Aquele que viaja o faz com o propósito de olhar e ver o que se apresenta diante de si. A viagem pressupõe um olhar que se desloca, que se dirige ao desconhecido, ao outro, à descoberta de espaços e culturas diferentes ou desconhecidas pelo viajante. Ou dessa forma o viajante se posiciona quando se predispõe a empreender uma viagem, pois mesmo que o viajante percorra lugares já conhecidos, seu olhar deve manter esse intento. Por esta razão, quando se fala em escritas de viagem, há sempre que se considerar a questão do ver e ser visto, a relação eu-outro, o próprio e o alheio, num jogo entre a identidade e a alteridade na produção do sentido. Cardoso, no artigo O Olhar do viajante (do etnólogo), afirma que “as viagens revelam inequívoco parentesco com a atividade do olhar” (1998:358) e que
o olhar embrenha pelas frestas do mundo na investigação dos obstáculos ou lacunas que constantemente comprometem a unidade hesitante das significações. [...] Da mesma forma as viagens. Também elas – como o exercício do olhar – têm origem nas brechas do sentido [...]. Compreendemos, portanto, que as viagens sejam sempre experiências de estranhamento. E podemos mesmo observar que está, talvez, neste efeito de distanciamento, de dépaysement [...] que, de um modo ou de outro, sempre envolve o viajante (1998:359).
É certo que as viagens provocam uma mudança de patamar, uma desacomodação e que a atividade do olhar seja constante quando se viaja.
Resta perceber que espécie de distanciamento o viajante experimenta. Já que o termo dépaysement, que pode se referir apenas ao deslocamento físico, pode também indicar o estranhamento, a mudança de ares, a desorientação, o desenraizamento, desterritorialização, desterro.
Cabe indagar de que forma o olhar e a atitude do viajante, situados entre o que é familiar e o estranho, pode captar o outro. Como semelhante como exótico ou como inferior? E como pensar esse distanciamento hoje no contexto de um ambiente homogêneo, do consumo e de comportamentos orientados pelos dispositivos midiáticos? Diversas eram as circunstâncias por ocasião das viagens dos descobrimentos que comumente dimensionam os critérios para o estudo das narrativas de viagem.
Se as descrições dos viajantes europeus no contexto das grandes navegações por um lado viabilizaram o conhecimento da diversidade cultural, a noção de limites e fronteiras, por outro também tornaram mais visíveis os preconceitos e as noções de civilização. Os viajantes europeus, ao enxergarem o Outro através de seus olhos estrangeiros, incutiram seu modo de ver o mundo a todos os outros, globalizando suas concepções, sua cultura. Esse olhar provocou uma hierarquização o que, durante muito tempo, minimizou e desqualificou as visões não-europeias do mundo. Logo, esse olhar estrangeiro possibilita o conhecimento do Outro e, simultaneamente, a manifestação das diferenças e das semelhanças identitárias.
Conforme afirma Otávio Ianni em A metáfora da viagem:
Toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que
demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza quanto universaliza. [...] No mesmo curso da travessia, ao mesmo tempo que se recriam identidades, proliferam diversidades. Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades (1996:3).
Por conseguinte, a escrita de viagem sanciona o conhecimento de elementos que estruturam a formação da imagem do Outro. Se uma cultura se define também por oposição a outras, a representação do outro é inerente a toda cultura. Desse modo a apreensão de novas culturas e espaços inclui a tentativa de compreensão e racionalização do outro segundo os padrões do viajante. Para o que a escrita se torne o suporte tanto para a fixação quanto para a catalogação e a divulgação do outro e desse mundo novo viajado e experenciado pelos viajantes, faz-se necessário que a descrição seja feita comparativamente.
As grandes navegações e seus consequentes relatos é que darão visibilidade a relação eu/outro no Ocidente, pois é, nesse momento de consolidação de estados europeus, que se marcam, pela diferença, as identidades do indivíduo. Ligadas à expansão do capitalismo, as viagens dos descobrimentos demandam novas formas de contato, marcadas, em geral, pela violência dominadora e pela gana exploratória. No artigo Por
que e para que viaja o europeu?, Silviano Santiago, aponta, citando
Camões, a finalidade expansionista e colonizadora dos europeus que aportaram na América.
Camões já nos dizia que se o europeu viajava era para propagar a Fé e o Império, no que tinha muita razão. Mas, em lugar de apresentar os lusos como responsáveis pela colonização de outras gentes, dava a responsabilidade da tarefa aos deuses pagãos. [...] De qualquer forma, a resposta camoniana tem pelo menos uma grande vantagem: não enfatiza o aspecto gratuito da viagem, o da curiosidade pura e simples pelo que lhe é diferente, pelo Outro (SANTIAGO, 1989:190).
Assim, impõe-se à colônia o coercitivo modelo de estado-nacional europeu que objetivava ordenar o “caos da incivilidade”, uma vez que se
entendia a “incivilidade” enquanto (des)valor constitutivo da diferença em relação ao padrão europeu, devendo-se, nesse sentido, domesticá-lo. Santiago acrescenta que a “colonização pela fé e pelo império é a negação do valor do Outro [...] tripla negação dos valores do Outro.” Trata-se da negação da condição de homem livre do Outro não-europeu, do seu sistema religioso e de sua identidade linguística (1989:192-3). Por outro lado, o contato com a colônia, ao mesmo tempo em que impunha um paradigma dito civilizado, faz surgir “tensões na ordem eurocêntrica”, assim “o contato com o outro, reiterava o caráter nacional distintivo.”, segundo Benjamin Abdala Junior (1999:22). Esse esforço de imposição do padrão europeu possibilita, em suas fissuras, a articulação do diferente. E essa diferença propiciava, além do conhecimento do outro, a reafirmação do si próprio (ABDALA JR., 1999:22).
Isso considerado, em se tratando da escrita de viagem, não é possível esquivar-se das questões de identidade e alteridade. E em nosso corpus não se podem escamotear tais questões, visto que, além da presença de um certo olhar estrangeiro, portanto carregado de alteridade, tem-se ainda uma afetividade e uma subjetividade que se encontram na origem dos deslocamentos das viagens. Contudo, é de se considerar que estas só obtiveram consistência enquanto tal, graças ao fato de terem sido representadas sob a forma de relatos, os quais, por sua vez, exprimem as posições políticas, as preocupações existenciais e estéticas, as emoções, os questionamentos resultantes da interação entre as viagem empírica e sua posterior enunciação. Dessa forma, mais que uma condição empírica, o deslocamento contribui para a formação dos sujeitos que, não sendo viajantes comuns, ultrapassam certas classificações, pois sua perspectiva ultrapassa a que faz dos lugares algo como o lugar comum via de regra apreendido pelo turista convencional, sobretudo os que se deixam cegamente guiar pelas agências de turismo.