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Considerar as crianças como produtos e produtoras de cultura, implica reconhecê-las como sujeitos concretos, inserido em um mundo de relações sociais e históricas. Partindo desse princípio, busquei conhecer melhor as condições de vida de meninos e meninas fora do ambiente da Educação Infantil. Para tanto, analisei documentos disponíveis nos arquivos da secretaria da UMEI, que me possibilitaram caracterizar as crianças e seus respectivos contextos socioeconômicos, bem como suas estruturas familiares51.

Cumpre explicitar que os nomes das crianças ora apresentadas foram substituídos por nomes fictícios, obedecendo a um preceito ético de confidencialidade entre investigador e pesquisados. Essa é uma discussão comum no âmbito da produção científica do campo educacional e travado também nos âmbito dos estudos da infância, pois diversos/as autores/as (CHRISTENSEN e PROUT, 2002; KRAMER, 2002; AGOSTINHO, 2008; SANTOS, 2013a; 2015a; BARBOSA, 2014; dentre outros/as) têm se dedicado à reflexão e ao debate em torno da ética na pesquisa com crianças e ao qual gostaria de me debruçar a seguir.

Para Sônia Kramer (2002), faz-se necessário (e urgente) discutir sobre os modos como procedemos na pesquisa científica que toma as crianças como principais interlocutoras no que diz respeito ao uso de nomes (fictícios ou não), haja vista que tais investigações operam com

51 Os dados apresentados a seguir, baseiam-se em informações contidas na ficha individual da criança e na ficha

de matrícula das mesmas, disponíveis na secretaria da instituição. As informações contidas nesses documentos são concedidas pelos pais, responsáveis e demais familiares no momento de matrícula das crianças na UMEI. Por questões de ordem ética, os nomes aqui apresentados são nomes fictícios.

um quadro teórico-conceitual no qual a infância se conforma como categoria social e, nesse sentido, meninos e meninas são compreendidos/as “como cidadãos, sujeitos da história, pessoas que produzem cultura” (KRAMER, 2002, p. 42).

A autora parte do pressuposto de que se as crianças são as principais interlocutoras do/a pesquisador/a no trabalho de campo, devem, portanto, ter seus nomes verdadeiros mantidos. Contudo, a autora assevera que tal medida pode acarretar sérias implicações quanto à integridade de meninos e meninas. Por outro lado, se os nomes das crianças não são mantidos, ao devolver aos/às participantes os resultados de pesquisa, eles/as podem não se reconhecer, uma vez que seus nomes (marcas importantes de suas identidades pessoais) foram suprimidos e, portanto, elas teriam sua “autoria negada e, no lugar desta importante autoria, mais uma vez foram mantidos anônimos” (KRAMER, 2002, p. 50).

Outro ponto importante que essa autora discute é a veiculação das imagens das crianças no âmbito da pesquisa científica. Kramer (2002, p. 52) afirma que “no caso de pesquisas com adultos, uma assinatura aposta a um documento assegura aparentemente que o pesquisador está autorizado a usar a imagem e o protege na sua divulgação”. Entretanto, quando se trata de pesquisas com crianças – e que as têm como coautores – quem de fato autoriza o uso de nomes e imagens nas pesquisas? Desse modo, a autorização do uso de imagens das crianças num estudo que se ocupa em compreender as experiências sociais de meninos e meninas não é dada por eles/as, mas por uma heteroautorização, isto é, quem autoriza e permite a veiculação de imagens na pesquisa que envolve crianças não são elas e sim os adultos responsáveis (ROSEMBERG, 1996).

Nesse sentido, Christensen e Prout (2002) defendem que deve existir uma simetria ética entre crianças e adultos, isto é, as mesmas posturas éticas adotadas em relação aos adultos devem ser simetricamente adotadas no âmbito das pesquisas com relação às crianças. Portanto, uma vez optando por desenvolver um estudo com crianças, priorizamos a privacidade e confidencialidade das mesmas (CHRISTENSEN e PROUT, 2002; AGOSTINHO, 2008). Desse modo, reiterando posição anterior sobre a questão, (SANTOS, 2013a, p. 62-63) afirmo que:

[...] mesmo reconhecendo a efetiva participação das crianças no processo de produção dos dados de pesquisa, reservamo-nos a opção de não revelar seus nomes verdadeiros, os quais foram substituídos por nomes fictícios, [...]. Esse procedimento foi adotado com todos(as) os(as) participantes da pesquisa e também definimos por não mencionar o nome da instituição pesquisada, o qual foi substituído por um nome fictício.

No caso corrente, os nomes fictícios foram negociados diretamente com as crianças. Para a maioria delas, foi fácil compreender que seus nomes deveriam ser mudados para fins de pesquisa e, nesse sentido, esse grupo de crianças escolheu outras alcunhas sem maiores problemas. Os codinomes escolhidos por este grupo fizeram menção aos nomes dos pais e ou de parentes e familiares próximos das crianças. Já para aquelas que não compreenderam a questão da substituição de seus nomes por outros, foi sugerido que pensassem em um pseudônimo que iniciasse com a primeira letra do nome verdadeiro da criança (procedimento esse que foi seguido de uma explicação de que toda vez que o pseudônimo escolhido aparecesse na pesquisa, tratava-se da menina ou do menino em questão).

Quanto ao uso de fotos e à respectiva participação das crianças na pesquisa, esses foram explicitados em uma reunião que a UMEI realizou com os pais e familiares no início do ano letivo. Além dos assuntos pedagógicos e institucionais tratados nessa reunião, tive a oportunidade de apresentar-me e apresentar oficialmente a pesquisa aos pais e familiares das crianças e recolher suas assinaturas – autorizando a participação dos/as filhos/as na investigação, bem como o registro fotográfico das crianças – em Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (vide apêndice). Essa reunião foi realizada juntamente com a professora e o professor da turma, a direção e a coordenação pedagógica da UMEI. A presença de pais e familiares das crianças foi significativa: participaram desse encontro 15 pessoas (mais da metade dos familiares das crianças). Foi notável a presença maciça de mães nessa reunião, mas também contamos com a presença de dois pais de duas crianças da turma, duas avós e um avô que se mostraram dispostos a contribuir com a pesquisa. As assinaturas daqueles poucos familiares que não participaram dessa reunião foram obtidas em momentos de entrada e saída quando os mesmos iam levar e buscar as crianças. Assim como ocorreu com as mães, pais e demais familiares presentes na reunião, todos os objetivos do estudo, os procedimentos de construção de dados com as crianças, a leitura atenta e cuidadosa dos Termos de consentimento livre e esclarecido, bem como os contatos dos pesquisadores (orientadora e orientando) foram realizados antes de se colher as assinaturas dos pais e familiares.

A turma do Arco-íris – nome escolhido pelos seus integrantes (tanto pelos/as grandes quanto pelos/as pequenos/as) – é composta por 24 crianças que no momento da pesquisa de campo tinham idade entre cinco e seis anos. Trata-se de uma turma constituída por uma maioria de meninos, pois eles eram 18 enquanto as meninas eram apenas oito. Desse

quantitativo, três famílias acabaram desistindo das vagas (referentes a duas meninas e um menino). Dois outros meninos saíram logo no início do ano e acabaram por retornar antes do término do primeiro semestre (movimentação essa que se dá em função da separação dos pais de um desses meninos e da mudança de local de residência da família do outro) e uma menina entrou no meio do ano letivo. Assim a turma era constituída, por durante boa parte do trabalho de campo, por 18 meninos e sete meninas. Todas as crianças estavam matriculadas em situação regular e já se conheciam do ano anterior (quando a escola foi inaugurada).

De acordo com as informações prestadas pelos pais e responsáveis pelas crianças no ato da matrícula, a maioria delas – 21 crianças (88% do total) – é natural de Belo Horizonte, 2 crianças (8%) são naturais de outras cidades do Estado de Minas Gerais e apenas 1 criança (4%) é natural de outro Estado da federação, tal como evidencia o gráfico abaixo:

Gráfico 4: Naturalidade das crianças

Fonte: arquivos da instituição

Do ponto de vista da declaração étnica que os pais e familiares das crianças realizam no ato da matrícula, 15 delas (51, 25 % do total) são declaradas como pardas, outras duas crianças (8, 33 % do total) são vistas pelos familiares como pretas, sete crianças (29,16 % do total) são consideradas brancas. Como dito em capítulos anteriores, a questão da declaração étnica das crianças ocorre não pela autodeclaração, como propõe o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 1991, mas pela heterodeclaração, isto é, não são as crianças que declaram seu pertencimento étnico-racial, mas sim os adultos por ela responsáveis (ROSEMBERG, 1996). Conforme afirma Fúlvia Rosemberg (2006) em 1991, o IBGE alterou a formulação do quesito cor em suas pesquisas que dizem respeito ao senso demográfico e à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), distribuindo a

população em cinco categorias: branca, preta, indígena, amarela, parda (abrangendo as pessoas que se declaram mulatas, caboclas, cafuzas, mamelucas ou mestiças). O IBGE considera em suas pesquisas que a população negra do país resulta da somatória das declarações de pretos e pardos. Nesse sentido, a partir dos dados apresentados acima, percebe- se que, mesmo não sendo os/as pequenos/as os/as declarantes de seu próprio pertencimento étnico (ROSEMBERG, 1996) existe certo reconhecimento das famílias das crianças no que concerne ao enquadramento étnico das mesmas: quando somamos as declarações dos familiares, realizadas no ato da matrícula, que as define como pretos e pardos, percebemos que mais da metade das famílias (78, 33 % do total) atendidas na UMEI Gente Miúda, enquadram-nas, considerando a definição do IBGE, como parte da população negra, tal como visualizamos no quadro que se segue:

Quadro3: Enquadramento Étnico das Crianças

Nome da Criança Raça/etnia Nome da Criança Raça/etnia

Adriana Parda Vitório Parda

Flaviane Parda Miguel Parda

Andreia Juliane Branca Luciano Parda

Isabel Parda Samuel Parda

William Branca Carlos Branca

Mirela Parda Karolina Parda

Mário Parda Saulo Branca

Gláucia Preta Gabriel Branca

Gleisson Branca Ryan Parda

Welington Branca Cristiano Preta

Isis Parda Paulo Charles Parda

Israel Parda Jonatas Parda

Fonte: arquivos da instituição

Como a UMEI está localizada em uma zona fronteiriça entre três bairros, a maioria das crianças da turma – nove (o que equivale a 38%) – mora no Bairro Independência, cinco delas (21%) residem na Vila Santa Rita, duas no bairro Mineirão (8%), duas na Ocupação Eliana Silva (8%) (todos esses bairros e aglomerados estão localizados em área limítrofe ao bairro no qual a UMEI se localiza), uma única criança reside mais afastada da UMEI, no Brasil Industrial (4%) e uma outra no Conjunto Águas Claras (4%), conforme sugere o gráfico a seguir:

Gráfico 5: Local de residência das crianças

Fonte: arquivos da instituição

No que diz respeito à moradia dos/as pequenos/as, 12 crianças habitam com suas famílias em residências próprias. As famílias de quatro crianças afirmam morar em residências alugadas, seguidas de três outras famílias que declaram, no ato da matrícula de seus filhos participarem de movimentos de ocupações territoriais urbanas (em habitações construídas em terrenos invadidos), outras duas famílias afirmam residir em habitações construídas no mesmo terreno de membros ascendentes da família extensa (alegando morarem no mesmo lote dos/as avôs/ós das crianças) e duas famílias não informaram as condições de moradia, tal como é possível visualizar no quadro abaixo:

Quadro 4: Tipo de moradia das crianças

Nome da Criança Condição de moradia Nome da Criança Condição de moradia

Adriana Própria Israel Mora com a avó

Flaviane Própria Vitório Própria

Andreia Juliane Própria Miguel Própria

Isabel Invadida Luciano Não Informado

William Não Informado Samuel Invadida

Mirela Alugada Carlos Própria

Mário Própria Karolina Própria

Gláucia Própria Saulo Cedida

Gleisson Cedida Gabriel Alugada

Welington Própria Ryan Mora com a avó

Isis Própria Cristiano Invadida

Fonte: arquivos da instituição

A composição familiar das crianças é caracterizada por um grande número de famílias nucleares (composta pela presença do pai, da mãe e de filhos), sendo que um número significativo de famílias (10) apresenta a presença de outro ente residindo junto às crianças como tios/as e avós, por exemplo. Do mesmo modo, também é relativamente pequeno o

Independência 38% Águas Claras 4% Ocupação Eliana Silva 8% Vila Santa Rita

21% Brasil Industrial 4% Mesmo Bairro da UMEI 17% Mineirão 8%

quantitativo de famílias em que o pai ou a mãe são ausentes52, o que pode ser facilmente visualizado no quadro abaixo:

Quadro 5: Composição familiar das crianças

Nome da Criança Pai Mãe Irmãos/ãs Membros da família

extensa residindo juntos Total de entes (inclusive a

criança)

Adriana Não Não Não 3 (avô, avó e bisavó) 4

Flaviane X X 3 2 (um tio e uma tia) 8

Andreia Juliane X X 2 0 5

Isabel Não X 3 0 5

William X X 0 0 3

Mirela Não X 0 4 (avô, avó e duas tias) 6

Mário Não53 X 1 0 3 Gláucia X X 1 0 4 Gleisson X X 1 0 4 Welington X X 1 0 4 Isis Não54 X 0 0 3 Israel X X 2 1 (avó) 6

Vitório Não55 X 0 2 (avó e tio) 4

Miguel X X 0 0 3

Luciano Não

respondeu respondeu Não respondeu Não Não respondeu Não respondeu

Samuel X X 2 0 5

Carlos X Não 1 3 (avô, avó, madrasta) 6

Karolina Não56 X 1 2 (avó e padrasto) 5

Saulo X X 2 0 5

Gabriel Não57 X 1 (companheira da

mãe) 3

Ryan X X 1 1 (avó) 5

Cristiano X X 0 0 3

Paulo Charles Não X 0 3 (duas tias e um tio) 5

Jonatas X X 2 0 5

Fonte: arquivos da instituição.

A média de renda declarada pelas famílias no ato da matrícula é de R$ 1334, 50, sendo que a renda declarada mais alta é de R$ 2900,00 e a menor é de R$ 678,00. Do ponto de vista econômico, os pais ou responsáveis pelas crianças apresentam atuações profissionais variadas, o que corrobora a descrição apresentada no PPP da UMEI Gente Miúda (apresentado na seção anterior). No tocante, desperta-nos atenção a situação profissional das mães e dos pais das

52 Aqui é preciso fazer a distinção de pais separados e pais ausentes. Diversas crianças são filhos/as de pais

separados, contudo, poucas são aquelas cujos pais e mães não mantêm contatos com as crianças.

53 O menino é filho de pais separados, porém mantém contatos constantes com o pai biológico. 54 A menina é filha de pais separados, porém mantém contatos constantes com o pai biológico. 55 O menino é filho de pais separados, porém mantém contatos constantes com o pai biológico. 56 A menina é filha de pais separados, porém mantém contatos constantes com o pai biológico.

57 O menino é filho de pais separados, porém mantém contatos constantes com o pai biológico. Existe uma

crianças, pois consideramos que tais situações apresentam uma forte divisão sexual do trabalho (KERGOAT, 2009). Das declarações relativas às ocupações das genitoras das crianças, seis mães afirmaram não trabalhar fora, se autointitulando como do lar. Duas delas se declaram diaristas, uma afirma atuar como salgadeira e uma se declara auxiliar de serviços gerais. As demais mães trabalham como atendentes (2), operadoras de caixa (3), dentre outras profissões. No caso dos pais, 15 encontram-se economicamente ativos, enquanto 8 não informaram sua atividade econômica, assim como visualizamos no quadro a seguir:

Quadro 6: Profissão dos pais e renda familiar (declarada no ato da matrícula)

Nome da Criança Profissão do Pai Profissão da Mãe Renda familiar declarada

Adriana Não informado Não informado 1200, 00

Flaviane Pedreiro Do lar Não informado

Andreia Juliane Comerciário Do lar 2900,00

Isabel Não informado Manicure 800,00

William Não informado Não informado 1400,00

Mirela Não informado Operadora de caixa 1400,00

Mário Não informado Atendente 678,00

Gláucia Operador de telefonia Do lar 1200,00

Gleisson Torneiro mecânico Do lar 900,00

Welington Técnico de manutenção Estudante 2000,00

Isis Não informado Operadora de caixa 1200,00

Israel Armador Diarista 2000,00

Vitório Bombeiro Do lar 1000,00

Miguel Mecânico Atendente 2300,00

Luciano Não informado Não informado Não informado

Samuel Pedreiro Do lar 1800,00

Carlos Cabeleireiro Não informado 1000,00

Karolina Motorista/Entregador Operadora de caixa 2000,00

Saulo Técnico em meio ambiente Professora 2500,00

Gabriel Auxiliar de produção Consultora 1850,00

Ryan Mecânico Diarista 1000,00

Cristiano Operador de produção Salgadeira 1200,00

Paulo Charles Não informado Não informado Não informado

Jonatas Pedreiro Serviços gerais 1400,00

Fonte: arquivos da instituição.

Danièle Kergoat (2009, p. 67) considera que a divisão sexual do trabalho “é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo; essa forma é historicamente adaptada a cada sociedade. Tem por características a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva”. A partir desse quadro, percebe-se que as ocupações profissionais das mães estão inseridas num quadro social que acena para a esfera reprodutiva, mesmo aquelas que atuam na vida pública, uma vez que muitas se declararam do lar e ou afirmaram realizar tarefas que reproduzem no espaço público os cuidados que comumente elas realizam no âmbito privado (cuidar de crianças, realizar faxina, manicure, cabeleireira, salgadeira, etc.). Mais adiante, nos capítulos a seguir,

veremos que essa divisão sexual do trabalho tem implicações sobre a percepção das crianças acerca da masculinidade e da feminilidade, pois, muitas vezes, as crianças não associam o trabalho realizado no âmbito privado ao trabalho produtivo.

Após esta exposição acerca das condições socioeconômicas das crianças participantes desse estudo, a seguir, discuto as diferentes formas de aceitação do etnógrafo por parte de crianças e adultos.

3.3. Diferentes agências do pesquisador no processo de aceitação junto a adultos,