O TCP trabalhou também a linguagem do teatro infantil ou teatro para crianças. Preferimos esta última nomenclatura, pois na verdade a terminologia Teatro Infantil não é adequada, uma vez que este tipo de teatro não é feito por crianças e sim para elas. Também seria coerente aludir a um Teatro para a infância e a juventude.
Enquadramos o teatro para crianças nos princípios da concepção pedagógica, que obteve 3% da frequência individual nos depoimentos e críticas em jornais de grande circulação do Recife. Nesta perspectiva, apresentamos uma referência do Jornal do Commercio a esta linguagem trabalhada pelo TCP:
Aqui fica o registro, e o lembrete ao leitor para que não perca a Festa de Natal do Recife e a peça de Maria Clara Machado “O Boi e o Burro no Caminho de Belém”. Uma organização paralela ao TCP, pertencente também ao MCP, tem estado ativa: é o Teatro de Fantoches que tem em seu repertório a adaptação de “O Médico à Força” de Molière, “Chapeuzinho Vermelho” e “Joãozinho e Maria”, de Maria Clara Machado. Em Novembro, o Clube Inapiários de Pernambuco atraiu ao seu âmbito os fantoches do MCP, num espetáculo para a criançada, ao lado de palhaços do Cirquinho Fratelli Vita, do Canal 6. E uma sugestão que fica para os demais clubes recifenses que poderiam assim “melhorar o seu cardápio” habitual, oferecendo às crianças espetáculos divertidos e sadios (15 dez. 1962, p. 6).
O Teatro para Infância alcançou grande prestígio no ano de 1963, não apenas no Estado de Pernambuco, mas também em âmbito nacional. Eles conseguiram realizar este teatro para crianças, numa circulação constante. O universo da criança era muito respeitado pelo TCP, o que pode ser constatado a partir da qualidade dramatúrgica do repertório, como as peças de Maria Clara Machado, considerada uma das melhores autoras do gênero. A crítica do Joel Pontes confirma essa qualidade:
“O Boi e o Burro no caminho a Belém” – A ideia de humanizar animais, é velha em teatro e sempre é de mau gosto, só resulta bem nas peças infantis. Ou nas que tenham qualquer coisa de apelo à poesia, em que estejam as lendas e histórias tradicionais capazes, por si sós, de criarem uma predisposição de aceitamento antes mesmo de abrir-se o pano. O nascimento de Jesus é uma dessas histórias, que os homens de todas as latitudes vêem mais ou menos com o mesmo encanto, apesar dos recantos de São Mateus e São Lucas. Digo apesar, porque o caráter sagrado dos textos evangélicos não permite ampla liberdade de criação. A história em si tem poderosos elementos de poesia e drama, conforme se coloque a ênfase: na pobreza, na divindade, na reunião dos povos do mundo simbolizada pelos magos, ou na presunção dos acontecimentos futuros, ligando-se o berço da manjedoura ao suplício na cruz como fez Gomez Maurique no século XV, com sua representação do nascimento de Nosso Senhor. [...] Os figurinos obedeceram aos modelos comuns e não foi, portanto, na linha geral que se destacaram. O texto requeria uns toques espaventosos que acentuassem a farsa. Justamente nessas distorções da realidade Ded Bourbonnais soube colocar sua marca de figurinista sensível, particularmente feliz nos magos e rainha, menos pessoal de concepção das cores se a luz houvesse ajudado (DIARIO DE PERNAMBUCO, 03 jan. 1963, p.11).
O teatro para crianças vem, ao longo do tempo, sendo tratado como um teatro menor para o público e como escada para ascensão a papéis mais significativos, para os atores sem consciência da importância desta linguagem, que se utilizam dele para chegar aos palcos do
teatro para adultos. Este tipo de prática cria todo um preconceito contra esta linguagem, conforme depoimento de Carlos Augusto Nazareth:
Outra justificativa levantada em prol do famoso “teatro é teatro e pronto” é o teatro de Mamulengo. Mais uma vez dizem: “Veja o teatro de mamulengo, é representado para a família inteira” – uma afirmativa sem nenhuma verdade. O Mamulengo é um espetáculo que dura em torno de seis horas, representado no interior de Pernambuco, onde o analfabetismo aproxima adultos e crianças, onde o universo em que vivem, restrito, também os aproxima, a convivência estreita diminui os “interditos” à criança. E na verdade, em seu livro “O mundo mágico de João Redondo”, Altimar Pimentel diz: “Primeiro as crianças iam dormir, depois as mulheres se retiravam e quando já ia alta a noite e a cachaça, o mamulengo então se tornava pornográfico” Portanto o conceito de infância não suficientemente debatido, pensado e refletido, coloca em questão inúmeras assertivas sobre o teatro infantil, que se tornaram verdades. Esta questão “o que importa é o bom teatro” é evidente e não diz nada, na verdade. Do teatro para criança tem que se exigir qualidade, da mesma forma que do teatro para adultos, mas isto não os torna “a mesma coisa” (CEPTIN, 21 mar. 2015, p. 1).
O teatro bem feito pode atingir qualquer público, mas não se pode esquecer que a criança tem um desenvolvimento cognitivo que precisa ser respeitado. Determinados conteúdos e ações podem lhes causar traumas irreversíveis. O teatro proposto à criança deve também contribuir de algum modo com sua formação humana e cultural. Torna-se evidente que o teatro de rua (como já vimos na subseção que cuida do teatro popular) pode ser bom ou não para a formação, uma vez que muitos de seus espetáculos se alimentam da ideia do opressor, com preconceitos contra a mulher, o negro, as minorias oprimidas, entre outros. Será que vale a pena construir a formação de uma criança sobre estes aspectos? Na verdade, no palco também são levados espetáculos para crianças que deformam da mesma maneira. Cabe aos pais e aos professores o cuidado com os conteúdos que são levados às suas crianças. Ao longo dos anos e de uma maneira geral, o teatro para criança sempre esteve no foco de conflitos, seja pela busca de renovação, seja pela necessidade de romper com os preconceitos, com a falta de qualidade dos espetáculos puramente mercenários. Nesta direção, Marco Camarotti apresenta três processos de desqualificação apregoados ou presentes na cultura brasileira em relação ao teatro para crianças:
a) O descaso que normalmente os adultos apresentam em relação à inteligência e à capacidade crítica da criança e à importância de um teatro a ela destinado; b) O pouco caso que a classe teatral demonstra em relação ao teatro infantil. Para a maioria, e são sempre bastante numerosos os
profissionais e amadores do teatro infantil, essa atividade não passa de um degrau para chegar ao teatro de adultos, o qual, em sua concepção, representa o verdadeiro teatro, aquele que dá prestígio e reconhecimento público; c) a comercialidade da maior parte dos espetáculos infantis realizados no Brasil, sendo assim encarado o teatro infantil como simples fonte de lucro, pela relativa facilidade de atrair plateias numerosas, comumente mais do que o consegue o teatro para adultos (2005, p.16).