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Ricardo

“Eu acho que desde quando eu era criança eu já me via gay. Na verdade, o que a maioria das pessoas teve é a descoberta da sua sexualidade, ou aquele estalo, eu não. Na verdade, eu sempre me vi efetivamente gay, as minhas brincadeiras, meus brinquedos, meus desejos, mesmo na infância já eram muito dentro desse universo gay. Naquele momento, como criança de fato, eu não sabia o que era, só sabia que era diferente e isso era um fato”.

Conheci o Ricardo, em 2005, quando estava iniciando o meu doutorado e ele tinha 30 anos na época. Ele sempre me chamou a atenção pelo fato de possuir uma inteligência e um gosto estético ímpar, além de um gesticular feminino e um humor ácido que o diferenciavam dos demais. Formado em designer e trabalhando como publicitário, sempre esteve envolvido no que denomina “o universo da moda”. Para ele, estar neste universo facilitou a aceitação da sua identidade gay, pois este universo seria totalmente gay. A minha convivência com ele se intensificou por volta de 2006 quando comecei a participar mais da sua turma de amigos. Em vários momentos, a presença do Ricardo nas discussões do grupo trazia visões engraçadas e sarcásticas do universo gay. Segundo ele. o mundo estava cada vez mais se tornando gay, o que significaria dizer que o mundo estava se tornando mais livre, sofisticado e “chique”. Era assim que ele via o universo gay e assim que tentava se posicionar na sua vida.

Entrevistei o Ricardo em setembro de 2008 e, por duas vezes, discutimos a sua entrevista e os resultados da minha pesquisa. Ele conta que sempre foi “pintosso”16 e que

dificilmente a família deixou de perceber isto na sua infância. Acredita que por este motivo nunca teve que sair do armário para a família, pois eles já sabiam que era gay. Chegou a afirmar que cresceu num mundo lúdico infantil, onde os seus brinquedos e brincadeiras estavam relacionados ao mundo gay e não a um mundo masculino ou feminino. Este universo lúdico era muitas vezes influenciado pela mídia, como segue:

“Enquanto o meu irmão e todos os amigos dele brincavam de jogar bola, soltar pipa, eu brincava de playmobil e de fazer casinhas. E era engraçado, engraçadíssimo isso, porque eu reproduzia isso das novelas, aquelas novelas de época, aquelas coisas maravilhosas das mansões, dos personagens, aí eu recriava esse universo meio que na brincadeira, assim, fazendo decorações de móveis com caixinhas de fósforos, brincava que o playmobil era os personagens.”

A diferenciação que ele sentia em relação ao irmão fez com se isolasse e criasse um universo próprio, onde poderia assim fugir do estigma e da diferença. O estigma isoladamente seguiu a vida do Ricardo até a vida adulta, fazendo com que tivesse poucos amigos e dificuldades de se relacionar. Apenas quando começou a se socializar no mundo gay é que afirmou que sentiu que realmente tinha amigos. Afirmava inclusive que estes amigos eram a sua nova família, a família que ele escolheu, que dava suporte a sua vida e influenciava as suas decisões.

Segundo Ricardo, a cultura gay estaria permeada por esta ambiguidade entre o masculino e o feminino. Ambiguidade esta que estaria presente desde a infância, com brinquedos ligados ao mundo feminino como o playmobil, até a vida adulta. Em algumas situações, a sensibilidade do feminino traria mais benefícios aos gays, como, por exemplo, uma melhor habilidade para trabalhar em campos como o da moda, artes e arquitetura, pois os gays seriam “mais visuais”. No entanto, segundo ele, existia no mundo uma tendência da cultura predominante emular o estilo de vida dos gays.

Wagner

“Acho que o objetivo que eu botei na minha vida desde sempre, desde que percebi que sou diferente...em relação a minha sexualidade, né? Sempre tive aquele sentimento...meu norte sempre foi: eu preciso vencer na vida por que a “Vida já me deixou uma coisa muito

desfavorecida em relação a um todo, se eu não vencer vou ser uma bichinha , mais um veado passando necessidade e vergonha’. Sempre norteei que eu preciso vencer na vida para adquirir o respeito, se não for por um lado, vai ser por outro.”

A entrevista com o Wagner foi uma das mais difíceis e ricas que realizei, pois em vários momentos ele chorou ao falar da sua relação com a família. Conheci-o em 2005 por meio de um amigo em comum. Alto, másculo e sempre vestindo calça jeans, camiseta e tênis, não bebia e nunca tinha feito uso de nenhuma droga. Chegou a dizer que não podia se classificar como um bom consumidor gay, pois não costumava frequentar boates. Apesar disso, afirmou que seguia um padrão estético de consumo valorizado no universo gay, que seria o do reforço da hipermasculinidade. A sua critica maior era em relação ao preconceito e descriminação existente no mundo gay, e que os gays estavam reproduzindo os mesmos erros de seus algozes.

Fizemos a entrevista na varanda da casa do Wagner em novembro de 2008, e quando falou da família começou a chorar. Muito emocionado falava repetidamente que precisou sentir que venceu na vida para provar à família que era muito mais do que ser simplesmente gay. Acreditava que a vida era muito mais dura para quem carregava o estigma da homossexualidade, e que um dos únicos caminhos para enfrentar este estigma era vencendo na vida. O respeito não era um direito nato para os gays, mas tinha que ser conquistado.

O processo da “saída do armário” do Wagner foi cercado de dor e negação, e só se concretizou quando ele tinha 24 anos. Até esta idade ele rejeitou esta sexualidade e tentou de várias formas anulá-la, internando-se em um convento de padres, tentando ter relações sexuais heteros e até mesmo evitando entrar em ambientes onde pudesse encontrar outros gays. No época em que o entrevistei, ele estava namorando há 3 anos e se sentia plenamente confortável com a sua identidade, mas ainda temia da reação dos pais quando descobrissem.

João

“Você sabe quando você trabalha de segunda a sexta, e no sábado à noite você volta para casa, pois a boate The Week é nossa casa e, em casa, aí você encontra a família, a sua família de verdade. Para mim, família é aquela que a gente elege pelo coração, família, irmãos do coração, então, eu vejo todos os meus irmãozinhos que eu amo, e que eu vejo passando problema, e que durante a semana a gente se fala ao telefone, e chega domingo você encontra

na boate e abraça, beija todo mundo. É o momento de celebração da amizade, da vida, da música, do que é bom, do que é divertido. (...) gosto muito quando os meus amigos querem dançar comigo, gosto de me exibir, gosto de tirar a camisa, gosto de tirar (a camisa) no queijo, gosto de ser desejado, gosto de seduzir, gosto de me sentir bem, gosto de ver as pessoas me vendo, vendo e elogiando, então ali é um momento disso, na verdade... não só de relações de amigos, mais na verdade de me tornar uma car interessante dentro do meu meio”.

O João tinha 23 anos quando o encontrei pela primeira vez numa festa na casa de um amigo em comum, e o entrevistei 2 anos depois. Alto, moreno, de corpo esculturalmente malhado e com um sorriso e uma forma de falar de uma sinceridade desconcertante, ele parecia representar de forma clara o grupo de gay denominados Barbies, que hipervalorizam a figura do masculino. De uma família pobre de protestantes, de um município metropolitano do Rio de Janeiro, ele trabalhava numa firma de advocacia durante o dia e fazia faculdade de administração à noite. Sua história é marcada por vários momentos onde enfrentou tanto dificuldades financeiras como de aceitação da sua orientação sexual, por parte da família e da sociedade.

Desde muito cedo, João assumiu para a família que era gay e até o momento da entrevista relatava que sofria muitas pressões dos pais religiosos, por acharem que ele estava pecando. Em contrapartida a toda esta pressão, ele gostava de dizer que sempre que possível demonstrava para todos que era gay, e que ser gay é ser normal. Durante a entrevista e em vários momentos que conversei posteriormente, ele sempre se mostrava entusiasmado em ser gay e afirmava que mesmo que pudesse escolher, escolheria ser gay. Os locais de frequência gay como praia e boate eram sacralizados por ele, pois nestes locais, segundo ele, que se sente livre e onde encontra a sua verdadeira família, seus amigos.

João é consumidor ávido de anabolizantes e costumava também tomar estimulantes quando ía dançar na boate. Associa a boate com casa, onde pode encontrar os amigos, que para ele é a sua família, e pode fugir da realidade. Essa fuga da realidade pela ida à boate e raves era frequentemente vivida por muitos.