Um dos objetivos de iniciarmos com a (re)leitura das partes mais marcantes da narrativa é oferecer uma sinopse que auxilie na compreensão do contexto geral da obra e, concomitantemente, fazer um primeiro levantamento de questões relevantes a sua interpretação crítica.
Lembrando que a capa busca sintetizar em poucos elementos a essência da obra na capa, a imagem da capa < Figura 8a > possui um sentido de profundidade, sendo composta por camadas de imagens-informações. No plano de fundo, sobre um foco de luz branca, está a cruz suástica, símbolo máximo do nazismo, sobre e dentro dela, em plano intermediário, está Hitler estilizado como gato e, mais próximos do leitor, estão pai e filho, com olhares de medo e espanto, representados como ratos em roupas desgastadas. Colorida de vermelho sangue, a fonte do título está sobre a suástica e dialoga com seu estilo, assim como sua escrita borrada e manuscrita também remete às inscrições que os nazistas pintavam como marca distintiva das propriedades judias. Mais acima, o subtítulo “História completa” indica que as duas partes, originalmente publicadas em separado ao longo de mais de uma década de escrita da obra, estão
37 reunidas neste volume. Uma tarja informa que o livro ganhou o Prêmio Pulitzer de literatura, chancelando-o como obra literária. Na parte inferior da capa, em cima dos ratos, a assinatura de Art Spielgman, em letra de próprio punho, reafirma a identidade autor-narrador-protagonista e a marca autobiográfica.
A palavra “sobrevivente”, que faz parte do subtítulo, é o principal indicativo da temática da obra, abordando a condição do pai e suas sequelas, mas também referindo- se ao filho indiretamente. A capa não traz o subtítulo oficial (“A história de um sobrevivente”) constante na ficha catalográfica do livro, de modo que a representação zoomórfica de pai e filho, oprimidos sob a face estilizada e ameaçadora de um Hitler- gato, torna-se mais eloquente do que título e subtítulo para comunicar a temática da obra.
A quarta capa < Figura 8b >, por sua vez, situa a história no tempo e no espaço, apresentando o mapa da Polônia invadida pela Alemanha nazista, e de países adjacentes. Sobrepostos ao mapa europeu, lado a lado, o pai que conta ao filho sua história e o mapa da residência da família radicada em Rego Park, bairro de Nova Iorque, situam o presente. Os dois mapas sobrepostos interligam origem e destino, pai e filho. Abaixo deles, aparecem textos que não se conectam diretamente à imagem, reproduzindo críticas publicadas por jornais e revistas, uma estratégia comercial usualmente adotada nas quartas capas para validar a qualidade da obra.
Por fim, os versos da capa e da quarta capa (contracapas), reproduzidos na < Figura 9 >, ampliam a ideia de que esta é a história de um povo, não de apenas um filho que rememora a história de seu pai e de sua família. Nesse espaço interno de destaque, a profusão de ratos, cujo anominato é enfatizado e estilizado pela dominância do cinza e preto, remete à questão do testemunho mudo dos milhões de testemunhas efetivas do Holocausto massacradas e exterminadas como ratos.
O prólogo < Figura 10 > introduz a narrativa situando, fora do requadro, um espaço e um tempo para o começo da história. Em apenas quatro quadros, é fornecida uma grande quantidade de informações, além do mencionado tempo-espaço: pai e filho não se relacionam bem e não se viam há dois anos, ambos estão casados, a mãe de Art suicidou-se, Vladek está doente, envelhecido e casou-se novamente com Mala, uma sobrevivente como ele. Neste prólogo, já é possível observar como se organizam várias camadas de informações: fora do requadro (tempo e espaço), caixa dentro do requadro (retrospecto, circunstâncias), dentro do balão de texto (complemento da ação mostrada pela história). Aqui temos um narrador dramatizado (BOOTH, 1980, p. 169), que adota
38 um ponto de vista simultaneamente próximo e distanciado para fazer uma espécie de sumário retrospectivo e situar a ação.
Na abertura da Parte I < Figura 11 > a metáfora “Meu pai sangra história” conecta-se com o vermelho do título Maus escrito na capa e sugere uma narrativa, pessoal e ao mesmo tempo coletiva, equiparada a uma ferida. Nesta parte composta por seis capítulos, é narrada a trajetória de Vladek Spiegelman (namoros, serviço militar, casamento, acirramento da perseguição aos judeus, estratégias de fuga e esconderijos) até sua captura pelos nazistas.
Há um contraste da abertura desta primeira parte com a da segunda < Figura 12 >. Como na capa, a imagem da abertura da Parte I representa pai e filho ameaçados pelo gato hitleriano à frente da suástica, porém em tamanho reduzido, emoldurado por um amplo espaço em branco. Na abertura da Parte II, que narra quando o nazismo deixara de ser uma ameaça crescente e se tornara uma realidade terrível, já não há branco, tudo é cinzento e corrobora o constante desafio à sobrevivência e o alijamento do ser. Em ambas as partes, há a inserção de trechos do presente em que Vladek narra essa história a seu filho Art Spiegelman, que remetem à questão dos eus que se desdobram.
O capítulo um da primeira parte, intitulado “O sheik” < Figura 13 > prenuncia a história do belo jovem cortejado pelas mulheres que foi Vladek Spiegelman. Uma leitura apenas da imagem levaria a crer no assédio de uma única mulher, mas o título (“O sheik”) deixa claro serem mulheres. O contraste do fundo negro do verbal com o fundo branco da imagem reforça esta contradição.
O capítulo seguinte, “A lua de mel”, aborda essencialmente o casamento de Vladek com Anja, mãe de Art Spiegelman, ocorrido num momento em que a perseguição nazista aos judeus se acirrava. A abertura deste capítulo < Figura 14 > apresenta um traço carregado e excesso de tons escuros. Esse negror, somado ao da bandeira que engloba uma lua (de-mel) marcada pela cruz suástica, prenuncia as trevas que pairam sobre o futuro do casal e de milhões de judeus, não à toa representados na cor preta, na parte inferior da cena. Somente seus olhos e acessórios (colarinhos, alças, colares, chapéu) brancos e discretos, evocam os rastros de humanidade desses sujeitos que se dessubjetivam. O paradoxo é a tônica desse quadro em que palavras e imagens de sentidos opostos se combinam para (re)criar uma ocasião de sentimentos e experiências opostos na vida dos recém-casados: a felicidade matrimonial e a perseguição aos judeus, parodiando o sentido habitual de “lua de mel”.
39 A abertura do terceiro capítulo, “Prisioneiro de guerra” < Figura 15 >, que aborda o período em que Vladek serviu no exército polonês e foi aprisionado, traz informações sobre as circunstâncias da prisão: a captura de ratos (judeus) por gatos (nazistas), que contavam com o apoio de ratos (também judeus) alinhados ao nazismo representado pela suástica.
As imagens de “O laço aperta” < Figura 16 >, capítulo seguinte sobre o acirramento da perseguição aos judeus, relacionam a condição de morte, ao representar o laço do título como uma laçada de forca, e o símbolo judeu da estrela de Davi em destaque. Esta é uma das passagens em que o testemunho mudo do rato atinge extrema eloquência.
A abertura do capítulo “Buracos de ratos” < Figura 17 > sumariza os diversos esconderijos insalubres pelos quais passaram os judeus e retoma a metáfora do judeu como rato, vítima da propaganda ideológica e ação de extermínio em massa dos nazistas (gatos). “A ratoeira”, capítulo final da primeira parte < Figura 18 >, também faz uso da metáfora gatos x ratos para anunciar a captura do casal Spiegelman em uma armadilha. Postas lado a lado, essas aberturas, em analogia com o que ocorre em seus respectivos capítulos, nos possibilitam observar que o negro primeiramente confinado ao buraco de “Buracos de Rato” passa ao exterior que engolfa o casal junto com a ratoeira que se fecha sobre eles “A ratoeira”.
A Parte II, composta por cinco capítulos, narra o confinamento e a estada de Vladek e sua esposa Anja em campos de concentração separados; sua libertação, reencontro e migração para os EUA. Seu título, “E aqui meus (grifo nosso) problemas começaram”, particulariza a história que, ainda assim, pertence a milhões.
O capítulo um da Parte II, “Mauschwitz” < Figura 19 >, sobre a chegada e os primeiros momentos da estada de Vladek no campo de concentração, associa o título do livro, Maus, ao campo de extermínio de Auschwitz, localizado em território polonês anexado à Alemanha. Sob esse título sugestivo, aparece a imagem de um judeu-rato em primeiro plano, com olhar perdido, talvez um muçulmano8, preso entre o soldado armado ao fundo e as grades à frente. A imagem conjuga dois símbolos opostos: a
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É possível compreender a relação entre os sobreviventes e os muçulmanos (grifo nosso) – e por conseguinte o paradoxo da testemunha -, por meio da colocação de Agamben: “As „verdadeiras‟ testemunhas, as „testemunhas integrais‟ são as que não testemunharam, nem teriam podido fazê-lo. São os que „tocaram o fundo‟, os muçulmanos, os submersos. Os sobreviventes, como pseudotestemunhas, falam em seu lugar, por delegação: testemunham sobre um testemunho que falta” (2008, p. 43).
40 estrela de Davi, que o judaísmo adotou para representar sua fé e sua cultura, e a numeração tatuada nos braços dos confinados, tratados como gado, por imposição nazista. Apesar de opostos em seus significados originais, reunidos aqui, eles têm seus sentidos deslocados, marcando, juntos, uma condição de segregação, desapossamento do ser e posterior aniquilamento.
A imagem que abre o capítulo “Auschwitz: O tempo voa” < Figura 20 > é um ponto cuja tragicidade sobressai em relação às demais aberturas: assemelhando-se a uma representação do inferno, apresenta a situação extrema dos judeus não apenas sendo exterminados, mas queimados vivos. O “voar do tempo” do texto conecta-se com o voar das moscas da imagem, acentuando a dramaticidade do conjunto. Aqui, os traços carregados das imagens ficam ainda mais densos ao representarem o campo de extermínio. A figura do rato/judeu em desespero representada em primeiro plano ecoa a tela O grito (1893), de Edward Münch. Como na pintura expressionista que retrata uma figura andrógina em momento de profunda angústia e desespero, a imagem de abertura do capítulo cria a presença de um grito mudo que conseguimos, surpreendentemente, ouvir. Tal figura parece um prenúncio da testemunha dos horrores extremos da guerra, aquela que narra seu destino e o de terceiros por delegação, que narra coisas vistas de perto, mas não experimentadas diretamente (LEVI, 1990, pp. 47-8 apud AGAMBEN, 2008, p 43). Em seu colapso, esta figura parece representar o último esforço de vida de um “muçulmano”, prisioneiro que abandonara as esperanças e fora abandonado pelos companheiros, um cadáver ambulante, feixe de funções físicas já em agonia (AMÉRY, 1987, p. 39 apud AGAMBEN, 2008, p. 49). Do mesmo modo que essas tentativas de presentificação do inapreensível, a verdadeira testemunha é muda, sua voz (in)comunicável foi calada pelas circunstâncias.
O capítulo “E aqui meus problemas começaram” < Figura 21 > ecoa o sentido do título da Parte II. Neste capítulo sobre o cotidiano de sobrevivência e morte em Auschwitz, pés representados andando dão a ideia da continuidade daqueles que sobreviveram e pés caídos lembram os que sucumbiram na marcha pela própria vida.
Ao contrário da abertura do capítulo anterior, marcada pelo preto, na abertura do capítulo “Salvo” < Figura 22 > o branco começa a dominar a página. Este capítulo narra as árduas condições da libertação dos judeus ao término da II Guerra Mundial. Sob o texto, a sobreposição de imagens (bandeira dos EUA, judeus confinados, Vladek com olhar penalizado) compõe uma narrativa visual que resume o capítulo por meio da justaposição espaço-temporal. Ali, o Vladek velho do presente do relato tem, por trás de
41 si, a lembrança da bandeira da nação que o salvou e o acolheu, mas também a recordação daqueles, vivos ou mortos, que estiveram na mesma situação que ele.
A abertura do último capítulo, “Segunda lua de mel” < Figura 23 >, em que predomina a narrativa no presente, remete ao capítulo “Lua de mel” da primeira parte, ambos representando momentos bons na vida de Vladek: primeiro casamento, prosperidade, primeiro filho, segundo casamento, reconstrução da vida nos EUA, segundo filho. O avião que decola, a silhueta da palmeira da Flórida, derradeiro lar de Vladek, aqui substituem a imagem da suástica por vezes representada contra a lua cheia. O avião decola, e decolar é partir: do idílio e para o idílio. Ou, quem sabe, o exílio.