CHAPTER 3: METHODOLOGY
3.3 Methods of Data collection
3.3.1 Observation
O candombe na Irmandade não é de bizarria, é de fundamento, ele não sai diariamente, não faz batuque em festas de aniversário, pode até fazer, mas não faz. O candombe é de firmamento. Ele firma alguma coisa importante (Seu Dirceu, 2007). Ao
empregar o termo fundamento, Seu Dirceu nos diz do lugar que o candombe ocupa na constituição da irmandade de Justinópolis. Mantido por poucos, é considerado o que tem de mais africano no congado, portanto mais sagrado. Como sequência ritual fundante, ele abre e fecha o ciclo do reinado, assim se fez na abertura do reinado no segundo domingo
de janeiro do ano de 2008, iniciado pelas palavras de Seu Zezé que, como membro mais velho da irmandade, fez as vezes, tirando pontos de licença para se aproximar dos tambores sagrados:
Chego no pé de candombe de vera, Peço licença;
Peço licença meu Santana E também minha puíca
Do Rosário de Maria, no rosário Peço licença..
Com os tambores em suas mãos, o mestre Zezé tocou em memória de seus mestres ancestrais. Dona Edinha tirou outro ponto, depois Seu Dirceu tirou mais um, os mestres se revezavam nos cantos, acionando o passado e reconstruindo o tempo da hi[e]stória de um modo outro. A festa vai se tornando assim um espaço para o exercício dos sentimentos coletivos.
Toda vez que é tocado, os tambores evocam trechos do mito de retirada de Nossa Senhora do Rosário, uma hi[e]stória que fundamenta todas as festas de congado e que me foi assim contada por Seu Zezé em maio de 2008:
Isto aconteceu há muitos anos atrás quando negro era escravo dos senhores e sinhás de engenho. Eles viviam na senzala, e ela era o único lugar que podiam se divertir, a capoeira e o candombe era o que faziam depois que o Senhor dormia.
Importante ressaltar que o candombe já existia. Neste momento, Seu Zezé pontuou veemente: no princípio era o candombe. Seguiu com sua narrativa:
Assim como já é sabido, no meio de uma multidão de cem pessoas, sempre encontra um com mais fé, né!? Assim foi nesta época quando um negro, no meio de cem, viu essa moça bonita na proa do rio suspensa pelas plantas aquáticas. Na senzala, no momento da diversão, ele contava a história pros outros.
Outros negros de outras fazendas também viam a moça, mas só negro via, os brancos não conseguiam ver. Os negros eram colocados no tronco, sob a roda de bater tocada a água, pelos carrascos porque eram tidos como mentirosos. Mas nenhum castigo adiantou e a história foi espalhando pela região.
Todo mundo comentava da moça que os negros via, mas que os brancos não via!
Uma outra pausa foi provocada pela esposa de Seu Zezé, que me trazia um café com broa de fubá. Enquanto tomávamos o café, o mestre me introduz ao saber/poder que os negros possuem. Sem ler nem escrever na língua de branco, restava ao negro manter a palavra. Seu Zezé proferiu algumas palavras que não ouso reproduzir, mostrando-me como o saber se converteu em poder e é mantido em segredo pelos mestres do congado que se comunicam na língua de negro. Após a pausa do café, continuou com a narrativa.
De tanto insistir, aí os senhores reunidos resolveram dar um dia de folga pra todos os negros irem ver a moça deles no rio. Na virada na noite de lua minguante do dia 13 de maio, os negros juntaram tambores de tronco ocado, cobriram com couro de cabrito amarrado com corda de cipó São João e formaram os candombes: Santana, Santina, guaiá.
No outro dia de manhã, descalços, os pretos velhos seguiram com os candombes pra beira do rio e os brancos ficaram do alto da colina, longe pra espiar. Quando negro tocou, a moça apareceu na proa do rio erguida pelas plantas e coberta por uma nuvem azul.
O poder mágico é de outro modo ressaltado na narrativa quando nos conta que somente os negros podiam ver a moça e somente eles conseguiram retirá-la da água:
Branco tocou negros com chicote, pegou a santa e levou pra uma emídia [igreja
pequena], mas noutro dia quando foram
lá, a santa não tava, tinha voltado pro rio. Os brancos desceram lá com banda de música, tocou bonito com seus instrumentos dourados, mas ela nem se mexia. Quando negro tocou o candombe a moça apareceu e veio em direção a margem. Mais uma vez, os negros retiraram a Santa, branco tomava, colocava na igreja, mas ela voltava. Isto aconteceu três vezes até que o negro desafiou seu senhor: se negro conseguisse retirar a santa e deixar na igreja, os senhores dariam um dia de folga pro negro festejar. E foi assim que a moça saiu pela terceira vez.
Seu Zezé se levanta da cadeira, toma seu bastão nas mãos, mostrando-me com gestos o fim dessa hi[e]stória:
Negro tocou o camdombe, tirou ela d‟água e beijou sua mão, “Com licença moça bonita”.
Aí o nego cambeta, preto velho, ofereceu seu cajado [muleta] como pinguela, uma passagem da água pra terra. Ela saiu da água, sentou no tambor mais velho, o Santana, e chorou. Assim como diz a música:
no santana ela sentou.... êh ela sentou
Esperando aquela hora... E os negro libertô
Êh ela sentou
Enquanto ouvia a questão Ela chorou
E a lágrima engrossou Virando o rosário O rosário de Maria.
Depois ela tomou o cajado em suas mãos, beijou três vezes, assim, e devolveu ao negro, nosso bastão. Tudo isso é o que nós tem de magia, o que nós tem de mais
sagrado, é o que você ta vendo hoje nas festas: o nosso bastão, o nosso rosário, e as nossas gungas que possui guardada dentro dela, sete conchas do mar.
No princípio era o só o camdombe (maio
de 2008) [grifos meus].