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Entre os séculos XI e XIII surgiu uma literatura popular com expresssão laica que se opunha á cultura empreendida pela Igreja. Estava limitada as propriedades feudais, onde a população movimentava-se apenas nos tempos em que havia guerra ou nos períodos de peregrinação.

Na Europa da Idade Média houve deslocação de muitas pessoas durante as cruzadas ou por motivo de peregrinação para a Santa Sé em Roma, a Terra Santa em Jerusalém e Santiago de Compostela na Espanha. Era comum nesses lugares com forte expressão populacional a presença de andarilhos que também eram poetas.

Houve deslocamento de grandes aglomerados humanos no século XVI com as grandes navegações que almejavam chegar ao novo mundo. Muitos se reuniam na região de Provença na França antes de atravessar o mar. Havia também pessoas reunidas na Lombardia, região italiana e na Galícia, território da península Ibérica, que ao se prepararem para as longas viagens, aguardavam os poetas andarilhos que tinham a função de narrar determinados acontecimentos e cantar poemas mediados pelos feitos dos navegadores.

Segundo Diegues Júnior (1973) a literatura popular era produzida por menestréis e trovadores que divulgavam a cultura de regiões específicas, que versavam sobre a vida dos monarcas, histórias de cavalheiros e notícias dos santos e milagres por eles realizados. Durante as cruzadas os europeus tiveram contato com a cultura árabe e os poemas ganharam versos mais ricos.

Tais poemas populares passaram a ser impressos em livros bem pequenos por volta de 1450, quando houve o surgimento da imprensa. Com papel de péssima qualidade, conseguiam preço acessível a uma população de baixa renda.

Na França, a cidade de Troyes ficou famosa em 1483, por publicar folhetos e ‘almanacs’ populares ou literatura de ‘Colportage’, vendidos por ambulantes, principalmente nas aldeias camponesas. Além da produção francesa, essa literatura também foi encontrada na Inglaterra, ‘chap-book’, as baladas, na Espanha, o ‘pliego sueltos’; em Portugal, a Literatura de

Cordel (BENJAMIN, 1980. p 170).

Durante o século XVI, os europeus na busca pela expansão marítima exigida pelas práticas mercantilistas, utilizaram inovações perante a tecnologia e novos conhecimentos científicos. O continente americano foi conquistado e colonizado para atender a política pregada pelo Estado Moderno, que tinha a pretensão de conquistar novos mercados para alimentar seus interesses econômicos.

Portugueses e espanhóis marcaram a América, através da dominação econômica, política e imposição de traços culturais. Através deles, a Literatura de Cordel chegava ao Novo Mundo com as funções de informar e sociabilizar.

3.2.1 A Literatura Popular nas Américas e a sua chegada ao Brasil

As colônias receberam heranças culturais não apenas com a literatura popular, mas com festas, músicas e danças, que se difundiram e misturaram-se com

os elementos culturais das etnias africanas e diversidade indígena, ganhando assim novas temáticas.

Na América do Norte há registros nos chap-books ingleses (livretos de literatura popular) de lendas e contos que, eram transmitidos oralmente em algumas regiões do Canadá e dos Estados Unidos. No México havia os famosos corridos, poemas impressos em folhas avulsas.

Em alguns países da América Central como Porto Rico, a poesia popular produzida assemelha-se à Literatura de Cordel brasileira. Já na América Andina, a literatura popular confunde-se com a maneira como é difundida a cultura indígena local.

Em alguns países da América do Sul, a maneira como a literatura popular apresenta-se, faz com que esta apresente importantes funções sociais. Como exemplo Venezuela, Colômbia e Chile, onde esta é chamada de poesia criolla. “Na Argentina e Uruguai, as payadas, uma espécie de repente, que apresentam traços da poesia popular do sul brasileiro, têm a produção oral maior do que a escrita, cuja reprodução ainda acontece nessa região”. (LUYTEN, 1984, p. 23).

Como já foi observado, durante o século XVI, os desafios, os romances e as cantigas da literatura popular foram disseminados na América, inclusive no Brasil através dos europeus. Conforme estudos de Diegues Júnior (1973) “A presença da literatura de cordel no Nordeste tem raízes lusitanas; veio a nós com o romanceiro peninsular, e possivelmente começam esses romances a ser divulgados, entre nós, já no século XVI trazidos pelos colonos em suas bagagens”.

O Cordel tornou-se uma manifestação comum na colônia portuguesa, principalmente na região Nordeste, onde se tornou meio de comunicação de um povo marcado pela miscigenação e ao mesmo tempo discriminação, uma vez que o modelo hierárquico da sociedade era pautado pela família patriarcal, branca, que vivia nos engenhos de açúcar ou nas fazendas de gado, submetendo os negros vindos da África a escravidão e dominando terras indígenas.

A comunicação com as áreas urbanas demorava dias, o que favoreceu a propagação de manifestações através da oralidade e o surgimento de repentistas que cantavam através do improviso.

O Cordel prolifera-se como uma manifestação escrita, tratando dos mais variados assuntos: histórias de amor, santos, milagres, conflitos de cangaceiros contra coronéis e atualidades. Segundo Amaral:

A literatura popular escrita é consumida pelo povo que não sabe ler direito, mas que tem carência de comunicação e sente necessidade de se manter informado do que está acontecendo não somente no seu mundo municipal ou nacional ou internacional (1976, p. 12).

O autor referido acima verificou nos seus estudos sobre o folclore que nos interiores nordestinos, havia os indivíduos que liam os folhetos para grandes rodas de pessoas e este tinha a missão e preocupação de informar os acontecimentos com riqueza de detalhes e veracidade.

Quando um jovem era alfabetizado, este já sabia que teria que ler os folhetos nos alpendres das fazendas ou nos círculos que se formavam nas bodegas, para um público atento e interessado em debater o assunto, repudiando-o ou defendendo-o.

A Literatura de Cordel transformou-se também no lazer de uma população não alfabetizada, que ficava entretida com os “causos” e as anedotas apresentadas nos folhetos.

Lidos à luz dos fifós fumacentos nos alpendres das fazendas, nas bodegas ou nas casas onde alguém está feqüentando a escola rural, mais próxima, após um longo dia de trabalho, os folhetos desde que surgiram na região constituíam também o lazer dos que viviam divorciados do progresso e da tecnologia (SOUTO MAIOR, 1981. p. 89).

Figura nº 09: Capa do Cordel “A peleja do aluno brigão com o aluno estudioso”, de autoria de Antonio Carlos de Oliveira Barreto

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