4 Presentasjon, analyse og tolking
4.4 Observasjon av barns språk
4.4.1 Om å følge med på språkutviklingen hos barna
A epistemologia, conforme a entenderemos aqui, refere-se a um conjunto de pressupostos sobre o método adequado para a investigação científica de determinado objeto. Assim, como parte de uma metafísica, a epistemologia é constituída por certos enunciados verbais. Sua função é – em conjunto com a ontologia – justificar e sustentar um método. Presumivelmente, portanto, uma epistemologia – enquanto conjunto de comportamentos verbais – só existirá enquanto constituir-se, de fato, em justificativa e sustentação para o método. Dito de outro
modo, uma epistemologia só será reforçada enquanto cumprir essa especificação.
Tal como ocorre no caso da ontologia, o fato de uma epistemologia integrar a base de sustentação de um método científico não implica que esta seja, obrigatoriamente, anterior ao método. Assim, a epistemologia pode também ser uma decorrência não somente das mudanças ocorridas no método em função das conseqüências imediatas da situação experimental, mas também das conseqüências mais remotas do método, denominadas “fatos”, “leis”, “teorias”, etc. Dessa forma, na filosofia de Skinner, os pressupostos epistemológicos podem ter origem tanto em regras filosóficas anteriores ao behaviorismo radical como em regras derivadas do próprio estudo do comportamento através da análise experimental.45
A epistemologia, enquanto parte da metafísica skinneriana que busca justificar e sustentar um método, é um discurso sobre a natureza deste método: a análise experimental do comportamento. Na condição de método, a análise experimental do comportamento é um modo de proceder – isto é, um conjunto de comportamentos. Tal consideração reveste-se da maior importância na análise da epistemologia behaviorista
45 Skinner parece favorecer a segunda possibilidade, quando, nas páginas finais de About behaviorism (1974), faz a seguinte afirmação sobre sua versão particular da filosofia behaviorista:
radical – sobretudo porque marca, no interior da metafísica skinneriana, uma diferença básica entre os discursos epistemológico e ontológico.
Utilizada para demarcar o objeto de estudo de certa ciência, a palavra comportamento refere-se a toda a imensa gama de fenômenos que podem ser circunscritos por esta definição. Assim, afirmações ontológicas são afirmações sobre a natureza de todos os fenômenos comportamentais: o comportamento é, sempre e invariavelmente, um processo natural (e, por extensão, regular, ordenado e determinado), distinto de fenômenos fisiológicos ou mentais e funcionalmente dependente de variáveis ambientais. Afirmações desse tipo são arbitrárias, dado que jamais encontram sustentação completa e inequívoca, seja por meios filosóficos ou científicos. (Com efeito, que tipo de argumentação ou experimento poderia levar-nos à conclusão de que apenas fenômenos comportamentais – em contraposição a fenômenos mentais – existem de fato, ou de que tais fenômenos são necessariamente determinados?) Por outro lado, tais afirmações são absolutamente indispensáveis para a justificação e sustentação da análise experimental do comportamento. Porém, nenhuma dessas afirmações discorre sobre a natureza última dos fenômenos comportamentais: o que eles são, ou de que substância são
“A posição que tomei é baseada (...) em um tipo particular de ciência comportamental” (p. 248).A observação aplica-se também, obviamente, à ontologia.
constituídos, em última análise? Antes de investigar a posição behaviorista radical sobre essa questão, voltemos à questão epistemológica.
A epistemologia, diferentemente da ontologia, é um discurso sobre a natureza de certo conjunto de comportamentos, com certas conseqüências comuns. Trata-se, portanto, de um discurso circunscrito a algumas classes particulares de comportamentos – e que, portanto, não se estende a todo e qualquer comportamento. O discurso epistemológico dirige-se apenas a uma pequena fração do universo comportamental, abordado em sua totalidade pela ontologia. Temos, assim, uma diferença na extensão dos fenômenos referidos por cada um desses discursos. Mas temos, também, uma diferença entre os tipos de problemas abordados por eles. Em qualquer outra ciência que não a do comportamento, isso é bastante claro: a física é sustentada por discursos ontológicos tratando sobre a natureza dos fenômenos físicos e por discursos epistemológicos tratando da natureza da relação entre o cientista e os fenômenos físicos – isto é, tratando da relação de conhecimento. Essa diferenciação torna-se mais sutil em uma ciência do comportamento. Nesse caso, discursos ontológicos tratam da natureza do comportamento e discursos epistemológicos tratam da natureza de um conjunto circunscrito de comportamentos – quais sejam, aqueles controlados majoritariamente pelas contingências de reforço típicas das comunidades científicas
dedicadas ao estudo do comportamento, que ditam as regras para a produção de enunciados científicos a partir da interação entre o cientista e seu objeto de investigação. Trata-se, portanto, de reinterpretar a relação de conhecimento através da utilização dos conceitos extraídos de uma ciência do comportamento.
O fato de a epistemologia ter por objeto um conjunto circunscrito de comportamentos – em contraposição à ontologia, que tem por objeto todo e qualquer comportamento – não significa, de forma alguma, que a complexidade dos problemas epistemológicos seja menor em relação aos ontológicos. Além disso, os enunciados epistemológicos podem ser tão arbitrários quanto os ontológicos. Por outro lado – e é este o ponto que buscávamos resgatar – a relação de conhecimento entre o cientista e seu objeto de investigação é, por si mesma, um objeto legítimo de estudo no âmbito de uma ciência do comportamento (Abib, 1993b; Skinner, 1945/1972c, p. 380; 1963/1969b, p. 228; 1974, pp. 234-237; Zuriff, 1980). É o desenvolvimento dessa premissa que confere à epistemologia behaviorista radical certas características originais em relação às epistemologias fundamentadas exclusivamente na argumentação filosófica. Uma epistemologia empírica começa a insinuar- se a partir da interpretação da relação entre o cientista e seu objeto de investigação através dos conceitos da análise do comportamento (Skinner,
1963/1969b, p. 228). Nesse sentido, a epistemologia skinneriana, mais do que sua ontologia, mostra-se fortemente influenciada pelas descobertas da ciência do comportamento – o que não a exime da argumentação filosófica.46 É plenamente lícito à análise do comportamento discursar sobre a relação de conhecimento entre o cientista e seu objeto de investigação. Em princípio, todos os elementos necessários para uma interpretação dessa relação através do conceito de contingências de reforço são identificáveis.
O mesmo poderia ser dito sobre uma eventual ontologia empírica – especificamente no que diz respeito à determinação da natureza última dos objetos sob investigação?47 No mínimo, a especificação dos estímulos
discriminativos responsáveis pelo comportamento verbal exibido em discursos ontológicos dessa ordem é controversa. Em princípio, isso não invalida uma tentativa de análise desses discursos, mas provavelmente a torna mais complexa quando comparada à mesma empreitada aplicada à epistemologia. Considerando o fato óbvio de que ninguém pode emitir enunciados verbais sob o controle discriminativo da “natureza última” de qualquer objeto, restaria outra possibilidade: a análise das contingências
46 De passagem, cabe lembrar que mesmo que a epistemologia behaviorista radical fosse composta unicamente por enunciados derivados da análise do comportamento de cientistas, ainda assim seria preciso lembrar que esta análise, por sua vez, é apoiada por pressupostos ontológicos e epistemológicos anteriores, explícitos ou não.
de reforço prevalecentes nas comunidades que modelam o comportamento verbal constituinte das doutrinas ontológicas. Tanto os enunciados epistemológicos quanto os ontológicos são passíveis de interpretação através dos conceitos da análise do comportamento, pois ambos são, afinal, comportamento verbal. Estritamente nesse sentido – isto é, como comportamento verbal classificado como ontológico –, a ontologia existe e existirá sempre que alguém falar em seu nome.
Filosoficamente, porém, seria a ontologia um requisito
obrigatório para a consecução de um projeto científico? Ao que parece, a resposta é negativa – vide o projeto científico skinneriano. Não seria possível, entretanto, descobrir uma ontologia subjacente à análise experimental do comportamento, mesmo que não declarada? Em parte, a resposta é positiva: no mínimo, a análise experimental estuda o comportamento como se este fosse um processo de natureza física – embora não pareça assumir explicitamente uma posição ontológica. Esse é um procedimento válido, pois “(...) não há obrigatoriedade lógica para de uma posição epistemológica transitar para uma outra que é ontológica (...)” (Abib, 1993a, p. 462), embora tal trânsito também seja válido, assim como sua ordem inversa. A adoção da atitude “como se” – uma espécie de “compromisso” ontológico mitigado, que presta-se apenas a sustentar um método e não a demarcar princípios filosóficos explícitos – pode
parecer, em princípio, um subterfúgio algo desonesto. Se no início de nosso trabalho dizíamos, por exemplo, que uma vez de posse de uma descrição de certo método sempre será possível percorrer o caminho que liga o método à sua raiz metafísica, a atitude “como se” cria uma constrangedora exceção. Além disso, essa atitude traz consigo uma vantagem que também pode parecer indevida: aquele que a adota livra-se do ônus da prova, transferindo-o àqueles que optam por explicitar suas posições ontológicas (Abib, 1993a, p. 462).
Ora, não havendo nenhuma diferença em relação à prática do método, a atitude “como se” não seria, de fato, preferível à afirmação de um compromisso ontológico – sobretudo considerando-se a ênfase que o behaviorismo radical confere ao método e a suas conseqüências? Qual seria, enfim, a vantagem em sustentar um discurso ontológico cuja confirmação é, no mínimo, duvidosa? A atitude “como se”, nesse sentido, parece uma boa opção para o behaviorismo radical. Essa opção, porém, não pode ser radicalizada a fim de eliminar em definitivo a ontologia do horizonte de um projeto científico. Isso seria simplesmente retornar ao erro de tentar desvincular método e metafísica48 (Abib, 1993a, p. 459). A
48 Se a atitude “como se” não acarreta modificações no método quando comparada à defesa explícita de compromissos ontológicos, o discurso ontológico sobre uma “natureza última” poderia ter sua utilidade questionada. Porém, é preciso lembrar que eventuais mudanças em um discurso ontológico podem ocasionar, de fato, profundas modificações no método (Abib, 1993a). Essa é, exatamente, a utilidade da ontologia: justificar e sustentar um método, em conjunto com a epistemologia.
atitude “como se”, no âmbito do behaviorismo radical, encontra seu limite no próprio fisicalismo skinneriano. Esse fisicalismo, embora não implique um compromisso ontológico, impede o behaviorismo radical de ignorar o problema ontológico. Por outro lado, o papel do fisicalismo no behaviorismo radical parecer ser o de fornecer requisitos mínimos para que a análise experimental do comportamento justifique-se e sustente-se enquanto prática. Ao cumprir esse papel, o fisicalismo exime o behaviorismo radical de comprometer-se com a defesa de posições ontológicas: “A questão básica [do behaviorismo] não é a natureza da substância da qual o mundo é feito, ou se ele é feito de uma ou duas substâncias, mas antes as dimensões dos objetos estudados pela psicologia e os métodos relevantes para estes” (Skinner, 1963/1969b, p. 221).
Como fizemos notar, porém, a análise do comportamento possibilita uma nova frente de abordagem ao problema, ao interpretar o comportamento verbal ontológico no contexto das contingências de reforço mantidas por comunidades científicas e filosóficas. Uma ontologia empírica, nesse contexto, poderia ser absorvida pela epistemologia empírica pretendida pelo behaviorismo radical. Sob o ponto de vista da ciência do comportamento, a ontologia pode perfeitamente ser compreendida como um problema de conhecimento. A ontologia é um discurso sobre o mundo, e a epistemologia empírica, em última análise,
deve pronunciar-se sobre qualquer discurso possível sobre o mundo.49 Uma epistemologia empírica, assim, estende-se também sobre o discurso ontológico, pois a análise deste não requer instrumentos conceituais diversos daqueles exigidos na análise do discurso epistemológico. Que existam discursos sobre uma “natureza última” do mundo, mesmo que esta realidade jamais possa ser tacteada50 – eis um curioso problema a ser
enfrentado por uma epistemologia empírica. Se a expressão “natureza última” não designa estímulos discriminativos identificáveis em objetos naturais, quais seriam, então, os estímulos discriminativos que controlam a emissão de enunciados ontológicos? A chave para analisar a questão, conforme sugerimos, pode estar nas práticas verbais das comunidades que lidam com o discurso ontológico. Assim como Skinner (1974, p. 244)
49 Nesse sentido, a epistemologia empírica promovida pelo behaviorismo radical pode ser interpretada (de acordo com a classificação utilizada por Abib (1996)) como um empreendimento que assume o termo “epistemologia” em seu sentido fraco ou moderado (em oposição a forte e radical, respectivamente), visto que: 1) o termo “epistemologia” equivale à expressão “teoria do conhecimento”, pois “conhecimento” refere-se não só à ciência, como também a outras formas de conhecimento cujo status científico é disputado, e ainda ao conhecimento vulgar; 2) embora o conceito de conhecimento científico seja mantido, ele não se presta a desqualificar outros tipos de conhecimento, pois a ciência não se distingue destes por uma suposta vantagem a priori em termos de fundamentação ou legitimidade. Os processos comportamentais básicos através dos quais o homem adquire conhecimento sobre o mundo são sempre os mesmos, quer estejamos falando de ciência ou não: “É um erro (...) dizer que o mundo descrito pela ciência está, de uma ou outra maneira, mais próximo do que ‘realmente está lá’ (...). Todo comportamento é determinado, direta ou indiretamente, por conseqüências, e o comportamento tanto do cientista como do não-cientista é modelado pelo que está lá, mas de modos diferentes” (Skinner, 1974, p. 127).
50 O verbo “tactear” refere-se, aqui, ao conceito de tacto, conforme definido na teoria do comportamento verbal de Skinner (1957): “O termo carrega uma sugestão mnemônica de comportamento que ‘faz contato com’ o mundo físico. Um tacto pode ser definido como um operante verbal no qual uma resposta de determinada forma é evocada (ou ao menos fortalecida) por um objeto ou evento particular, ou propriedade de um objeto ou evento” (pp. 81-82).
afirma que os “referentes” de termos como “moralidade” e “justiça” são os comportamentos classificados por comunidades verbais como “morais” ou “justos” – modelados por contingências sociais –, também os comportamentos verbais ontológicos podem ser interpretados como aqueles aos quais as comunidades verbais dão o nome de “ontológicos”. Uma investigação satisfatória do comportamento verbal ontológico no âmbito de uma epistemologia empírica consiste, portanto, em uma análise das contingências sociais que modelam os comportamentos classificados como ontológicos.51
Não é possível prever, de antemão, os limites de uma análise da ontologia nesses moldes. Porém, permanece o fato de que os resultados dessa análise, sejam quais forem, não conferem à ciência do comportamento o poder de legislar sobre os discursos ontológicos – no sentido de indicar quais deles – se algum – seriam “corretos”. Isso ficará
51 Essa linha de argumentação pode explicar o fato de Skinner ter-se devotado à proposição dos fundamentos de uma epistemologia empírica, em detrimento de uma ontologia empírica. Como afirmamos, o estudo do comportamento, no âmbito do behaviorismo radical, é sempre o estudo de interações entre organismo e ambiente. O problema epistemológico – isto é, o problema da relação entre o conhecedor e seu objeto – é o protótipo da interação organismo- ambiente que interessa ao behaviorismo radical. Descrever os fundamentos dessa interação é do maior interesse para a compreensão e aperfeiçoamento dos métodos científicos. O problema ontológico, por outro lado, é de interesse limitado nesse contexto. Se não existe uma “natureza última” com a qual se possa interagir, uma ontologia empírica, em sentido estrito, é impossível. Assim, conforme argumentamos, os estímulos que controlam a emissão de enunciados ontológicos só podem ser de natureza verbal, gerados por comunidades científicas ou filosóficas. O problema ontológico, assim, também implica uma interação entre organismos (falantes/ouvintes) e ambientes (comunidades verbais), mas a descrição de seus fundamentos não implica acréscimo à compreensão dos métodos científicos (embora possa contribuir para a compreensão dos métodos filosóficos).
claro na seqüência, quando abordarmos a questão da “verdade” ou “correção” de enunciados no âmbito da epistemologia skinneriana. Por ora, conclui-se que os discursos sobre a “natureza última” do mundo são objetos legítimos de investigação para uma ciência do comportamento, visando a consecução de uma epistemologia empírica. Conclui-se, ainda, que o behaviorismo radical não assume compromissos ontológicos explícitos, embora a atitude “como se” articule-se de modo satisfatório com seu fisicalismo.
Como tal epistemologia explica, portanto, o fenômeno do conhecimento? O que significa dizer que conhecemos algo? Em especial, quais as características do conhecimento científico? Cabe notar, de início, que exigências gramaticais impelem-nos a utilizar, com freqüência, o substantivo “conhecimento”, mas esta é uma das muitas palavras que poderiam ser proveitosamente substituídas por verbos (“conhecer”, no presente caso), uma vez que estamos tratando de processos comportamentais (Chiesa, 1994, pp. 34-35). De fato, para Skinner, conhecer um objeto é comportar-se em relação a ele, e conhecer, portanto, é atividade, e não contemplação (1953/1965, p. 14; p. 140; 1956/1972l, pp. 270-271; 1957, p. 451; 1957/1972m, p. 255). Em outras palavras, “(...) conhecimento refere-se a uma relação de controle entre comportamento e estímulos discriminativos” (1953/1965, p. 408) – ou
seja, conhecer é comportar-se de certas maneiras sob certas condições, de modo a produzir certas conseqüências.
No caso específico do conhecimento científico, os estímulos discriminativos que controlam o comportamento dos cientistas são, usualmente (mas não obrigatoriamente), de natureza não-verbal (Skinner, 1953/1965, p. 409). Os fatos, leis e teorias, normalmente apontados como constituintes do conhecimento científico, são comportamentos verbais, que descrevem tais estímulos discriminativos. Mas que tipos de estímulos discriminativos são esses? Skinner afirma que a ciência procura, em grande parte, descrever “(...) os sistemas de reforço encontrados na natureza (...)” (1966/1969d, p. 143), “(...) as contingências de reforço mantidas pelo ambiente” (1989c, p. 43) ou “(...) o mundo – isto é (...), contingências de reforço prevalecentes” (1974, p. 144). As regras derivadas dessas análises – isto é, os fatos, leis e teorias da ciência – possibilitam a outras pessoas comportar-se efetivamente diante das mesmas contingências (1953/1965, p. 14; 1971, p. 189; 1974, p. 144; p. 235); permitem-nas, em outras palavras, comportar-se de modos que aumentem suas possibilidades de reforço, sem a necessidade de entregar- se ao controle direto das contingências inerentes a tais situações (1966/1969d, p. 143). Para Skinner, portanto, o objetivo último da ciência – ou seja, a conseqüência que a mantém (1957, p. 429) – é responder a
perguntas deste tipo: “Se na situação ‘x’ eu comportar-me de modo ‘y’, qual será a conseqüência?”.
O cientista, assim, descreve as contingências de reforço atuantes nas situações que investiga – e não os objetos do mundo “tais como são”52 (Skinner, 1953/1965, p. 140; 1966/1969d, p. 141; 1974, p.
127). A objetividade dos enunciados científicos não se deve a uma suposta “neutralidade” dessa descrição das contingências. As comunidades verbais científicas utilizam-se de técnicas especiais para reduzir ao mínimo a “subjetividade” de tais descrições (1974, p. 144), mas isso não significa que o comportamento dos cientistas na produção de conhecimento seja, de alguma forma, imune ao controle por contingências – uma afirmação que, de resto, soaria absurda. (De fato, o comportamento científico é mais estritamente controlado do que o comportamento comum.) Uma lei científica é uma descrição de contingências de reforço – isto é, uma regra – e, enquanto tal, é “objetiva” se possibilita a outras pessoas comportarem-se efetivamente diante daquelas contingências. Quando diversos cientistas enunciam as mesmas leis diante das mesmas contingências, diz-se que houve uma redução ao
52 Nesse sentido, podemos também afirmar que as leis científicas são descrições da experiência do cientista no contexto das contingências de reforço envolvidas na investigação científica (Skinner, 1989c, p. 43; Abib, 1993b, p. 482). Assim, leis científicas não são descrições do
mundo, e tampouco são descrições da percepção do mundo, mas sim descrições da interação entre o cientista e o mundo.
mínimo de suas contribuições pessoais53 (1974, p. 145). Porém, para que isso ocorra, é necessário que: 1) as contingências descritas possuam certas características relativamente estáveis e 2) os diferentes cientistas exibam respostas verbais relativamente estáveis diante de situações semelhantes. Assim, diferentes descrições de situações semelhantes devem-se a diferentes práticas nas diversas comunidades verbais. Um poeta pode descrever certa situação de modos muito diferentes daqueles empregados por um cientista. Sua descrição não será mais ou menos verdadeira, visto que os objetivos – ou conseqüências – de sua descrição são diferentes daqueles estabelecidos pela comunidade verbal científica (1974, p. 127).
Assim, não existe uma observação “pura”, isenta de preconceitos, sobre um objeto. Não apenas a própria observação é, desde o início, um procedimento interpretativo, como os enunciados verbais sob controle de estímulos discriminativos estão impregnados de conceitos e teorias que adaptam-se àquela forma particular de interpretação (Abib, 1997, p. 118). Objetos são observados e descritos de diversas formas por espectadores diferentes, de acordo com suas experiências passadas e atuais – vale dizer, de acordo com as contingências de reforço passadas e atuais que controlam seu comportamento na situação observada e
53 Se tomada em sentido literal, essa expressão é, obviamente, incorreta, pois “(...) o conhecimento depende de uma história pessoal” (Skinner, 1956/1972l, p. 271). O significado da expressão é esclarecido na seqüência do texto.