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Part I: Synthesizing chapter

1.2. Objectives of the study

Como a crença no poder da palavra proferida era uma constante em muitos dos países vizinhos de Israel, e como existiam vários conflitos entre eles, é mais do que natural concluir que todos usavam as maldições como pedido de castigo divino contra os inimigos. Assim, Na opinião de Roland K. Harrison, as maldições não eram de uso exclusivo de Israel. Isto era típico de todos os povos do Oriente Próximo, e muito comum o seu uso nas guerras.235

Em 1Sm 17, na narrativa que apresenta o famoso combate entre Davi e Golias, o filisteu gigante, é possível notar o uso de maldição com esta intenção. Apesar da suposta e aparente grande vantagem em favor do combatente filisteu naquela ocasião, ele não dispensou o uso de uma maldição para tentar obter a ajuda de seus deuses contra Davi. O texto não fornece a fórmula nem as palavras desta maldição, simplesmente menciona que o filisteu amaldiçoou a Davi pelos seus deuses (1Sm 17,43). Mesquita acha que não usou uma maldição, mas sim que, jurou pelos seus deuses naquele dia eliminar a Davi.236 Contudo, não há base segura para esta interpretação.

A palavra utilizada para descrever este ato de Golias foi o termo hebraico llæq; (qalal).237 Esta palavra é a mais comum em todo o AT para descrever uma maldição e, a princípio, poderia dar a entender que o adversário de Davi estava apenas desprezando-o com aquelas palavras, já que, basicamente, ridicularizar é o sentido primário deste termo. Olhando, porém de forma mais acurada para o texto bíblico, este pensamento não perdura. Embora

235 Roland K. Harrison, Jeremias e Lamentações: introdução e comentário, São Paulo, Edições Vida Nova, 1980, p.182.

236 Antônio Neves de Mesquita, Estudos nos livros de Samuel: primeiro livro dos reis de Israel, 2.ed., Rio de Janeiro, JUERP, 1979, p.77.

poderia parecer dispensável para tão poderoso guerreiro o uso de tal arma, ele não a

dispensou. O uso do termo llæq; (qâlal) em sua forma do Piel (lLeqæy] - yeqallêl), que

é intensiva, caracteriza de forma suficiente esta palavra como sendo uma maldição lançada contra Davi.238

Provavelmente, Golias não deveria ser o único filisteu a usar maldições com esta intenção. Esta poderia ser uma prática comum no meio belicoso em que vivia. Afinal, na época inicial da monarquia israelita, eles “se mostravam quase proverbialmente agressivos”.239

Além dos filisteus é possível observar no AT, ainda, outros povos fazendo uso de maldição como pedidos de intervenção divina contra os inimigos. Os Capítulos 22-24 do Livro de Números são bons exemplos disto. Neles é descrita a ocasião em que Balaão foi contratado por Balaque para amaldiçoar o povo de Israel. Olhando com atenção para o texto de 22,6, nota-se que a intenção de Balaque não era outra senão a de usar a maldição como uma forma de vencer Israel. Ele estava com muito medo, pois notava que Israel era mais poderoso do que o seu povo e esperava que uma maldição pudesse enfraquecer o seu inimigo para que então tivesse condições adequadas para enfrentá-lo e vencê-lo.

Gordon J. Wenhan parece acertar em cheio quando diz que “Balaque desejava um homem que pudesse pronunciar uma poderosa maldição contra os seus inimigos, que os levasse à derrota”.240 Não poderia haver outra intenção diante desta situação emergencial.

238 Nelson Kirst, em Dicionário hebraico-português & aramaico-português, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1989, p.214.

239 T. C. Mitchell, Filisteus, em J. D. Douglas (ed.), O novo dicionário da Bíblia, São Paulo, Edições Vida Nova, 1983, p.628. v.1.

Também é importante notar que haviam três povos envolvidos nesta empreitada contra Israel. Isto mostra que o uso de maldições como pedido de castigo divino contra os inimigos era aceito e praticado por todos eles.

Um dos povos era o de Moabe, cujo rei era Balaque, o qual é apresentado pelo texto bíblico como aquele que toma toda a iniciativa na ocasião. Outro é o povo midianita que vivia tanto no Sinai como ao leste do Jordão, nas regiões desérticas e, outro, o próprio povo de onde foram buscar Balaão, o profeta contratado para realizar o trabalho de enfraquecer Israel por meio de maldição. Sua terra de origem chamava-se Petor (Nm 22,5) e, possivelmente, deve ser situada no norte da Síria.241

L. J. Coopes ao discorrer a respeito do termo hebraico llæq; (qâlal) diz que os gentios pensavam que os homens poderiam manipular os seus deuses ou o próprio Deus. Daí a maldição lançada por Golias contra Davi (1Sm 17,43) e a busca de Balaão para amaldiçoar Israel (Nm 22,6). Eles só diferiam de Israel por não levar em conta que a maldição sem base não tinha nenhum efeito, como se vê em Pr 26,2 ("Como pássaro que foge e andorinha que voa, maldição gratuita não atinge a sua meta"), e que ela só poderia operar efetivamente com a permissão de Deus.242

Embora não se encontre nenhum registro bíblico a respeito do uso de maldições pelo povo egípcio, parece ser oportuno, devido ao estreito relacionamento de Israel em sua formação com este povo, citar, mesmo que de passagem, um interessante costume praticado nesta nação. Segundo Aage Bentzen, os egípcios também usavam maldições buscando auxílio divino para castigar e destruir os seus inimigos. Eles faziam uso, inclusive, da maldição acompanhada do ato simbólico. Era costume deles, para criar desgraças para os inimigos,

241 Ibid., p. 177.

242 L. J. Cooppes, llæq; (qalal) em R. Laird Harris (ed.), Theological Wordbook of the Old Testament, Chicago, Moody Press, 1980, p.800. v.2.

escrever seus nomes em vasilhas de barro e depois quebrá-las.243 Isto era utilizado, também,

de forma mágica, contra nações que estavam em guerra contra o Egito, e Hans-Joachin Kraus chega a apontar para algo semelhante no texto do Sl 2,8-9, onde se encontra uma alusão a reger nações inimigas com vara de ferro e despedaçá-las como a um vaso de oleiro.244 O texto diz assim: "Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade. Tu as quebrarás com um cetro de ferro, como um vaso de oleiro as despedaçarás".

A Bíblia não está interessada, ou não tem como propósito, apresentar os costumes, sejam religiosos ou sociais, dos países próximos de Israel. Mas, mesmo assim, pelo que foi apresentado até aqui, é possível notar que o uso de maldições era uma prática comum aos povos daquela região e que eles as usavam como automaldição como forma de garantir o cumprimento de decretos e, ainda, como pedido de castigo divino contra os inimigos.