O tema escolhido para esta investigação vai ao encontro de minha experiência pessoal e profissional. Negra, com origem nas camadas po- pulares, em meu processo de escolarização, a questão do negro nunca foi problematizada na escola, inclusive, fui alvo de discriminações por parte de colegas e também da própria escola, explicitada em sua estrutura de divisão das turmas, cujo tipo físico indicava em qual sala de aula e com qual professora o aluno estudaria. A escola, como espaço de socializa- ção e convivência com a diferença, apresentou-se para mim de forma hostil, pois invariavelmente, ano após ano, encontrava-me em posição desprivilegiada em relação a outros alunos que, mesmo sendo pobres, recebiam melhor tratamento por serem brancos.
Em meu percurso formativo, a decisão de fazer um curso de gradua- ção foi uma decisão absolutamente individual, sem qualquer orientação advinda de meu contexto sociofamiliar. Isso significa dizer que me tor- naria a primeira pessoa com ensino superior em meu núcleo familiar. No entendimento dos meus pais, o compromisso com a escolarização dos filhos iria até o ensino médio completo, encerrando nesse ponto suas responsabilidades, pois, por necessidades financeiras, deveríamos aden- trar ao mundo do trabalho, obviamente em ocupações subalternas, com baixa remuneração, por não termos qualquer experiência trabalhista e também pelo grau de escolarização.
Quando tomei a decisão de cursar o ensino superior, esse fato cau- sou espanto nos meus familiares que, por não terem noção do que isso significava, só perceberam quando fui aprovada no vestibular. Minha aprovação motivou meus outros irmãos a retornarem aos estudos, que eles haviam abandonado por falta de perspectiva. Ao me verem na uni- versidade pública, eles buscaram fazer suas graduações, mesmo em ins- tituições privadas de ensino, por meio de programas governamentais de financiamento estudantil. Por terem prosseguido nos estudos até o ensino superior, dois foram aprovados em concursos públicos em bons cargos e outra irmã é profissional liberal bem estabelecida. Para famílias negras e pobres, a educação ainda é o meio pelo qual podem alcançar alguma mobilidade social.
Busquei por conta própria informações sobre cursos, universidades e vestibulares. Com isso tomei a decisão de cursar Ciências Sociais; essa opção seguiu na direção da minha experiência de mundo até aquele mo- mento, pois queria compreender e atuar de forma interventiva na so- ciedade. Frente a minha realidade, somente poderia cursar uma univer- sidade pública, mas não tinha também condições para pagar um curso preparatório. Estudando da forma que pude, fui aprovada no vestibular de uma universidade pública. A questão étnico-racial acompanhou-me durante a graduação, tanto pelo lado de ser uma das poucas negras na turma, quanto pelo fato de escolher como tema de minha monografia de curso as religiões afro-brasileiras.
Com relação à minha trajetória profissional, tive experiência como professora de Sociologia na educação pública e como educadora social em projetos comunitários, que ampliaram minha percepção de mundo, pois verifiquei que eu estava diante de problemas sociais profundamente arraigados na sociedade brasileira, na qual crianças, adolescentes, jo- vens e adultos, pobres e negros estão expostos cotidianamente aos mais variados tipos de violência, ao abandono escolar (baixa escolarização), à pobreza extrema, à falta de perspectiva de futuro, à realidade de um presente desalentador, entre tantas outras mazelas.
Tive como experiência marcante o trabalho na Organização Não Governamental (ONG) “Associação Nacional Casa Dandara”, com ação voltada para a valorização da cultura afro-brasileira. Por meio dessa ex- periência, pude conhecer o interior dos movimentos de organização da população negra, suas lutas por educação pública de qualidade, por va- lorização da cultura, defesa e garantia dos direitos de crianças e adoles- centes e por políticas públicas de acesso à educação, saúde e cultura. Desse modo, fui conformando minha identidade étnico-racial, pois me colocava diante daquilo que eu não sabia definir no início, mas que fazia parte de mim, isto é, minha indignação frente às desigualdades sociais produzidas em relação à cor da pele dos sujeitos.
Somada a essa experiência, outro trabalho relevante que desenvolvi se deu em um programa de pré-vestibular comunitário para jovens e adultos das camadas populares, desenvolvido por uma instituição cató- lica, cujo princípio voltava-se para a luta pelo acesso da população negra
ao ensino superior, principalmente o público. As ações empreendidas qualificaram meu desenvolvimento profissional, pois as discussões ver- savam sobre ações afirmativas, sistema de cotas raciais, ideologia me- ritocrática, educação antirracista, Estatuto da Igualdade Racial, enfim, temas que contribuíram na conformação do meu objetivo em retomar os estudos. As dimensões da educação e da diversidade étnico-racial confe- riram sentido à teia de significados que me constituíram como sujeito e cidadã comprometida com um mundo mais justo e igualitário.
Retornar à universidade por meio do mestrado constituiu-se uma forma de promover o diálogo entre a prática e a teoria, de estabelecer o movimento dialético da práxis que oxigena nossas convicções políticas. Para tanto, cursar o mestrado em Educação apresentou-se como uma possibilidade concreta, real de realizar esse exercício, principalmente no que se refere à interface entre a educação e a diversidade, especificamen- te a dimensão da implementação da Lei nº 10.639/03.
Todavia, retomar os estudos, após anos de conclusão da graduação, é um desafio para todos que tomam essa decisão, pois a essa altura já estamos no mundo do trabalho, somos pais e provedores. Porém, desta- cam-se as desigualdades de acesso e de oportunidades em que mulheres negras e pobres estão submetidas em nossa sociedade de caráter exclu- dente, estas se encontram no lugar mais baixo na escala da desigualdade social, inclusive recebendo os menores salários4. Parto do lugar de quem
conhece tal situação, pois a vivo cotidianamente.
As condições de produção da pesquisa esbarram em fatores que di- zem respeito às condições concretas de sobrevivência. Minha carga ho- rária de trabalho semanal é no total de 44 horas, somada às horas extras com atividades que ocorrem em fins de semana ou horários noturnos. Esse trabalho possibilita manter dignamente minhas condições de vida, inclusive o suficiente para realizar o mestrado em outra cidade, o que despendeu de minha parte recursos para custeio de transporte, hospeda- gem, alimentação e material didático.
4 Dados publicados em 2012 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que são
498.521 empregos formais de mulheres negras contra 7,6 milhões de mulheres brancas e 11,9 mi- lhões de homens brancos. Além disso, a mulher negra ganha, em média, R$790,00, e o salário do homem branco chega a R$1.671,00, ou seja, mais que o dobro.
Diante dos compromissos financeiros que possuo não poderia pedir demissão do meu emprego e concorrer à bolsa de estudos, pois seu valor não seria suficiente para custear minhas despesas mensais. Além disso, tenho dez anos de trabalho nessa instituição, um pedido de demissão acarretaria prejuízos no recebimento das verbas rescisórias. A instituição liberou-me do trabalho para a frequência às aulas, com o propósito de cumprir os créditos obrigatórios e eletivos. Entretanto, tenho o com- promisso de oferecer algum retorno que compense esse precedente, por meio da elaboração de produtos referentes à temática pesquisada, quer seja na forma de cartilha, quer seja em proposta de curso, artigos, dentre outros.