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Uma das obras de referência sobre a Pesquisa em Arte no Brasil é o livro Pesquisa

em Arte: um paralelo entre arte e ciência de Silvo Zamboni (2012), onde o autor tem por

objetivo a proposição de um modelo metodológico para este tipo de pesquisa. Zamboni afirma que a pesquisa em arte é qualquer pesquisa que se desenvolva no campo da arte. Portanto, pesquisas em história da arte, crítica, restauração, recepção, produção, ensino etc., todas fazem parte deste arcabouço. Porém, nesse livro, Zamboni se ocupa especialmente da pesquisa em criação artística, ou seja, a pesquisa que é feita por um artista com o objetivo de produzir uma obra de arte:

Usarei a expressão pesquisa em arte para me referir ao trabalho de pesquisa em criação artística, empreendido por artistas que objetivam atingir como produto final a obra de arte. Portanto, só tratarei nesse trabalho da pesquisa realizada pelos artistas, ou seja, quando o artista também se assume como pesquisador e busca, com essa dupla face, obter trabalhos artísticos como resultado de suas pesquisas. (ZAMBONI, 2012, p. 6)

O que se nota então, é que a Pesquisa em Arte ainda que feita no contexto acadêmico tem como fim principal a própria obra de arte, difere-se do processo de criação de um artista que trabalha fora da Academia justamente pelo fato de o artista tomar para si essa dupla função, a de artista e pesquisador, no sentido acadêmico que se dá ao termo

A Pesquisa Baseada em Arte, por sua vez, se distingue da Pesquisa em Arte exatamente nestes dois aspectos ressaltados por Zamboni. Em primeiro lugar porque ela não se desenvolve necessariamente no campo da arte, ao contrário, a Pesquisa Baseada em Arte procura ser uma nova forma, uma nova metodologia para o desenvolvimento de pesquisas nos mais diversos ramos das ciências humanas, sendo as pesquisas em

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educação as que mais têm se utilizado dessa metodologia. Em entrevista à Revista Trama, Ricardo Marín Viadel comenta também sobre a diferença entre essas duas denominações que temos discutido neste tópico:

Atualmente, existem duas denominações gerais que são aquelas que estão se tornando mais comum. A primeira é a "Pesquisa Educacional baseada em Artes" (em inglês "Arts based Educational Research"), usada por professores e acadêmicos da Faculdade de Educação e Humanidades, cujo objetivo é investigar os problemas educacionais, através da criação artística. O segundo, "Art Research" (em Inglês "Artistic Research"), utilizado pelas professsoras e professores da Faculdade de Artes Visuais, de Música, de Teatro, de Dança, cujo objetivo é investigar os problemas artísticos através das próprias linguagens artísticas. (VIADEL. In: Trama, 2013, p.13)

Em segundo lugar, a PBA não precisa ser feita necessariamente por um artista; é esperado que o pesquisador domine minimamente as propriedades da linguagem artística com a qual trabalha a fim de garantir a qualidade estética do trabalho, porém é uma metodologia que pode estar ao alcance de todos, artistas ou não. E, por fim, o objetivo principal da PBA não é produzir uma obra de arte, mas sim uma pesquisa; é apresentar o resultado final de uma pesquisa conduzida, não exclusivamente mas principalmente, por meio da arte. Tal resultado não se pretende conclusivo, mas espera-se que o uso de uma nova linguagem seja capaz de levantar novos questionamentos e permita ao pesquisador e ao seu público enxergar o tema em questão a partir de novas perspectivas. Como colocam Roldán e Viadel (2012, p.16); “seus dois principais objetivos são enriquecer as investigações sociais e educacionais com a experiência das artes e fazer com que as artes se insiram nos problemas da pesquisa social e educacional.”

Embora a Pesquisa em Arte seja diferente da Pesquisa Baseada em Arte, podemos pensar que este segundo tipo de pesquisa, ao trazer o processo de criação artística para dentro da Academia, contribui para utilização da arte no processo de pesquisa mesmo em áreas fora dos programas de Arte. Sabemos que ainda que o surgimento da PBA tenha se dado por volta do início da década de 90 através dos trabalhos de Elliot Eisner, antes disso artistas pesquisadores já se aventuravam a transpor e a problematizar os limites convencionalmente colocados entre arte e ciência. A PBA surge, então, a partir do anseio de pesquisadores, artistas e educadores de trazerem a arte para dentro da Academia, não somente como objeto de estudo mas como método de pesquisa, como uma parte estruturante do caminho e não somente como o ponto de chegada.

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Em 1993 Elliot Eisner organizou a primeira série de conferências sobre arts-based

research, oferecida pelo Arts-Based Research Institute na Universidade de Standford nos

Estados Unidos para os membros da American Educational Research Association (Associação Americana de Pesquisa em Educação). Tais conferências obtiveram tanto sucesso e provocaram tamanho entusiasmo naqueles que dela participaram que depois dessa primeira, mais sete se seguiram entre os anos 1993 e 2005.

De acordo com Eisner e Barone (2012) foram nessas conferências que o termo arts-

based research foi gerado, embora as ideias que serviram como base para o

desenvolvimento desta metodologia já viessem sendo maturadas através dos estudos de Eisner no âmbito da educação artística e em seus questionamentos acerca da importância da arte na educação e para a educação. Isto por sua vez o levou a desenvolver os conceitos de crítica em educação (educational criticism) e expertise em educação (educational connoisseurship) ambos apresentados nos livros The Educational

Imagination, Cognition and curriculum e Enlightened Eye, publicados em 1971, 1982 e

1991 respectivamente. Eisner partiu então desses conceitos para promover uma abordagem da pesquisa em educação que se apoiasse no aspecto imaginativo e expressivo das formas artísticas. Além disso, o desenvolvimento das pesquisas sociais e, em especial, das pesquisas ancoradas nos métodos qualitativos, juntamente com os desdobramentos da chamada “ciência pós-moderna” abriram caminho para uma nova forma de pesquisa em educação e, em última análise, no campo das pesquisas sociais em geral.

Atualmente a PBA, primeiramente conhecida pelo termo em inglês somente, arts

based research, goza de um maior reconhecimento internacional. Destaco, em especial,

dois polos importantes de estudos nesse tema: a University of British Columbia no Canadá através do grupo de estudos sobre A/r/tography (em português, a/r/tografia) onde Rita Irwin é uma das principais representantes, e também os estudos em Metodologías artísticas de

investigación desenvolvidos na Universidade de Granada por Riacardo Marin Viadel e

Joaquín Roldán e também por Fernando Hernandéz na Universidade de Barcelona.

De acordo com Viadel e Roldán (2012), embora seja ainda um campo muito recente, a PBA já se prolifera em diferentes enfoques e tendências, das quais se pode citar: art for

scholarship’s sake; a/r/tography, arts-based educacional research; arts-based visual research, arts-based research; arts-informed research. Todos esses enfoques são, no

59 informed research), que por vezes delimita o campo de estudos em que incide a

metodologia, como é o caso da Pesquisa Educacional Baseada em Arte (art for

scholarship’s sake; arts-based educacional research) ou descrevem a modalidade

artísticas abordada (arts-based visual research). A a/r/tografia seria, dentre essas tendências mencionadas, aquela que se distingue das demais por ser uma modalidade metodológica dentro da PBA (Viadel, 2013) que busca unir em um mesmo enfoque metodológico três atividades profissionais que se desenvolvem em conjunto: ser artista, ser pesquisador e ser professor.

Não faz parte do escopo deste trabalho dissertar sobre os diferentes enfoques e abordagens que a PBA pode abarcar. Nesse momento meu objetivo é apresentá-la de maneira geral, buscando seus princípios norteadores e pontuando suas potencialidades, entretanto considero importante mencionar a proliferação de estudos nesse campo a fim de ressaltar a importância que a PBA vem alcançando no cenário acadêmico internacional e também no cenário nacional, sendo o livro organizado por Bedilson Dias e Rita Irwin (2013) um exemplo do interesse despertado em alguns pesquisadores brasileiros.

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