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Objektivitet i en seleksjonsprosess ved bruk av kunstig intelligens

O trailer do filme Psicose tem duração de seis minutos e trinta segundos e, assim como o filme, foi rodado em preto e branco. O pequeno filme tem apenas um personagem-narrador, o próprio diretor, que nos apresenta uma casa e um motel onde haviam acontecido dois crimes. Ele constitui um marco na história dos trailers, a meu ver, por dois motivos principais: a) a presença do diretor, já famoso, como personagem constituinte da diegese do trailer; b) nenhuma cena do filme propriamente dito é mostrada.74

Neste trailer, Hitchcock nos “escolta” em um tour pela locação de seu novo filme e descreve de maneira realista os cenários onde o longa metragem foi filmado, que incluem:

a) O motel e o quarto em que a personagem fica hospedada e é assassinada. b) A velha casa de Norman Bates (dono também do hotel).

Nele encontramos a presença de dois narradores: o narrador over que divulga o filme e o próprio diretor do filme que aparece em cena enquanto personagem- narrador, já dito anteriormente.

74 Encontramos no trailer de Psicose uma estrutura relativamente parecida com a do trailer de Cidadão

Kane (Orson Welles,1941), no qual ouvimos a voz off do diretor que apresenta o elenco do longa (em situações de backstage) e uma sinopse da história, sem referências a cenas, nem às locações do longa.

50 FIGURA 11: Voz over: “O fabuloso Sr. Alfred Hitchcock está presetes a escoltar você.” 75

FIGURA 12: Voz over: “em um tour pela locação do seu novo filme Psicose.” 76

É interessante observar que um dos primeiros verbos utilizados pelo narrador- divulgador é o “acompanhar/escoltar” (to scort). O verbete insinua que o espectador será acompanhado com o intuito de ser protegido, fato esse que já cria os primeiros indícios que ele adentrará em um ambiente ameaçador.

Sem detalhar os personagens e as motivações de suas ações, o `fabuloso Sr. Hitchcock' inicia o trailer, com a voz pausada e pretensamente séria que o caracterizou, e a seguinte afirmação:

“Boa tarde. Eis aqui um motel muito tranquilo, escondido da estrada principal e, como se vê, com aspecto perfeitamente inofensivo, embora agora tenha ficado conhecido como a cena de um crime.”

(Grifo nosso)

“Este motel também tem, em anexo, uma velha casa, que é, se me permite, um pouco mais sinistra que o motel propriamente dito. E nesta casa, decorreram os acontecimentos mais terríveis, mais

tenebrosos.” (Grifo nosso)

De acordo com J. Pouillon, tal qual descrito por Todorov no texto As

categorias da narrativa literária, é possível classificar a relação narrador e personagem de três diferentes maneiras:

a) Narrador > Personagem (A visão por “trás”); b) Narrador = Personagem (A visão “com”)

51 c) Narrador < Personagem (A visão de “fora”).

No caso do narrador que efetivamente narra a história neste trailer, essa relação pode ser classificada como o narrador sendo maior que o personagem, ou seja, sabe mais informações do que os personagens que ele está apresentando.

Nesse trailer, o diretor consegue dizer muito sobre os elementos do filme, despertando a curiosidade do espectador sobre os desdobramentos dos fatos ali relatados. O diretor constrói a narrativa do trailer fazendo ver ao público que ele é uma peça do suspense que constitui o filme. “Na forma originária do suspense, é indispensável [diz Hitchcock, na entrevista a Truffaut] que o público esteja perfeitamente informado dos elementos presentes. Do contrário, não há suspense.” (HITCHCOCK,in:TRUFFAUT &SCOTT, 2004, p. 75)

Assim quando, no trailer, Hitchcock anuncia a ocorrência de um crime e de

acontecimentos terríveis, o diretor cria um clima de expectativa e curiosidade: o espectador, ao entrar na sala de cinema para ver o filme, já sabe que presenciará um ou mais crimes. Isto não será, a ele, surpresa. Contudo, durante todo o filme o espectador estará submetido a um clima de mistério, medo, tensão, suspense, nele provocado anteriormente pelo trailer.

Cabe destacar que, para Hitchcock, há uma diferença precisa entre surpresa e suspense. E ele comenta esta diferença nos seguintes termos:

É frequente que haja nos filmes uma confusão entre essas duas noções. Estamos conversando, talvez exista uma bomba debaixo desta mesa e nossa conversa é muito banal, não acontece nada de especial e de repente: Bum, explosão. O público fica surpreso, mas, antes que tenha se surpreendido, mostram-lhe uma cena absolutamente banal, destituída de interesse. Agora, examinemos o suspense. A bomba está debaixo da mesa e a plateia sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista colocá-la. A plateia sabe que a bomba explodirá à uma hora e sabe que faltam quinze para uma – há um relógio no cenário. De súbito, a mesma conversa banal fica interessantíssima porque o público participa da cena. Tem vontade de dizer aos personagens que estão na tela: “vocês não deveriam contar coisas tão banais, há uma bomba debaixo da mesa, e ela vai explodir”. No primeiro caso oferecemos ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, oferecemos quinze minutos de suspense. Donde se conclui que é necessário informar ao público sempre que possível, a não ser quando a surpresa for twist, ou seja quando o inesperado da conclusão

52 constitui o sal da anedota. (HITCHCOCK,in:TRUFFAUT &SCOTT, 2004, p. 77)

O trailer de Psicose constitui precisamente este elemento, parcialmente informado, que cria a expectativa de suspense no espectador. Há ainda, no trailer de

Psicose, assim como no filme, claramente uma estética do voyeurismo, característica essa muito comum nos filmes de Hitchcock, como já apontado, estética amplificada pelo fato de sermos escoltados pelo próprio diretor ao interior da ação e ao cerne da trama: os acontecimentos tenebrosos. Vale lembrar que [no trailer] nenhum personagem é conhecido pelo público e a única referência direta a cenas do longa é a visão em plano médio, acompanhado do grito, da jovem antes de ser assassinada. Convém destacar ainda que a cena utilizada no trailer é interpretada por outra atriz, essa cena não faz parte do longa e, nela, o chuveiro está desligado. Tudo parece ter sido idealizado de forma a não desvendar [no trailer] o momento e o desenrolar da sequência do filme.

FIGURA 13–Fotograma da cena do chuveiro do trailer.

FIGURA 14-Fotograma da cena do chuveiro do longa metragem.

No fotograma da cena na trailer (fig. 12) nota-se o claro-escuro da foto, na do longa (fig. 13) a câmera está na diagonal, na direção para a qual os olhos dela estão

53 voltados. A dramaticidade é reforçada pelo grafismo da água que cai do chuveiro e também escorre pelos cabelos e rosto dela.

2.2. A PRESENÇA DO HITCHCOCK EM CENA NO TRAILER

A presença do diretor em cena já se tornara um traço típico de suas produções audiovisuais. Em diversos filmes, fez pequenas participações, muitas vezes imperceptíveis, como em Blackmail (Chantagem e confissão, 1929) e Lifeboat (Um

barco e nove destinos, 1944). Nas cenas, o diretor ora interagia com a mise–en-scène, ora, como em Vertigo (Um corpo que cai, 1958), ele apenas cruza a cena. Essa marca ganhou destaque quando Hitchcock dirigiu e apresentou a série televisiva intitulada

Alfred Hitchcock Presents.

A série, exibida a cada domingo no canal CBS, tinha duração de trinta minutos e contava “histórias curtas do tipo thriller ou suspense que, se fosse necessário, poderiam incorporar elementos fantásticos (...)”. (PAZ, 1999, p.90) O elemento comum a todas elas era um final surpreendente ou irônico. (Grifo nosso) Embora alguns episódios não fossem do gênero suspense, o diretor tinha “um especial interesse por histórias centradas em personagens ordinários envoltos pelo desejo, destino ou azar em situações estranhas e rocambolescas”. (idem)

O diretor conseguia introduzir em sua estrutura narrativa os anúncios de publicidade das empresas que o financiavam, a exemplo do que acontece no primeiro episódio da série, intitulado Revenge, em que ele interrompe seu discurso para nos contar que os atores necessitam de alguns minutos a mais para terminarem de se arrumar e por isso a publicidade será inserida.

Nessa produção, o diretor apresentava semanalmente uma nova história de mistérios e crimes, proferindo um discurso que instigava o espectador a assisti-la e acompanhá-la. Ao final do episódio, o diretor comentava a história e convidava o espectador a assistir a série na semana seguinte. Devido à mesma, o diretor ganhou uma maior popularidade entre o público, como ele recorda:

54

Antes de la televisión, yo recebía alrededor de una docena de cartas a la semana. Ahora recibo cientos... Llevo trienta años dirigiendo películas, pero precisamente el otro dia oí por causalidade a una dama decir: Es Alfred Hitchcock, el de la televisión.77

(SCHATZ, 1992, apud PAZ, 1999, p. 45 )

A popularidade do diretor cresceu ao longo dos anos e das temporadas da série, principalmente pelo sucesso que a mesma obteve. No final de 1956, ano seguinte à sua estreia, a série televisiva foi eleita como a quarta melhor série pelo sistema Nielsen e, dois anos depois, foi premiada com o Golden Globe por ser considerada a melhor série televisiva.

Em 1959, a Nielsen realizou novamente uma pesquisa e a série ainda possuía um número alto de audiência, obtendo o sétimo lugar, com 21.2 pontos de audiência:

Rating Nielsen:78

1. Gunsmoke 30,8

2. Have Gun-Will Travel 26

3. Rifleman 24,3

4. I’ve got a secret 21,7

5. Peter Gunn 21,5

6. Best of Grouch 21,3 7. Alfred Hitchcok Presents 21,2 8. Joseph Cotton 20

9. Wyatt Earp 20

10. Frontier Justice 19,8

TABELA 1 – Ranking de audiência dos programas televisivos americanos em 1959.

Fonte: PAZ, 1999, p.65.

77 “Antes da televisão eu recebia ao redor de dezenas de cartas por semana. Agora recebo centenas...

Levo trinta anos dirigindo filmes, mas precisamente outro dia ouvi por casualidade uma mulher dizer << É Alfred Hitchcock, o da televisão.”

78 Sistema que mensura a audiência de programas televisivos, desenvolvido pelo Nielsen Media

55 O sucesso de público conferiu à série apresentada por Hitchcock a permanência em sete temporadas, ganhando um novo nome em 1962: Hitchcock

Hour. Essa série foi, de certa maneira, uma inspiração para o filme Psicose e o diretor utilizou parte da equipe e cenários para a realização do mesmo. A cena em que Marion Crane encontra o policial na estrada, enquanto fugia com o dinheiro que acabara de roubar, foi filmada e construída de maneira muito semelhante a uma cena de um dos episódios da segunda temporada da série: On more mile to go.

Quanto à estrutura do trailer, ela parece ter sido foi influenciada pelas estruturas utilizadas nas apresentações dos episódios da série e em algumas narrativas fílmicas realizadas anteriormente pelo diretor. O traço principal dessa estrutura é a teatralidade: “O teatro é uma prática que supõe um “lugar calculado” do qual se observam as coisas.” (BARTHES, apud XAVIER, 2003 p.61)

A maneira como o diretor se relaciona com o espectador nessas produções o transforma em um espectador participativo daquela narrativa em questão: Hitchcock olha diretamente para a câmera, o que estabelece o diálogo direto – e cumplicidade - do diretor com seu público. Ambas as produções, trailer e série, foram escritas pela mesma pessoa: James Allardice, o trailer foi filmado por Rex Wimpy, após o final das gravações.