2 ESTADO DEL ARTE
2.4. OCPP
Embora a experiência médico-associativa no estado do Paraná tenha tido seu pontapé inicial em princípios do século XX, observamos nessa pesquisa que foi apenas entre as décadas de 1920-1930 que pudemos perceber a mobilização intensa no que diz respeito à congregação e confraternização da categoria médica daquele estado. Com mobilização mais intensa queremos dizer que, com a fusão das agremiações Sociedade médica do Paraná (SMP), Sociedade Médica dos Hospitais do Paraná (SMHPR) e Sindicado Médico do Paraná (SINDMPR), a Associação Médica do Paraná, resultante desse processo, procurou, pelas mais diversas vias, interiorizar sua aproximação, presença e legitimidade em diversas regiões daquele estado através, principalmente, da inclusão de médicos correspondentes entre seus quadros de associados e pelo intercâmbio médico-científico com aquelas regiões.
Observamos também que o processo de fusão das agremiações possibilitou a feição tanto de uma associação gestada sob as bandeiras do combate, defesa e amparo da categoria médica como reflexos da posição ocupada pelo SINDMPR, mas também uma agremiação médico-científica como decorrente das outras sociedades que se fundiram: a SMP, SMHPR e o SINDMPR. Tal fusão expressou o encontro de gerações etárias diferenciadas cujos títulos educacionais e origens familiares operavam como parâmetros de consagração social. Neste sentido, sob um discurso classista e de defesa da categoria médica congregaram, na década de 1930, gerações formadas ao final do século XIX e outras no decorrer da década de 1920. Esse encontro geracional exteriorizou conflitos no seio da AMP, como o ocorrido com o médico João Cândido Ferreira em 1934, ocasião em que se afastou da AMP. Demonstramos como esse médico foi um dos poucos de sua geração a sobreviver à epidemia de gripe espanhola que havia ceifado vários de seus colegas no campo do ensino médico. Tal fato abriu lacunas naquele campo e no universo do associativismo que foram preenchidas por uma geração mais jovem em ascensão ao final da década de 1920 e início de 1930. Os conflitos manifestados por tal encontro geracional, no entanto, não eximiram, por exemplo, os filhos do médico João Cândido Ferreira de acompanhá-lo – permanecendo ou afastando-se da AMP – revelando que sob o lema da congregação médica reproduziam-se fortes laços de aliança familiar.
171 Na presente pesquisa, constatamos que ao longo da década de 1930 várias características das sociedades anteriores se mantiveram. Primeiramente e ao mesmo tempo em que percebemos a permanência da convivência de gerações etárias diferenciadas, também verificamos ocasiões de consagração e homenagens a membros mais velhos que iam falecendo no decorrer daquela década. Em segundo lugar, a estrutura das sessões, divididas geralmente em ordem do dia – com a leitura de ofícios, telegramas e cartas – e comunicações científicas permaneceu a mesma até por volta de 1939-1940, quando foi colocada sob discussão a partir da escolha de Mário Braga de Abreu para a presidência da AMP. Em terceiro, os gestos de confraternização por meio da realização de banquetes da categoria médica a cada nova diretoria e presidência eleita foram eventos observados tanto durante as sessões da SMHPR quanto da AMP no período analisado, 1933-1941. A presença de atores de instituições de outros estados naqueles jantares também expressava uma das facetas do intercâmbio científico levado a cabo pela AMP.
Durante a década analisada nesta pesquisa, concluímos que uma das mudanças observadas na trajetória da AMP, no que diz respeito ao contato entre médicos da capital paranaense com outras localidades, foi o incremento de um intercâmbio inter- regional, iniciado no seio da SMHPR com a região metropolitana de Curitiba e com a cidade de Ponta Grossa anos antes, para enfim o abarcamento de zonas ao centro (Ponta Grossa), sudeste (União da Vitória) e norte central paranaense (Tomazina). Outra característica observada foi que a AMP também passou a ter a sua própria sede e seus associados não realizavam mais reuniões em instituições hospitalares tal como ocorria durante a vigência da SMHPR nos primeiros anos da década de 1930.
Naquela mesma década, verificamos que a alternância de temas como a defesa da fiscalização do exercício ilegal da medicina por parte de indivíduos não diplomados, divergências a respeito dos honorários médicos e da assistência gratuita e possibilidades de atuar como órgão consultivo em questões exógenas à AMP delinearam os valores em torno dos quais, e pelos quais, os médicos associados se mobilizaram. Independentemente da geração etária a que pertencesse, nas ocasiões das visitas de médicos de outros estados à capital paranaense, notamos os investimentos dos médicos da “terra dos pinheirais” em demonstrar seu grau de adiantamento frente aos pares dos “grandes centros”. Desde a posse da primeira diretoria da AMP em setembro de 1933, ocasião em que recebeu a visita dos médicos paulistas Franklin de Moura Campos e
172 Cantidio de Moura Campos, os associados conduziam seus hóspedes de instituição em instituição da cidade de Curitiba empenhando-se em obter o aval daqueles.
Relativamente às sociedades médico-científicas de São Paulo e Rio de Janeiro, em nossas observações também apreendemos especificidades não observadas em trabalhos que analisaram agremiações daqueles estados (Cf. Teixeira, 2007; Cerqueira, 2014). Entre algumas das especificidades, gostaríamos de destacar a presença verificada de mulheres diplomadas na Faculdade de Medicina do Paraná e integrantes dos quadros de associados da AMP. Dentre as médicas ali formadas, entre Maria Falce de Macedo, Yone Busse e Olina Terra Franco, como destacamos no capítulo II, as duas últimas já participavam de reuniões médico-científicas em agremiações paranaenses antes mesmo da fusão das sociedades em 1933. Está em aberto, portanto, a possibilidade de análise das trajetórias dessas mulheres médicas paranaenses nas primeiras décadas do século XX.
Não apenas as comunicações foram responsáveis pela estruturação das sessões da AMP, mas as correspondências, as cartas de agradecimentos por homenagens prestadas, os votos de pesar e telegramas expressaram as especificidades de uma agremiação multitemática, classista e, sobretudo, constituída como local de sociabilidades e cordialidades. Enquanto multitemática, a AMP serviu para congregar atores interessados em diversas áreas da medicina, os quais, ao mesmo tempo, atuavam em instituições hospitalares e de ensino espalhadas pela cidade de Curitiba.
Em nossas investigações, privilegiamos a análise da expressão de duas
especialidades médicas na AMP, a saber: psiquiatria e medicina Legal. Por meio destes campos, observamos a permanência de atores em diálogo tanto com a psiquiatria quanto com a medicina legal e identificamos personagens ao mesmo tempo atuantes no Departamento Médico Legal (DML), no Hospício Nossa Senhora da Luz (HNSL), na Faculdade de Medicina e na AMP, como os médicos João de Paula Moura Brito, Aramis Taborda de Athayde, Júlio Estrella Moreira e Alô Ticoulat Guimarães. Tais atores transitaram por dentre as diretorias da AMP entre 1933-1941, assumindo postos em comissões muitas vezes conjuntamente com membros que dialogavam com os mesmos saberes médicos. Destacamos o ano de 1941 como momento chave em nossa pesquisa quando observamos a prevalência de membros envolvidos com a medicina legal na composição da diretoria da AMP naquele momento: na Presidência, Aramis T. de Athayde (livre-docente em Medicina Legal desde 1929); no Conselho Científico,
173 Júlio E. Moreira (diretor do Posto de Assistência Pública do DML e chefe do Laboratório de Polícia Técnica naquela década), José P. de Macedo (médico-legista do DML) e Alô T. Guimarães (livre-docente em medicina legal desde 1935, docente de clínica psiquiátrica desde 1937 e diretor do DML naquele ano). Tal aglomeração de posições institucionais em torno dos campos médicos da Medicina Legal e da Psiquiatria possibilitou a criação, também no ano de 1941, de uma seção de Psicopatologia Forense na Revista Médica do Paraná, a primeira seção especializada criada naquele órgão.
Está em aberto também a análise das trajetórias daqueles médicos envolvidos com a medicina legal e com a psiquiatria nas décadas de 1940-1950. Aramis T. de Athayde, por exemplo, foi Ministro da Saúde entre 1954-1955; já Alô T. Guimarães foi eleito duas vezes Prefeito da cidade de Curitiba, Deputado Estadual, Senador, Vice- Presidente da Comissão de Saúde do Senado, além de ter sido médico particular do interventor federal no Paraná, Manoel Ribas. No que concerne à psiquiatria, embora o foco dessa pesquisa não tenha privilegiado uma análise da assistência psiquiátrica na cidade de Curitiba, ressaltamos que além da figura de Alô T. Guimarães como diretor do HNSL e do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, este inaugurado em 1946, outros nomes surgiram na cena médica paranaense no tocante àquele saber, tais como: Rubens de Lacerda Manna (Clínica Neurológica e Clínica Psiquiátrica, 1944), Napoleão Lyrio Teixeira (Clínica Psiquiátrica, 1944; Medicina Legal, 1949), Ernani Simas Alves (Medicina Legal, 1950), Celso Cesar Papaleo (Medicina Legal, 1953) e José Schettini (Clínica Psiquiátrica, 1954). Grande parte das narrativas de memória médica consultadas para essa dissertação foi escrita por estes médicos formados a partir da década de 1940 que haviam sido alunos daqueles atores elencados em nossa pesquisa. Foram essas narrativas que buscamos problematizar, cruzando-as com dados documentais mapeados na RMP e em jornais paranaenses.
Por fim, demonstramos nesta pesquisa que os intercâmbios científicos, as correspondências entre médicos das diferentes regiões do estado do Paraná e com estados da federação e as relações de permuta entre periódicos médicos daqueles locais com regiões do Cone Sul e Central da América Latina, ao mesmo tempo em que atuaram no processo de institucionalização da medicina naquele estado, foram condições de possibilidade para a produção de conhecimento médico-legal e psiquiátrico a partir da AMP.
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