• No results found

The OfD and civil society

In document R 2012: 5 (sider 11-18)

1. Introduction: NPA and “Oil for Development” – an overview

1.1 The OfD and civil society

Nesta pesquisa parto do pressuposto de que a realidade não é um fenômeno externo que buscamos desvelar por meio de nossos aparatos científicos. Trata-se de algo construído e reconstruído ativamente. Para descrever esse processo, parto da noção de heterogeneidade material de redes de atores humanos e não humanos com base em uma ontologia relacional7 (CORDEIRO; CURADO; PEDROSA, 2014).

7 Esta pesquisa tem caráter descritivo, pois reflete sobre como novos atores geram

turbulência, produzindo alterações tanto na relação das pessoas com a natureza como na própria natureza. Portanto, constitui-se como uma crítica à noção cristalizada de modos de vida pantaneiro. Para sustentar esta tese, me inspiro na postura construcionista que tem como pressuposto básico a ideia de que o conhecimento é socialmente construído. Temos, então, de acordo com Gustavo Castañon (2004), as principais características ontológicas e epistemológicas do construcionismo social como sendo: o construtivismo social, o antirrealismo, o antirrepresentacionismo, a fragmentação, a não neutralidade científica. 1) O construtivismo social nega a busca por uma verdade última e objetiva. Ao contrário, alude que todo conhecimento emana das interações sociais. A posição ontológica do construcionismo é de que não há realidade objetiva a ser descoberta; o que há são movimentos de construção de teorias que buscam compreender o funcionamento do mundo de forma ativa, porém sempre por meio da interação social. 2) O antirrealismo afirma que a produção de conhecimento ocorre por meio da linguagem. O construcionismo não nega a existência da realidade, mas entende que aquilo que entendemos por realidade é produto da linguagem. 3) O antirrepresentacionismo nega a estabilidade entre as palavras e o mundo a que elas representam; a linguagem seria apenas um convencionalismo. O significado não se baseia nos objetos, nos processos mentais ou em entes ideais. O significado das coisas só pode ser construído por meio das interações sociais com outras pessoas. Portanto, fora da linguagem não há como compreender o mundo objetivo. Essa compreensão depende dos jogos de linguagens situados histórica e culturalmente. 4) A fragmentação é a crença de que a realidade não é estática e aponta para a fluidez da experiência. A realidade é, ao contrário, a junção de elementos e eventos desconexos, sempre em processo de mudança. As pessoas são vistas como um conjunto complexo de eventos desintegrados. Decorre desse pressuposto a ideia de que o conhecimento deve voltar-se para as experiências específicas e locais, em detrimento da busca de leis gerais e universais. 5) A não neutralidade entende que a necessidade da neutralidade do conhecimento científico para a compreensão da realidade é um mito. As explicações do funcionamento do mundo só podem ser acessadas por meio de práticas sociais. Nesse sentido, não cabe perguntar sobre como o mundo é, mas sim questionar como o mundo deve ser. A questão deixa a arena epistemológica e passa a ser política. Por esse meio, o construcionismo desloca a preocupação de se justificar como prática científica para ocupar-se das práticas questionadoras e transformadoras da sociedade. Sem maiores pretensões,

A noção de redes heterogêneas é proposta para ressignificar a concepção de “social” tão utilizada pela psicologia social. Social passa a ser uma rede heterogênea, constituído não apenas de humanos, mas também de não humanos, de modo que ambos devem ser considerados. Assim, redefinir a noção de social implica em reconhecer as associações entre atores diversos, dentre os quais se encontram as materialidades: objetos, artefatos técnicos, máquinas; e materialidades vinculadas ao campo natural: animais, plantas, elétrons (TIRADO; DOMÈNECH, 2008). Igualmente, podemos pensar a noção de social a partir de três ideias centrais:

1) Os não humanos desempenham um papel ativo na definição e manutenção de nossas sociedades e relações sociais. Eles são atores, e não simples portadores de significado, no estabelecimento de associações;

2) A sociologia deixa de ser uma ciência do social para converter-se na ciência que rastreia e sinaliza os modos em que se produzem as associações nas quais nos vemos implicados na nossa vida cotidiana;

3) O resultado dos mencionados conjuntos heterogêneos de associações recebem a definição de coletivo frente à clássica etiqueta de “sociedade” (TIRADO; DOMÈNECH, 2008, p. 188, [tradução nossa]).

Vale ressaltar que “[...] os não humanos não são objetos e menos ainda fatos. Eles aparecem primeiro como entidades novas que fazem falar aqueles que se reúnem em torno deles, e que discutem entre si, a seu propósito [...]” (LATOUR, 2004, p. 128). A título de ilustração, podemos citar o workshop sobre os efeitos da instalação de usinas hidrelétricas, realizado durante a VIII Conferência Internacional de Áreas Úmidas, em 2008, na cidade de Cuiabá; o I Simpósio sobre eventos climáticos extremos no Pantanal, realizado, em 2013, na cidade de Campo Grande (MS); e a Conferência Bioma Pantanal, promovida pelo Projeto Biota-Educação do Fundo do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em 2013, na cidade de São Paulo.8

ensejo narrar a ebulição das transformações no cenário pantaneiro. Não há, portanto,

uma versão verdadeira a ser desvelada pelo pesquisador, porque, assim como a natureza, as experiências também estão em constantes transformações. E aquilo que foi cristalizado hoje como verdade, amanhã pode não ser mais. Tão dinâmicas quanto as águas são as formas de existência encarnadas na relação com a natureza, bem como as distintas maneiras de contar essas histórias.

8 Em 2013 a Fapesp organizou um ciclo de conferências denominado Biota-Fapesp

Educação, no qual o bioma Pantanal teve espaço de discussão. O evento reuniu pesquisadores, professores e estudantes de todo o Brasil, os quais puderam dialogar sobre temas transversais ao referido bioma. Na ocasião, alguns pesquisadores e estudantes divergiram, mais uma vez, quanto à caracterização do Pantanal.

Nessa esteira, também não faz sentido separarmos os(as) pantaneiro(as), os animais, as plantas. Se abolimos toda e qualquer forma de dicotomia, só nos resta agora passar ao segundo momento: conectar humanos e não humanos na rede heterogênea.

Atenção! Como nos alerta Bruno Latour (2004), não se trata de reunir humanos e não humanos. Mas de buscar suas associações. Nesse sentido, é necessário entender os pantanais como uma rede heterogênea. Ou seja, pantanais são efeitos de uma série de associações entre humanos e não humanos. Portanto, estamos afirmando que só é possível entender o modo de vida pantaneiro e os novos atores que estão agindo nesse cenário se seguirmos seus rastros e considerarmos as materialidades que compõem essa rede, dentre as quais os rios, os animais, as casas, os alimentos, os barcos, os peixes. Minha tarefa como psicólogo social é caracterizar essa rede em sua heterogeneidade. Segundo John Law (1992), o argumento é radical porque não teríamos uma sociedade se não fosse pela heterogeneidade das redes do social. O social também inclui, em sua composição, as materialidades.

Law (1992) nos dá um exemplo. Imagine que eu e você conversássemos por meio de textos digitados em um computador, apesar de nunca termos nos conhecido. Essa conversa é mediada por um computador, papel, componentes imagéticos etc. Igualmente, é medida por redes de objetos-e-pessoas, como no caso das cartas enviadas pelos correios. Se os humanos formam a rede do social, por acaso não é só porque interagem com outros humanos, mas, muito provavelmente, porque também se relacionam com humanos e não humanos.

Enquanto os palestrantes defendiam que o Pantanal era um bioma, parte da plateia

criticava os expositores e a Fapesp pelo suposto equívoco, empilhando teorias com o intuito de descaracterizar o Pantanal enquanto tal. O posicionamento dos organizadores do evento foi na direção de reconhecer que existem diversas teorias sobre o Pantanal, e que todas elas precisam coexistir para o progresso da ciência. Tal postura me pareceu a mais adequada, porém esse argumento não agradou aqueles que reivindicavam o status de conceito científico universalmente aceito. Ademais, nos parece que a maioria dos(as) pesquisadores(as) brasileiros(as) e as principais instituições de pesquisas, dentre as quais a própria Fapesp, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária do Pantanal (Embrapa Pantanal) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reconhecem o Pantanal como bioma. Porém, não nos parece prudente o alinhamento com quem quer seja em defesa de um status para a região pesquisada. Ao contrário, a desestabilização conceitual, decorrente de tomá-lo como um sistema complexo, cujos elementos parecem transgredir as delimitações geoespaciais que teimam em cristalizá-las enquanto “uno”, é a melhor escolha.

Essa postura radical em relacionar humanos e não humanos, muitas vezes, recai em críticas que acusam a teoria ator-rede9 (TAR) de igualar pessoas e objetos. Vale ressaltar que a TAR é uma abordagem sociológica analítica. Nesse sentido, cabe esclarecer essa recorrente confusão entre postura analítica e ética. Para Law (1992, p. 4-5), “[...] o que conta como pessoa é um efeito produzido por uma rede de materiais interativos e heterogêneos (...) [ou seja] pessoas são o que são porque elas são uma rede ordenada segundo certos padrões de materiais heterogêneos.”

A questão do materialismo relacional está presente em outras abordagens sociológicas, como no marxismo e no feminismo. Entretanto, nesses estudos, tende-se a tratar humanos e não humanos de forma distinta, enquanto a TAR busca apagar essas divisões analíticas entre agenciamento e estrutura, entre o macro e o micro social. De forma semelhante, propõe tratar as materialidades, tais como humanos, máquinas, ideologias, desigualdades, poder etc., como produtos ou efeitos de ordenamentos heterogêneos e não como causa primitiva (LAW, 1992). Se quisermos entender os modos de vida pantaneiros, devemos compreender também suas práticas, as associações entre pantaneiros e a natureza e os efeitos produzidos por essas associações.

In document R 2012: 5 (sider 11-18)