Ante a necessidade de narrar os eventos que constituem a história do processo de espacialização das relações de poder entre as famílias Pereira e Carvalho no sertão do Pajeú pernambucano e mais precisamente no município de Serra Talhada, necessário se faz a compreensão do espaço em questão.
O sertão do Pajeú corresponde à microrregião banhada pelo rio Pajeú, que nasce na chapada da Borborema, numa região conhecida como maciço dos Cariris Velhos na serra da Balança, entre os estados de Pernambuco e Paraíba.
É neste espaço do sertão do Pajeú pernambucano que está situada a cidade de Serra Talhada. Fica distante 415 km da capital do estado, limita- se ao norte pelo estado da Paraíba, ao sul com os municípios de Floresta e Betânia, a leste com os municípios Calumbi e Triunfo e a oeste com os municípios de São José do Belmonte e Mirandiba. A área do município é de 2.980 km2 representando 3% do total do estado de Pernambuco. É conhecida nacionalmente como a capital do xaxado e terra natal do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (Lampião). Cidade polo em oferta de equipamentos de saúde, educação e comércio, Serra Talhada possui a sexta maior população do interior do estado com 79. 2321 habitantes, ficando atrás em
número de habitantes apenas dos municípios de Caruaru, Petrolina, Vitória de Santo Antão, Garanhuns e Santa Cruz do Capibaribe.
A base econômica de Serra Talhada é representada atualmente pelo forte comércio, onde a principal empresa do município é a Tupan Construções, de propriedade da família Carvalho. Foram seus antepassados que no final do século XIX e início do século XX iniciaram esta atividade e contribuíram para a consolidação de Serra Talhada como centro regional do comércio varejista e atacadista dos mais variados bens de consumo.
Serra Talhada é centro de um mercado consumidor que abrange 42 cidades e uma população de aproximadamente um milhão de pessoas. O setor industrial embora restrito, está voltado para a transformação de matérias-primas vinculadas à produção agropecuária, à transformação de produtos minerais não-metálicos, metalúrgicos, madeira, mobiliário, vestuário, calçados e artefatos, produtos alimentares, bebidas, etc.
Outra grande atividade na economia municipal, que também se caracteriza pela polarização na região é o atendimento médico-hospitalar, sendo, hoje, o quarto maior centro de oferta de serviços médicos de Pernambuco, atendendo praticamente em todas as especialidades, além de contar com grande número de hospitais, clínicas, casas de saúde, consultórios e laboratórios.
Visando a apreensão dos eventos que dão conta da formação histórica de Serra Talhada, através das relações entre famílias, necessitamos estabelecer um retorno analítico ao período colonial da história do Brasil, momento em que a coroa portuguesa discutia a necessidade de empreender na colônia a atividade pecuária, a fim de satisfazer as necessidades de transporte da cana-de-açúcar, produzida no litoral, bem como do próprio mercado interno de carne bovina.
A partir do século XVI, quando o governo português passou a organizar uma estrutura administrativa para a sua colônia no novo mundo, através da concessão de capitanias- hereditárias, a economia colonial se baseava fortemente na produção do açúcar inserida no sistema de plantations2 e que contava com financiamento particular de famílias portuguesas
que intencionassem a transferência de seus negócios da metrópole para a colônia.
Neste sentido, muitas famílias metropolitanas vislumbraram a possibilidade de estabelecerem seus empreendimentos na colônia, atuando na elaboração e transformação dos espaços coloniais a fim de garantirem seus interesses econômicos, sociais e políticos, que serão tratados ainda neste capítulo.
Uma das principais famílias portuguesas a se estabelecer na colônia e proprietária de uma grande vastidão de terras, onde hoje e a partir da segunda década do século XX conhecemos por Nordeste brasileiro, foi a família Garcia D`Ávila, que situada em Salvador, exercia aqui, o papel de escritório administrativo do próprio governo português, determinando inclusive as diretrizes da ocupação das terras coloniais concedida pela Coroa a investidores portugueses através do sistema de sesmos.
2Sistema produtivo do período colonial do Brasil, marcado pela monocultura do açúcar, mão-de-obra escrava e
A concessão de sesmarias começou em Portugal, durante a Idade Média, quando o Rei D. Fernando, com o objetivo de restaurar a cultura de cereais, abandonada em favor de outras mais lucrativas, decretou em 1375, uma lei mediante a qual passou a distribuir terras aptas para o cultivo a novos proprietários, segundo o sistema de sesmos (BANDEIRA, 2000, p. 24).
Comumente, os investidores portugueses, interessados na lucratividade do açúcar buscavam, na colônia, a concessão de sesmarias próximas ao litoral, porém, a Coroa portuguesa percebendo a necessidade do empreendimento da pecuária para o fornecimento de meios de transporte para a cana-de-açúcar e do incentivo ao mercado de carne e couro bovinos, iniciou na segunda metade do século XVII a concessão de sesmarias no interior da colônia, a fim de que fossem criados os espaços dedicados a atividade pecuária, incentivada pela isenção fiscal promovida pelo governo português. Desse modo, os colonizadores que não dispunham de capital para instalar engenhos açucareiros ou até mesmo para plantar cana, começaram a dedicar-se à atividade pecuária, especialmente a criação de gado bovino.
A pecuária tornou-se, portanto, uma atividade econômica que complementava a atividade açucareira e que desenvolvida em áreas longínquas, forçou um processo de interiorização e consequentemente a conquista dos sertões. A criação de gado proporcionou, no sentido de ocupação das terras interioranas, a principal “alavanca” econômica e, sobretudo no concernente as relações sociais estabelecidas naquele espaço. O gado é capaz de se deslocar, necessitando apenas de alguém que o conduza, dessa forma a figura do vaqueiro ganha proporções identitárias do sertão e da necessidade de conhecimento das terras percorridas. Nas longas marchas pelo interior da colônia foram-se criando uma rede de fazendas, as quais abriram caminho para o processo de conquista do sertão (ABREU, 1960), e ainda para o processo de constituição de novas relações sociais, principalmente entre as famílias colonizadoras.
Diante desse processo, o Rio São Francisco e o vale dos seus afluentes, entre eles o Pajeú, foram muito utilizados pelos colonizadores pernambucanos e baianos, que com suas famílias ocuparam as terras interioranas da colônia. Segundo Capistrano de Abreu (1982), na margem pernambucana, a Casa da Torre possuía 250 léguas de terras. Nesta faixa de terras, além do sertão de Rodelas na Bahia e através do Rio São Francisco, existiu mais de 800 currais, um deles será a Fazenda Serra Talhada.
No início do século XVIII, o português Agostinho Nunes de Magalhães, deixa, com sua família, a metrópole portuguesa em direção a colônia, com a finalidade de arrendar sesmarias e iniciar a atividade açucareira. Porém, Sá (2001) explica que ao chegar à colônia,
Magalhães percebe a sua limitação financeira para tal empreendimento e assume junto aos Garcia D`Ávila da Casa da Torre em Salvador, o arrendamento de uma poção de terras no curral de Pajeú de Flores, interior da colônia, além do Rio São Francisco, margeando o rio Pajeú e ao sopé de uma serra que parecia estar cortada à prumo, isto é, Talhada.
Neste momento, por volta do ano de 1730, nascia a Fazenda de Serra Talhada, grande fazenda de criação de gado arrendada pela família Magalhães no sertão do Pajeú pernambucano. Ainda no século XVIII surgiram as primeiras vilas do sertão, justamente originadas a partir de fazendas de gado ou de aldeamentos indígenas. Em 1783, o antigo curral de Pajeú de Flores estabelecido pelos Garcia D`ávila se torna Freguesia, funcionando como centro administrativo de seu extenso território.
Na fazenda Serra Talhada, no ano de 1789, segundo Sá (2001), Filadélphia Nunes de Magalhães, filha de Agostinho Nunes de Magalhães ordena a edificação, sob mão-de-obra escrava, de uma capela invocada a Nossa Senhora da Penha que até hoje é a padroeira da cidade de Serra Talhada.
O trabalho escravo representou, além de outras questões, como o crescimento econômico da região de afluência do rio São Francisco, uma forma de proporcionar prestígio e poder aos mandatários dessa região. Índios e negros foram perseguidos e aprisionados, sob autorização da coroa metropolitana no intuito de representarem a mão-de-obra fundamental para a estruturação das vilas interioranas do sertão, estas normalmente construídas como entrepostos nas rotas de passagem do gado, a exemplo de Serra Talhada.
Em 1810, a freguesia de Flores é elevada a categoria de vila e sede de comarca, a qual pertencia Serra Talhada, segundo (NOGUEIRA, 1999, p. 32), “o município de Serra Talhada teve origem no curral de Pajeú de Flores”, denominação das terras da margem pernambucana do São Francisco pertencentes aos Garcia D`Ávila da Casa da Torre, que através da política de arrendamentos de propriedades deu origem, além da fazenda Serra Talhada a São José do Belmonte e Mirandiba”.
Favorecida pela sua localização geográfica, em meio às rotas de comércio de gado bovino, Serra Talhada passa a ser um ponto de convergência de outras grandes famílias da região, que se dedicavam a criação e ao comércio de gado, bem como ao cultivo do algodão. Entre essas famílias estavam os Pereiras vindos do Ceará e os Carvalhos que acessam a margem pernambucana do São Francisco vindos da Bahia. Duas famílias que através do processo de espacialização das relações de poder, vieram a transformar o espaço serratalhadense em palco de uma guerra quase que secular e que veremos adiante.
1.2– DA CONFIGURAÇÃO ESPACIAL: A CHEGADA DE PEREIRAS E