Na virada da década de 90, com a queda do muro de Berlim, a restauração do Leste Europeu e a euforia liberal que se instalaram no mundo inteiro, o interesse pela pesquisa Marx arrefeceu. Até mesmo a edição de suas obras completas foi interrompida, sendo retomada mais tarde. É possível afirmar que um ganho dessa discussão, expressa por Reichelt, Flickinger, Müller, Dussel, Grespan, entre outros28 é de que nos Grundrisse, a estruturação da
obra em torno do “Capítulo do Dinheiro” segue metodologicamente a estrutura das categorias da “Lógica do Ser”, enquanto as determinações do “Capítulo do Capital” correspondem as categorias da “Lógica da Essência”. Todo o movimento dos Grundrisse – e nesse movimento reside sua especificidade e riqueza em relação a O Capital – reside em reconstruir o mundo das mercadorias na circulação do dinheiro, nível superficial dos fenômenos econômicos, e fazer a passagem (Übergang) com todas as mediações necessárias, para o nível essencial. Este segundo nível, o da essência abstrata não está acessível empiricamente, mas deve ser reconstruído pelo pensamento abstrato por meio de conceitos, pela teoria.
A distinção conceitual levada às últimas consequências por Marx entre um plano fundamental de identidade ou essência, e um plano superficial do fenômeno, da aparência, da existência – distinção essa responsável pela separação em dois capítulos dos Grundrisse – correspondem aos dois planos lógicos que Hegel chamara de existência e essência, portanto à “Lógica Objetiva29” Com base nesse quase consenso entre os autores da pesquisa Marx-
Hegel, Dussel declarou:
E mesmo que ele se utilize de alguns conceitos metodológicos não é o Terceiro
28 Especialmente MEANEY, (2004).
29 “A lógica objetiva assume então, muito mais o lugar da metafísica anterior, (…) o ens compreende em si mesmo tanto o ser como a essência, para cuja diferença nossa língua salvou, de modo feliz, a expressão diferenciada” (HEGEL, WdL, 2011, p. 45.)
Tratado sobre o Conceito o que mais importa, mas principalmente o Primeiro tratado sobre o Ser e, especialmente, o Segundo, sobre a Essência. “Essência”, para Marx, é a essência da Lógica de Hegel. (DUSSEL, 2012, p. 35).
Com isso formula quase que um paradoxo: metodologicamente Marx se utilizaria da estrutura lógica da ciência hegeliana, mas para compreendê-lo o que mais importa não seriam os conceitos metodológicos utilizados. A parte da Ciência da Lógica relativa à doutrina do Conceito é a parte subjetiva da Lógica, que se encarrega, depois de expostos a o ser e a essência, de esclarecer como se deu o desenvolvimento do lado do sujeito, sendo, portanto a “Lógica Subjetiva”30. Seu termo e portanto, o acabamento do sistema de Hegel, é a “Ideia
Absoluta”, que “não é tanto um conteúdo como tal, mas o universal de sua forma – isto é, o 'método'” (HEGEL, WdL, 2011, p. 265). É lá que está plenamente formulada a famosa exigência especulativa de que o método não seja exterior ao objeto estudado, diz Hegel:
Por causa disso, o método tem de ser reconhecido como o modo universal, interior e exterior, sem restrição e como a força pura e simplesmente infinita, a qual nenhum objeto, na medida em que se apresenta como algo exterior, distante da razão e independente dela, poderia oferecer resistência, ser contra ele, de uma natureza particular e não ser por ele penetrado. O método é, por isso, a alma e a substância e qualquer coisa é apenas conceituada e sabida em sua verdade ao ser submetida completamente ao método; ele é o método próprio a cada coisa mesma, porque sua atividade é o conceito. (HEGEL, WdL, 2011, p. 265).
A aproximação metodológica entre Marx e Hegel deve passar também por uma exegese comparativa entre “O método absoluto” - último capítulo da Ciência da Lógica e “o método da economia política”, que consta na “Introdução” dos Grundrisse. Apenas com o esclarecimento de até que ponto as metodologias de Hegel e Marx se entrelaçam é necessária uma interpretação da “Introdução” que lance inclusive nova luz sobre as parcas autointerpretações que Marx fez de seus expedientes metodológicos. De fato, Hegel acreditava que todas as coisas e todas as ciências apenas são possíveis pelo método que é a atividade própria do conceituar. Uma vez provada a eficácia de tal metodologia em produzir a crítica da sociedade burguesa, caberia agora investigar a fundo o estatuto da Ciência da Lógica do Conceito do Capital, a partir, mais uma vez, da frutífera relação Marx-Hegel, recolocando algumas questões caras ao estatuto teórico das ciências sociais e históricas.
É evidente que esta empreitada possuí alcance muito maior do que o escopo dessa dissertação. A tarefa que me proponho neste trabalho é mais modesta: produzir um comentário exegético da “Introdução” de 1857, a partir da tradição de comentadores que reconstruímos, a fim de inserir-se como primeira parte do projeto exposto acima de reinterpretação crítica da
30 “A lógica subjetiva é a lógica do conceito – da essência que superou sua relação com um ser ou sua aparência e não é mais exterior em sua determinação”. (HEGEL, WdL, 2011, p. 45.)
tradição dialética com ênfase em seu método. Embora apenas a terceira parte da “Introdução” se refira nomeadamente ao “método”, toda a Introdução possui uma unidade temática justamente nesse problema. A primeira seção – chamada “Produção” - se orienta no sentido de delimitar o objeto. O segundo – “A relação universal da produção com a Distribuição, troca e consumo” - trata das categorias nas quais o objeto aparece. As duas partes se referem, portanto, a delimitação do objeto e às categorias pelas quais o objeto será “refletido”– questões eminentemente metodológicas. O terceiro título - “O Método da Economia Política” - trata, por conseguinte, da síntese desses dois, isto é, da maneira adequada de achegar-se ao objeto por intermédio das categorias. Trata, portanto, da “metafísica” que acontece na economia política, do processo de pensamento que relaciona e reconstrói o real com categorias. Ainda há uma quarta divisão que abarca múltiplos temas relacionados à produção. Portanto, não só toda a “Introdução” é propriamente falando discurso metodológico, como também é este discurso o fio condutor que confere unidade essencial e extrema coerência interna a este curto manuscrito. Propomo-nos a seguir passo a passo as formulações de Marx, seguindo seu pensamento, por vezes titubeante, reconstruindo as questões na medida em que estas aparecem no manuscrito – por isso os títulos dos capítulos seguem as divisões da própria “Introdução” de Marx.
De maneira geral, Marx sempre expõe suas próprias ideias de um modo crítico- reconstrutivo. Isto é, ele representa primeiramente, por meio de uma interpretação da obra de algum pensador anterior, um ponto de vista que logo se mostrará como falso e, a partir da limitação específica daquele ponto de vista anterior, produz sua antítese e assim constrói seus próprios argumentos. Sendo assim, nos propomos a seguir a argumentação de Marx, primeiramente naquilo que chamaremos de contra-argumento, identificar sua localização na história do pensamento e, em seguida, propor uma interpretação da saída que Marx oferece, reconstruindo sua visão científica. Nesse sentido, não apenas Hegel, mas alguns outros pensadores31 aparecerão como referência para compreender a argumentação de Marx.
Analisar a teoria marxiana por essa perspectiva será a tarefa desta dissertação e da pesquisa futura, que deverá se orientar pela crítica ao individualismo e empirismo dos economistas políticos – traço fundamental de seu método exterior ao objeto, bem como na ênfase nas noções de abstração, essência, totalidade, sistema, mediação, dialética e crítica. Apenas
quando houver clareza sobre o sentido desses conceitos, o qual só será desvendado pela reconstituição da exposição de Marx sobre o método que preside sua exposição, será possível manifestar-se sobre a natureza da ciência da crítica do capital e sua justificação metodológica e filosófica. E, consequentemente, sua atualidade para as ciências sociais e históricas e para a crítica do presente. No presente trabalho trata-se apenas da tentativa de reconstruir como aporte provisório, uma interpretação desse método.