Uma diagnose, como qualquer avaliação, só faz sentido se, registrados e analisados os dados, iniciar-se um movimento de revisão das estratégias utilizadas, por meio de um planejamento que tenha por base a interpretação desses dados, a consciência da necessidade de rever estratégias, e a discussão coletiva de possibilidades de ações diversas das anteriores ou aprimoradas a partir das anteriores, com a finalidade de ensinar bem o essencial a todos e a cada um dos alunos que estão so0b a responsabilidade da escola.
Ao olharmos os resultados da Provinha Carioca 2017, percebemos que há um grande quantitativo de alunos situados nos níveis 1 e 2 das escalas de desempenho de Leitura, Escrita e Matemática, como se vê no quadro a seguir:
DISCIPLINA\ANO 1º ANO 2º ANO
LEITURA 5.753 7.600
ESCRITA 12.798 9.900
MATEMÁTICA 1.375 2.295
São esses alunos que precisam de nosso olhar acolhedor, intensivo e instigador desde o primeiro dia de aula: acolhedor, para que esses alunos percebam que você, professor, acredita e aposta neles; intensivo, porque é necessário fazer esses alunos desenvolverem as habilidades essenciais que ainda não atingiram; instigador, para que você os faça avançar passo a passo em sua aprendizagem.
Como diz Almeida (in: Cartas do Convívio, ano II, nº 5, 2005), “algumas ações de ordem prática podem servir para melhorar a qualidade dos serviços prestados pelo professor:
Observar se o desenvolvimento de hábitos, atitudes e habilidades propostos para serem desenvolvidos pela turma estão presentes nas ações para aquele e daquele aluno;
Resgatar com o aluno os projetos de pesquisa, testes e provas escritos, relatórios, trabalhos em grupos ou individuais, exposições de trabalhos e outras atividades diversificadas que sejam promotoras da aprendizagem significativa;
Organizar rotinas para o aluno ou grupos de alunos com dificuldades, para que ele(s) possa(m) gerenciar seu tempo na aula e na escola para realizar as tarefas, sem perder as aulas que estão em andamento, aumentando, o que faz aumentar suas dificuldades;
Organizar grupos de alunos monitores por assunto em que possam fazer o papel de mediação com os colegas da mesma turma ou até de outras turmas; Determinar “focos de observação” para não perder tempo em questões que
38 Separar materiais que possam enriquecer a recuperação paralela, como
recortes de jornais e revistas, filmes, textos específicos - diferentes daqueles que já foram utilizados nas aulas, para que o aluno tenha vontade de rever aquele tema que não foi absorvido;
Aplicar novas técnicas de ensino para trazer de volta aqueles temas não apreendidos pelo aluno;
Organizar a sala de aula para esses momentos de recuperação paralela, destinando algum tempo, mesmo que pouco, para dedicar “mais tempo a quem precisa mais”, como diz Romão;
Envolver todo o grupo de colegas, alunos e professores, na responsabilidade com aquele que não está bem: o aluno não é somente do professor, é também da turma, da escola, da comunidade. Como cada um pode contribuir para este grupo continuar seu caminho, junto, feliz e contribuindo para a paz e progresso da cidade e do país. Só seremos felizes se todos estiverem felizes; Não esquecer nunca o que diz Luckesi: ‘A avaliação se destina ao diagnóstico
e, por si mesma, à inclusão; destina-se à melhoria do ciclo de vida. Deste modo é um ato amoroso.’”.
Outra possibilidade de ação pedagógica, cujo êxito depende essencialmente de planejamento e do coletivo dos professores, é o reagrupamento, que se pode organizar da seguinte forma: em cada ano de escolaridade, verificam-se as dificuldades dos alunos de baixo desempenho em cada uma das áreas do conhecimento (por exemplo: Leitura, Escrita e Matemática); os professores escolhem, de comum acordo, que habilidades se prontificam a trabalhar com esses alunos, preferencialmente considerando aquelas em que vêm obtendo mais êxito com seus alunos; estabelecem-se as estratégias a serem utilizadas, as quais devem ser diferentes das utilizadas anteriormente; marca-se um dia específico para esse momento de recuperação; neste dia, organizam-se os alunos por suas dificuldades, e não por turma; realizam-se as atividades e, ao final, faz-se a avaliação dos alunos; por fim, os professores avaliam o processo. Sugere-se que a estratégia do reagrupamento seja utilizada a cada quinze dias.
É necessário dar ênfase à questão da infrequência escolar, pois a ausência às aulas interfere negativamente na aprendizagem dos alunos. A escola deve agir preventivamente, conversando com os pais, logo no início do ano letivo, sobre os prejuízos que podem advir de uma infrequência rotineira. E deve agir afirmativamente, seguindo os trâmites previstos na legislação pertinente, abrindo e dando seguimento à FAFE (Ficha de Acompanhamento da Frequência Escolar). Uma valiosa colaboração para evitar a infrequência é solicitar a participação do segmento responsáveis do CEC no sentido de trabalhar junto aos responsáveis cujos filhos começam a faltar seguidamente às aulas.
Outro ponto a ser cuidado é a avaliação, que não pode ser uma finalidade em si mesma; tem de ser um processo contínuo que favoreça a aprendizagem de todos os
39 alunos. Nela, podem ser utilizados instrumentos, como: testes, provas, pesquisas, seminários, trabalhos individuais e em grupos etc.
Na prática, a avaliação se concretiza no uso de diferenciados instrumentos ou procedimentos:
a) provas e testes: a prova abrange vários conteúdos e ocorre ao final de uma unidade ou de um bimestre; o teste verifica um conteúdo específico e acontece ao final de um assunto. Ambos exigem alguns cuidados: cobrança do que é essencial (não é para fazer “pegadinhas” ou castigar a turma); clareza no enunciado das questões; variação no tipo de prova ou teste (não fazer só de múltipla-escolha, mas usar questões abertas e até oportunizar uma prova ou teste discursivo); atenção à correção (verificar se a resposta do aluno procede). O professor não pode deixar de fazer a devolutiva da prova ou teste, discutindo com os alunos seus resultados e aproveitando para perceber que raciocínio os alunos utilizaram, especialmente quando erraram. Esta ação permite ao professor perceber onde deve intervir.
b) pesquisas e trabalhos, individuais ou em grupos: esses instrumentos favorecem que os alunos estudem. Mas é preciso lembrar que o professor tem de orientar o aluno sobre como realizá-los: como se organiza um grupo de trabalho; como e onde se pesquisa determinado tema; como se fazem resumos e se marcam citações; etc. É importante mostrar ao aluno que não se deve copiar tudo, mas buscar colocar com palavras próprias o que se aprendeu com a leitura.
c) observação sistemática: é acompanhar o desenvolvimento do indivíduo em sua totalidade, o que requer atentar, dentre outros, para os seguintes aspectos: busca e interpretação de informações; leitura, compreensão e produção de textos nas diversas áreas do saber; desenvolvimento da criatividade; demonstração de postura crítica; aquisição de uma escala de valores; atitudes de respeito pelo semelhante; percepção da importância do coletivo; demonstração de iniciativa nos trabalhos; desenvolvimento de hábitos de estudo.
A observação deve ser atitude permanente do professor, que precisa planejá-la com muito cuidado: a quem observar/o que observar (objeto de investigação: um aluno? uma dupla? um grupo? uma atividade?); quando observar (contexto específico: durante a aula? no recreio? numa atividade extraclasse? no CEST? Etc.) e para que observar (objetivos definidos: para verificar que conhecimento já domina? para perceber possibilidades? para identificar dificuldades? para compreender que relações estabelece e como o faz? para entender o raciocínio que o aluno usa para chegar a determinado resultado? para perceber a autonomia com que realiza uma atividade? etc.). Definidas estas questões, parte-se para o como observar (formas de registro: relatos? breves tópicos? fotos? desenho? filmagem? etc.).
40 d) autoavaliação dialógica: Considerando-se que cada ser humano é uma singularidade, mas também se constitui no social, propomos a autoavaliação dialógica que, num primeiro momento, exige de cada indivíduo uma avaliação de si mesmo e do trabalho que executou, e, num segundo instante, um diálogo franco sobre os pontos convergentes e os divergentes, para se perceber como se desenvolveu o fazer pedagógico até determinado momento e quais as decisões para seu aperfeiçoamento.
Tal procedimento é importante momento de crescimento para o aluno e para o professor, parceiros do processo ensino-aprendizagem. É o momento em que cada um volta o olhar para dentro de si e busca perceber o quanto cresceu integralmente (não é só a aprendizagem de saberes e procedimentos, mas o desenvolvimento de atitudes, valores e sentimentos) e que dificuldades está encontrando. Mas não basta olhar para si, é preciso ir além e dialogar com o outro sobre o que observou, para que, juntos, encontrem o melhor caminho para esse processo.
Sugerimos algumas questões para iniciar um processo de autoavaliação com os alunos: Como realizam seus estudos? Quais são suas metodologias para estudar? Quais são as memórias de cada aluno a respeito dos conceitos trabalhados em sala? Quais seriam suas solicitações, suas dúvidas? Quais seriam as avaliações dos alunos a respeito das aulas assistidas? Quais seriam os objetivos de cada aluno em relação à escola e à vida pessoal?
Para as turmas em início do processo de alfabetização, sugerimos formar um círculo e propor aos alunos que se concentrem e pensem sobre o que já aprenderam, o que foi fácil e o que foi difícil aprender, sobre que atividades foram mais agradáveis e proveitosas, pedindo sempre que expliquem por quê. O professor também faz esse exercício, pensando sobre o que acredita que os alunos já aprenderam, sobre o que acredita ter sido fácil e o que pensa ter sido difícil para eles aprenderem e sobre que atividades julga que agradaram e foram positivas para a aprendizagem de seus alunos. A seguir, abre-se a palavra, para que os alunos coloquem suas conclusões, permitindo que haja interferências dos demais. O professor deve também manifestar suas conclusões. Para finalizar, estimule-os a fazer propostas para superar o que apontaram como dificuldades e registre isso no diário de classe. E procure atender às expectativas deles!
Para as turmas em processo mais adiantado de alfabetização, sugerimos que a primeira parte da atividade (pensar sobre o caminho percorrido) seja feita por escrito, podendo ser realizada com pequenos grupos. Em seguida, abre-se a roda para a troca de opiniões. Pode-se fechar o trabalho com o registro, por escrito, das decisões tomadas, feito pelos relatores dos grupos.
Ressalte-se o papel da autoavaliação, tanto de gestores, professores e funcionários, quanto de alunos e responsáveis, exercitada de forma dialógica, para o êxito do processo ensino-aprendizagem.
41 e) registro reflexivo: O registro é a construção da memória, favorecendo ao professor revisitar fatos e ideias, refletir sobre eles e gerir melhor seus rumos. É procedimento valioso do qual o professor precisa se apropriar para o aperfeiçoamento de seu fazer pedagógico, pois permite rever todo o trabalho pedagógico desenvolvido com a turma e perceber o desenvolvimento e a aprendizagem de cada aluno. Cabe não só anotar fatos e atividades significativos para o processo ensino-aprendizagem, mas também refletir sobre cada um deles e, em entendendo-os, decidir como tornar esse processo mais efetivo.
Como lemos no fascículo 27 do Caderno do Professor:
“A concepção de registro reflexivo com a qual iremos trabalhar defende a prática investigativa do fazer pedagógico, ou seja, registrar de forma a permitir falar sobre possibilidades de trabalho com os alunos, a partir de observações e ações realizadas no percurso do processo educativo. O registro passa a ter, nesta perspectiva, a finalidade de ajudar o educador a olhar seu trabalho como pesquisador da obra.
O registro em sala de aula, materializado no Registro de Classe, é instrumento valioso, pois permite que todos os profissionais envolvidos no processo percebam como o trabalho com a turma está caminhando e como cada aluno está se desenvolvendo.
O grande desafio é perceber que esse processo de registrar tem de ser o favorecedor do desenvolvimento e da aprendizagem de todos os alunos, pois o compromisso ético e político de todo professor é, se acredita na possibilidade de transformação dessa sociedade caótica que aí está, com o sucesso de todos eles.” (Mateus Fº e Mateus)
O registro deve, de forma crítica e criteriosa: descrever a ação pedagógica; sintetizar as observações sobre os alunos; refletir sobre essa ação; trazer as decisões sobre os rumos dessa ação; reorientar o planejamento, de forma a permitir a intervenção efetiva no processo ensino-aprendizagem.
Reafirme-se, por fim, que “o papel do professor é fundamental: seduz seu aluno para a conquista do conhecimento, estabelece um diálogo franco, é mediador da construção do conhecimento e assume o compromisso com a aprendizagem, fazendo de sua aula um momento prazeroso e abrindo horizontes na vida de seus alunos.” (Mateus Fº, Antonio e Mateus, Sandra, 2000)
Cabe ressaltar o compromisso ético e político do professor com a permanência e o sucesso de seus alunos na escola. De todos os seus alunos!
Antonio Augusto Alves Mateus Filho
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