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1. CAPÍTULO I: PLANTEAMIENTO DEL PROBLEMA

1.3. OBJETIVOS

1.3.1. OBJETIVO GENERAL

Cunhado por Courtine em 1981 a partir dos estudos realizados por Foucault, o conceito de memória discursiva é compreendido como o que possibilita a toda formação discursiva produzir e reproduzir formulações anteriores, que em algum momento histórico já foram enunciadas. Segundo Gregolin (2007, p.71):

As redes de memórias, sob diferentes regimes de materialidade, possibilitam o retorno de temas e figuras do passado, os colocam intensamente na atualidade, provocando sua emergência na memória do presente. Por estarem inseridos em diálogos interdiscursivos, os enunciados não são transparentes legíveis, são atravessados por falas que vêm de seu exterior – a sua emergência no discurso vem clivada de pegadas de outros discursos.

A memória discursiva está associada às condições de produção dos discursos. Segundo Paveau (2007, p.241):

A memória no discurso (a expressão é nossa) sob forma discursiva ou interdiscursiva está, com efeito, estritamente ligada às condições sócio-históricas e cognitivas de produção dos discursos, que participam da elaboração e da circulação das produções verbais de sujeitos social e culturalmente situados.

O sujeito tem seu discurso constituído pela memória discursiva, pois ele traz em seu discurso marcas de algo já vivenciado. Segundo Pesavento (2007, p.41):

É sempre um sujeito que rememora, como aponta Bérgson, um indivíduo que evoca o tempo do vivido, que resgata lembranças, de forma seletiva, e que também esquece e exclui, de forma consciente ou inconsciente. Mas, pondera Fernando Catroga, mesmo a memória individual é formada pela coexistência, tensional e nem sempre pacífica, de várias memórias (pessoais, familiares, grupais, regionais, nacionais, etc.) em permanente construção devido à incessante mudança do presente em passado e as conseqüentes alterações ocorridas no campo das re-presentações do pretérito.

A noção de memória discursiva exerce, portanto, uma função ambígua no discurso, na medida em que recupera o passado e, ao mesmo tempo, o elimina com o apagamento que opera.

Ela repete um deslocamento não-conhecido, não reconhecido, que desloca no enunciado, uma repetição que é simultaneamente presente/ausente nas séries de formulações, ausente porque funciona como um modo de não – reconhecimento e presente em seu efeito, a repetição na ordem de uma memória lacunar (COURTINE, 2006, p.81).

A memória apresentada por Courtine (2006, p.79) é uma memória coletiva, segundo ele, uma “memória de todos”. Ela está muito próxima do conceito de interdiscurso, compreendido como o que “permite ao sujeito o retorno e o reagrupamento de enunciados assim como seu esquecimento e apagamento” (COURTINE, 2006, p.79).

Para compreendermos melhor essa relação precisamos ir aos estudos realizados por Pêcheux, mais especificamente em Semântica e discurso (1995), quando trata do interdiscurso. Essa questão está relacionada com o pré-construído, apresentado como o que fornece aos sujeitos, enunciados variados provenientes de espaços enunciativos diferentes. De acordo com Pêcheux (1995, p.162), o “todo complexo com dominante” das formações discursivas – submetido à lei de desigualdade e contradição-suborninação – caracteriza o complexo das formações ideológicas. O interdiscurso é um espaço no qual os sentidos se

contradizem, pois temos uma relação de semelhança e dessemelhança entre eles. Assim, quando analisamos determinado discurso não podemos deixar de atentar para a historicidade que o permeia.

Partindo da afirmação de Pêcheux, Courtine (2006, p.18) amplia o conceito estabelecendo um elo com a proposta foucaultiana. Designando assim como interdiscurso:

série de formulações marcando, cada uma, enunciações distintas e dispersas, articulando-se entre elas em formas lingüísticas determinadas (citando-se, repetindo-se, parafraseando-se, pondo-se entre si, transformando-se ... ) É nesse espaço interdiscursivo, que se poderia denominar, seguindo M. Foucault, domínio

de memória, que constitui a exterioridade do enunciável para o sujeito enunciador

na formação dos enunciados “pré-construídos”, de que sua enunciação se apropria.

Ao propor o interdiscurso como uma função domínio de memória, Courtine (1999) traz à tona a seguinte questão: quando escolhemos um dado enunciado, não somos nós que o elegemos, a nossa escolha é oriunda de um domínio de memória que apresenta em seu interior uma historicidade marcada pela descontinuidade. Gregolin (2003, p.26) assegura que:

A condição essencial da produção e da interpretação de uma seqüência não é inscritível na esfera individual do sujeito psicológico: ela resiste, de fato, na existência de um corpo sócio-histórico de traços discursivos que constitui o espaço de memória de seqüência. O termo interdiscurso caracteriza esse corpo de traços como materialidade discursiva, exterior e anterior à existência de uma seqüência dada, na medida em que essa materialidade intervém na sua construção. O não-dito da seqüência não é então, reconstruível na base de operações lógicas internas; ele envia a um já-dito, a um dito alhures: por isso, a noção discursiva de “pré- construído” deve ser distinguida da noção de lógica de “pressuposição”, da mesma maneira que a noção discursiva de “discurso-transverso” deve ser distinguida da noção de lógica de implicação.

Portanto, ao olharmos para o sujeito discursivo, devemos considerá-lo constituído por uma exterioridade que traz elementos do sócio-histórico que constituem o sentido. Sendo permeados, de acordo com Foucault, por relações de poder e saber.

Uma breve conclusão

Neste momento da pesquisa, atentamos para o fato de que o sujeito não é fonte de seus dizeres, ele vai construindo seu discurso retomando elementos anteriores e exteriores a ele; contrapondo discursos produzidos em diferentes momentos sócio-históricos, ideologicamente marcados, produtos de uma dada exterioridade que corroboram para a constituição discursiva do sujeito.

Retomando a questão do sujeito discursivo Cipriano Algor, bem como as relações estabelecidas entre ele e as condições de produção de seu discurso, não podemos deixar de fazer uma breve incursão pelo momento histórico no qual está inserido.

Atualmente, por conta dessa sociedade pós-moderna capitalista, observamos que os sujeitos estão, a cada dia que passa, apresentando novas e variadas dificuldades para constituírem sua identidade. A sociedade dita normas que fazem com que os sujeitos tornem- se escravos do consumo exagerado e sintam simultaneamente, por conta dos altos índices de violência, uma necessidade exacerbada de “proteção”. Com isso, atentamos para o fato de que a procura de lugares que possibilitem a oportunidade de consumirem e sentirem protegidos aumentou muito nos últimos tempos. Em A caverna (2000), o lugar eleito para saciarem essas duas necessidades foi o “Centro de Compras”.

As relações sociais tornaram-se fragmentadas e efêmeras, há uma instabilidade pairando no ar a todo instante; os sujeitos estão a cada dia mais envoltos por essa instabilidade. Tendo em vista essa insegurança, notamos que há uma busca por uma “suposta” segurança, nem que para isso tenhamos que abrir mão de determinados valores. Cipriano, em meio a essas dúvidas, prefere ter uma existência instável a ficar no “Centro de Compras” onde teria essa suposta segurança.

Segundo Bauman (2000, p.37): “ser moderno passou a significar, como significa hoje em dia, ser capaz de parar e ainda menos capaz de ficar parado.” E isso ocorre, pois não somos capazes, ou melhor, nunca teremos condições “de atingir a satisfação: o horizonte da satisfação, a linha da chegada do esforço e o momento da auto-congratulação tranqüila movem-se rápido demais”.

Cipriano Algor é um sujeito que foge aos padrões de “normalidade” em nossa sociedade, pois ele questiona a atitude dos demais sujeitos frente ao exagerado consumismo. Bauman (2000, p.30) chama a atenção com a seguinte colocação:

O que está errado com a sociedade em que vivemos, disse Cornelius Castoriadis, é que ela deixou de se questionar. É um tipo de sociedade que não mais reconhece qualquer alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dirá provar) a validade de suas suposições

tácitas e declaradas.

Vivemos em uma sociedade na qual os sujeitos acreditam em uma liberdade, mas essa “suposta” liberdade camufla vários aspectos que mostram que ela está envolta por relações de poder que demonstram a não liberdade dos sujeitos. Apesar de depararmos com essa situação observamos que os sujeitos não às questionam, aceitam “as verdades” ditadas por uma sociedade capitalista e consumista. Cipriano Algor interroga e não aceita essas “normas” ditadas pelo poder e é isso que o faz diferente dos demais sujeitos.