Sendo a realização de trabalhos em grupo uma exigência do curso, a obrigatoriedade de formação de grupos revela uma dinâmica de seu funcionamento e das salas. Dos seis alunos não prounistas entrevistados, cinco deles referem terem escolhido os seus grupos de trabalho, sendo que NP1H-IN, NP3M-IM e NP4M-FN consideram o critério de afinidade, NP5M-FM diz ter sido convidada a integrar seu grupo, NP6-FN utiliza o critério de qualidade para composição de grupos. Apenas NP2M-FM indica não ter muita escolha e diz buscar “[...] grupos alternativos”, uma vez que não se identifica muito com sua sala, e considera os outros alunos não prounistas “[...] elitistas”.
Para os alunos prounistas entrevistados, a formação de grupos de trabalho nem sempre se dá segundo seus próprios critérios de escolha. Considerando que para que um indivíduo seja incluído em determinado ambiente é necessário que anteriormente sinta-se valorizado e reconhecido como membro do grupo (BERG, 2002), percebe-se que o status de membro de um grupo de trabalho, para alguns prounistas é conquistado quase à força. O relato dos professores evidencia que há resistências de alguns alunos em aceitar o ingresso de alunos prounistas em alguns grupos de trabalho, sendo empreendidas estratégias por outros alunos a fim de impedir a entrada de alunos prounistas, em alguns grupos de trabalho. Dessa forma, é exigido desses professores, que também são agentes implicados no processo de inclusão/exclusão, intervir a fim de evitar que o aluno seja prejudicado, tentando inclui-lo em algum grupo já formado. Eventualmente, não obtendo sucesso na busca de um grupo, o aluno fica excluído e acaba fazendo trabalho individual.
Às vezes ocorre do aluno ficar de fora, aí a gente vai correndo atrás e quando não dá eu digo: não tem problema, eu vou receber [o trabalho individual] do mesmo jeito (PROF 03).
Vai fazer trabalho em grupo, uns gostam, outros não gostam, uns querem outros não querem, já têm seus amigos (PROF 03).
Na hora do bar não tem problema, na hora de falar mal do professor junto. Aparece quando tem uma questão de estudo, aparece para a formação de grupo (PROF 01).
E é legal [fala ironicamente] que eles envolvem professor: Professora, não pode entrar mais ninguém no grupo, né? (PROF 01).
Dentre os alunos prounistas entrevistados, há evidente diferença nos relatos de suas experiências pessoais, no que se refere à formação de grupos de trabalho. Apesar de P2M-IM fazer trabalhos com as pessoas que lhe são mais próximas, mas “[...] às vezes eu acho que não
deveria ser, porque às vezes a gente pega uma equipe que não agrada tanto”. P10H-FN demonstra certo conformismo com sua “[...] sala já é assim, já é meio dividido em grupos”, e, por ter alguma dificuldade de transitar entre eles, formou um grupo de quatro amigos no qual faz todos seus trabalhos. P1H-IM diz que seu grupo de trabalho é formado por afinidade, no qual a maioria é prounista, indicando uma afinidade por condição social. P11M-FM participa de um grupo misto e refere que faz por critério de afinidade, o que em seu caso pode ser sinônimo de aceitação, uma vez que sofreu resistência para ser aceita em outros grupos. P9H-
FM afirma que “[...] sempre mudei, por escolha”, mostrando-se uma exceção em relação aos outros prounista, pois diz transitar bem entre grupos e fazer os trabalhos cada vez com um grupo diferente. Cabe ressaltar que esse aluno omitiu ser prounista durante todo o curso, não se identificando como tal para os demais alunos, pois considera que “[...] isso não faz diferença”. P12M-FM afirma que na “[...] na minha sala que eu participei mais assim, eles não ligam se a pessoa é prounista ou não, eles estão mais preocupados se ela vai fazer a atividade, se ela não é perdida no assunto”, indicando não haver barreiras a admissão de alunos prounistas nos grupos de trabalho.
A experiência de P11M-FM relata dificuldades enfrentadas para realização de trabalhos em grupo, expressas como estratégias de exclusão. Descreve que no início do curso, no momento de formar um grupo, tomou a atitude de abordar um grupo, dizendo:
“Posso fazer com vocês”? Ah. Já tem seis. “Posso fazer com fulano?” já tem seis, já tem seis, já tem seis. Já tem seis, você tinha que ir até a representante de sala e falar: “pode me indicar um grupo que ainda falta pessoas”? Aí quando você é enfiada num grupo, pior ainda, porque é um grupo fechado e as pessoas não estão nem aí para você.
PROF 01 chama isso de experiência clássica de exclusão, que “[...] é os grupos
separados, de não deixar incluir o fulano”, e relata que em uma determinada sala faziam isso de forma tão explícita que alguns professores tiveram que fazer “[...] um trabalho de desarticulação, mas nós não fomos vitoriosos. No outro semestre os alunos que eram prounistas pediram pra mudar de sala”. PROF 01 afirma que dinâmica de sala agressiva nesse nível é exceção, mas que “[...] situações agressivas é a regra em todo lugar, em toda sala”. Dessa forma, constata-se que a formação de grupos de trabalho é um momento no qual preconceitos e discriminações emergem, gerando situações de exclusão ao nível interpessoal, dado que é negada a essas pessoas a possibilidade de estabelecer relacionamentos (ABRAMS; HOGG; MARQUES, 2005). Essa é uma situação de discriminação, na qual, de forma ativa
um grupo tenta privar o acesso de outro, provavelmente com base apenas em prejulgamentos, sem maiores fundamentações (ALLPORT, 1979).
Em virtude do etnocentrismo existente nos grupos (TRIANDS, 2003), a cultura própria do grupo é usada como padrão para julgamento dos outros grupos. Os trabalhos em grupos seriam oportunidades para o que Allport (1979) chama de “hipótese do contato”, pois a interação entre pessoas com status iguais e com objetivos comuns, em ambientes amistosos, nos quais a interação cordial endogrupo e exogrupo possibilitaria a percepção de crenças errôneas e a redução do preconceito, porém, em geral, isso não ocorre. A realização de trabalhos em grupo poderia ser uma oportunidade de aproximação entre esses alunos, de troca de experiência e oportunidade de convivência, permitindo revisão de prejulgamentos. Pela lógica do contato social, a oportunidade de interação nos grupos de trabalhos aumentariam a atração, a conexão e a compreensão entre as pessoas (PETTIGREW, 1982 apud MANNIX; NEALE, 2005), no entanto, o que se percebe é que os trabalhos em grupos têm sido utilizados como oportunidades de demarcação de fronteiras e formas de discriminação, fazendo com que as diferenças sejam ressaltadas.