, esses agora os povos de língua portuguesa, a todo o mundo deveriam levar.” (ob. cit., p. 20),
Portugueses, povo realista teimosamente sonhador
Não se encontra na Educação de Portugal uma caracterização exaustiva das virtudes e defeitos nacionais, sendo da caracterização do Português atravessando e participando na história que a Educação de Portugal trata. Quando esta caracterização é explicitada surge o paradigma do realista-sonhador e os principais atributos nacionais dispõem-se ao longo da polaridade acção-sonho: “realismo”, persistência, “teimosia”, “audácia”, “sonho”, “intuição”, “melancolia”, certa indiferença perante o desastre ou aceitação deste...
Sendo realistas não chegam os Portugueses a ser cépticos, sendo sonhadores resistem às circunstâncias temporais não absolutizando valores que no entanto consideram fundamentais 84 (Quadro 19). Esta estruturação
da identidade portuguesa, afasta-a do quadro civilizacional europeu, aproximando-a do quadro cultural do Oriente, naquilo que o autor designa como “filosofia vivida” (ob. cit., pp. 17 e 67-8).
português (...) É como uma justificação e uma explicação deste seu acto fundamental de vida que Fernando Pessoa, pacientemente, vai durante quase duas dezenas de anos escrevendo
Mensagem, sem dúvida a mais importante das suas obras e plenamente emparelhando com Fernão Lopes, Os Lusíadas, D. João de Castro e a História do Futuro na compreensão do que verdadeiramente é Portugal” (Silva, 1988, pp. 12-16).
84 O valor atribuído pelos Portugueses à liberdade está presente em toda a obra e é
referido em diversos contextos como no presente exemplo sobre economia e trabalho: “Português se fez, como toda a gente, para ser economicamente livre e qualquer liberdade lhe significa pouco se não tiver a de estar fisicamente vivo; mas fez-se também, e essa é uma das grandes afirmações do Brasil, para não considerar que o trabalho seja um valor absoluto: o trabalho é apenas uma desagradável necessidade enquanto nos não é possível viver em tempo todo livre.” (ob. cit., p. 22).
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 137 Quadro 19: Portugal persistente: principais características
Realismo
“a figura do cábula, que pode ser romântica, não é por isso mesmo, de portugueses, povo realista, quaisquer que sejam as invenções do fado que lhe inventaram e impuseram” (ob. cit., p. 52).
Sonho
“realista ainda na teimosia de fazer que o sonho se torne verdadeiro e na contínua intuição de sua lírica de quanto é frágil toda a beleza de um mundo feito de tempo e espaço.” (ob. cit., p. 52).
Audácia e aceitação do destino
“não nos contentaremos para alvo com a doméstica sensatez que nunca foi, no melhor, característica dos portugueses; é certo que Portugal jamais queimou navios para se impedir a volta; ficará tal feito ao castelhano; mas ardiam os homens no lhes ser indiferente voltar ou não se os cálculos falhassem.” (ob. cit., p. 67).
Persistência e melancolia
“os emigrantes que desaprenderam a sua língua (...) continuam portugueses, de coração ou de direito, com a mesma persistência e a mesma melancolia que em suas terras natais de seus avós herdaram” (ob. cit., p. 20).
Portugal-futuro, Portugueses do futuro: representações
A dimensão messiânica percorre repetidamente a caracterização de Agostinho da Silva do Portugal-futuro e dá sentido às acções a realizar pelos Portugueses. Messianismo que, perante os conteúdos e pressupostos apresentados pelo autor, se poderá qualificar como messianismo humanizado.